Life in the box

Esse feriado que celebra a morte e a ressurreição de Cristo foi bastante revelador. Há um tempo comento aqui no MVG sobre as diversas “caixinhas” comportamentais que formam a nossa zona de segurança e estimulam nossas atitudes de maneira quase que padronizada. Primeiro que tomar consciência desses padrões é uma tarefa árdua e nem sempre destinamos tempo ou conhecimento disso para tentar modificar. Segundo que, mudar padrões comportamentais – principalmente aqueles que nos bloqueiam para algum tipo de desprendimento ou desapego – é bastante difícil.

Posso citar um exemplo que ocorreu na sexta-feira, para tornar essa ideia mais clara: até meus 33 anos, idade que iniciei uma profunda revisão de valores sobre as pessoas e a minha maneira de me relacionar com elas, a forma de interagir com meu pai e minha mãe seguiam um padrão bastante frequente: aos meus olhos, meu pai era um cara intransigente, explosivo e controlador. Para me desprender dessa sua maneira, foram anos revendo a imagem que havia construído dele e foram anos de traumas a serem superados diante uma relação deveras conflituosa. Sempre que meu pai e minha mãe discutiam na minha frente, e notava um “calor” a mais no debate, me colocava incontrolavelmente a favor de mamãe. Eu entrava no meio da discussão com bastante emoção e – em certa medida – protegia minha mãe de forma bastante intensa, tipicamente ariana.

Meu pai, assim, ficava um longo tempo sem falar conosco e aquele “climão” se prolongava até que o orgulho ferido de alguém recuasse. A energia de egos doídos e melindres se perpetuavam.

Para mim, era como se fosse um estímulo automático: sempre que se excediam nas discussões, “ligava” em mim um tipo de comportamento padrão, em defesa a minha mãe e, a emoção de fúria por dentro, me dominava sem que eu tivesse a chance (ou até mesmo a vontade) de fazer diferente. Pra mim, ser daquele jeito fazia sentido e, qualquer coisa diferente, não cabia.

Mas e as frustrações, sentimento de culpa e exposição dos dias depois? Era um sofrimento viver com aquilo.

Acontece que na Sexta-Feira da Paixão, depois do bacalhau na casa de meus pais, fiquei mais um tempo por lá conversando com os dois. Tinha levado o Tango, meu cachorro, que se divertia com um osso comprado pela minha mãe. De súbito, como era típico do meu pai, ele começou a implicar com a minha mãe sobre algum assunto relacionado a minha cunhada (é histórico sua antipatia por ela). E por algum motivo, ele começou a ficar irritadamente descontrolado, como eu (sinceramente) não via há mais de cinco anos. Alguns minutos se passaram e, minha mãe, diante tanta pressão, acabou explodindo como – nesse caso sim – não via há mais de uma década.

Estava formado um padrão comportamental vindo dos dois que, fatalmente, despertava de mim (filho) um posicionamento padrão citado acima: uma emoção (ira) vindo a flor da pele e uma atitude impensada de defender a minha mãe.

Diante daquela cena intensa, cheia de emoções e transtornos de ambas as partes, eu naturalmente entraria no jogo com um mesmo tipo de emoção. Mas naquele momento inédito, mesmo a frente de todos os estímulos que “ativavam” dentro de mim um jeito padrão de agir, repetindo as incontáveis vezes que eles se excederam, mantive o controle. Deixei ambos exaurirem as emoções – meu pai fatalmente parecendo o “diabo” e minha mãe gritando e chorando ao mesmo tempo – e me coloquei a falar.

Na medida do possível fui imparcial, deixando bastante claro para meu pai que, quem estava “viajando na maionese” era ele. Que ele não teria o direito, por mais que fizesse algum sentido, de coibir daquela forma certas posturas da minha mãe que não o agradava.

Finalizei a conversa dizendo assim:

– É uma vergonha dois senhores de mais de 70 anos brigarem como duas crianças birrentas e autoritárias. Estou me sentindo o pai de vocês.

A coisa se acalmou na hora, embora os dois estivessem fechados um ao outro. Meu pai fugiu de casa por um tempo.

Voltei para minha casa guiando o Tango e fui pensando na minha postura diante aquela cena. Estava mais que claro para mim, que o Flávio estava longe de ser indiferente para não ser “afetado” pela energia ruim e estragar o final de semana. Seria minimamente um egoísmo ou uma covardia. Participei do começo ao fim, como filho, mas de maneira totalmente diferente. Fora da “caixinha” que me cabia e cujos comportamentos eram padronizados naquele ambiente.

Longe também de querer conciliar algo entre os dois, adultos, que se propuseram a viver aquela relação por mais de 40 anos.

Olhei para o céu, que por sinal estava aberto e lindo, e agradeci. Agradeci por estar livre de uma das caixinhas mais resistentes da minha vida.

Faz mais de um mês que eu e o Rafa terminamos. Seria o óbvio eu postar aqui a novidade. Mas não fiz, assim como até o presente momento não retomei os hábitos dos aplicativos. Um amigo até estranhou eu não ter instalado. Logo disse a ele:

– Eu sou uma “metamorfose ambulante” – o que tira muito da segurança das pessoas por que a maioria visa padrões. Mas vamos combinar: quem precisa estar seguro sou eu. As pessoas, bem, estão em sua maioria vivendo suas caixinhas e esperando que o outro cumpra funções esperadas, as vezes felizes, as vezes sufocadas, sem saber a direção da saída, ou melhor, da mudança daquilo que desgasta.

Na sauna, reencontrei um amigo que não via há anos. Ele fazia toda uma linha “pseudo pudica” e naquele tempo de amizade eu era alguém bastante ingênuo e carola para me imaginar dentro de uma Chilli Peppers. Em certa medida, ele cobiçava aquele meu estado pueril. Uma de suas primeiras frases no reencontro reforçou a mesma linha que, pelo visto, depois de mais de uma década, não havia mudado nada. Dentro da sauna ele lançou:

– Ai, que lugar pra gente se rever depois de tanto tempo, né? – sugerindo uma “vergonha”.

– Ué, eu sempre soube que você curtia essa putaria. A novidade pra você talvez seja eu aqui dentro que, pra falar a verdade, trato isso aqui hoje como se fosse um passeio no parque. Não tem nem como fazer uma linha Cristã de toalhinha. Relaxa e goza.

Life in the box although I prefer out of it.

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