Limiar da dependência

No post anterior o leitor “Xcrotinho” se mostrou bastante contrário a minha visão, sobre como gays deveriam ter mais espaço pelos seus direitos, sugerindo que o MVG assume uma postura muito neutra a respeito desses assuntos, quando não “armariada”, como ele mesmo se referiu.

Nos momentos livres do meu dia – e confesso que ando numa correria incrível de trabalho – o assunto pintou em meus pensamentos e achei justo deixar de maneira clara o meu posicionamento sobre o tema, quando me refiro aos direitos gays em nosso contexto social brasileiro.

Me incomoda profundamente o vitimismo e certa síndrome cultural/social de dependermos de entidades superiores (seja Cristo, político ou sabe-se lá quem a gente coloca como superior) para conquistarmos algo. Sei bem do solo que piso e reconheço que, preso a nossa cultura, existe esse costume de esperar que outros exerçam conquistas por nós, nos mais diversos âmbitos, e nesse caso como gays.

Na minha trajetória como um homossexual, perante meus pais, amigos e relacionamentos, conquistei meu espaço digno, de respeito e até mesmo de admiração, sem alardear demais, muito menos esperando que um terceiro ou uma “entidade superiora” tornasse meu contexto mais suave, prazeroso e confortável. Se objetivei suavidade, prazer e conforto em meu universo, e na maneira que as pessoas me enxergam como gay, foi por atitudes próprias. Equivoca-se quem achar que o meu particular enfrentamento por ser homossexual teve alguma coisa a ver com condição social e material pois, se o assunto é a homossexualidade no contexto nacional, toda a energia recai em um único conceito: postura.

Acho um sedentarismo, uma moleza e uma maneira equivocada esperar que o Estado ou a Federação debrucem muitos esforços sobre as demandas dos brasileiros. Mal aprendemos a seguir uma trajetória contínua sem corrupção massiva, quando o caráter está em jogo e quando se espera a mais cristalina honestidade. É uma aberração a escolha ministerial. É assustadora a escolha do novo líder da Petrobrás. É de se pasmar com os mais de 80 bilhões roubados e manipulados para interesses egoístas.

Imaginem, então, achar que os governos atenderão demandas específicas, de nichos da sociedade? É pedir demais, é sonhar, é esperar demais. Então é melhor fazer sentado. Aliás, assumam a condição de parasitas porque criticar o Blogueiro é easygoing.

Reforço que, sim, dentro do palácio, os diversos “presidentes” estão disputando o poder. Dilmãe se mostrou a favor dos direitos dos homossexuais na época das eleições, embora tenha utilizado a palavra “homossexualismo” em seu plano. Cunhão acabou de sentar a bunda em sua cadeira superiora para mostrar que também manda. Curioso tal figura querer vetar justamente um projeto que a presidente se mostrou a favor. Coincidência? Afronta direta aos gays? Desculpe a parcela de ingênuos e apaixonados leitores, mas ele não está nem aí para o tema em questão. Ele quer mostrar para a mãe que também manda. Basicamente isso.

Ao mesmo tempo, há um teor simbólico de interesse da própria Dilma em falar dos direitos dos gays. Político tem que se agarrar a algumas causas para construir reputação perante grupos de eleitores. Na época das eleições ela abraçou os gays. Onde está a sua majestade, num momento em que Eduardo Cunha ataca? Onde está a “íntima afinidade com os homossexuais” da Madre Superiora nesse exato momento?

Somos tolos e estamos no meio desse embate. Os jornais lançam as ações dos presidenciáveis e nos colocam sob confronto civil virtual (porque de guerras e lutas efetivas o brasileiro pouco entende). É muito rasteiro perdermos nosso precioso tempo em discussões intermináveis, dos contra e a favor de nossos direitos. Perdemos um tempo absurdo, jogamos verbo ao ar e o fato é que nem a presidente do Brasil, nem o presidente da Câmara dos Deputados farão alguma coisa para nós. Mas, entre eles, estão confrontando poder.

O jogo é simples: lá no altar, atacam-se levianamente num confronto direto de autoridade. Apropriam-se de temas divergentes mas de interesse público, para que nós, sociedade brasileira, entremos em confronto ideológico. Nos dispersamos do foco.

Desculpem, mas somos imbecis em achar que existe algum partido, candidato ou político que chegará na Terra, tal qual Jesus Cristo, e passará a mão em nossas cabeças para suprir nossas demandas existenciais.

Claro que temos direitos. Direito de ver o Brasil prosperar, direito do exercício da honestidade, da fidelidade e do comprometimento. Direito sim, dos gays terem a mesma autonomia e benefícios que qualquer outro indivíduo. Mas afirmo que tem muita gente que espera demais de uma entidade superiora. Façam valer a pena por si só e eis o ponto central do meu discurso. Falem menos, ajam mais com as suas próprias vidas.

Acordem, por favor.

5 comentários Adicione o seu

  1. Xcrotinho disse:

    MVG eu confesso que não entendo esta mania binária de pensar as coisas. Eu não falei nem em Dilma, mas já vi que pela sua resposta você me carimbou como filiado ao PT e súdito da majestade só porque eu critiquei Eduardo Cunha. Vou nem entrar nesse assunto.

    Você tocou em muitos pontos tanto na primeira postagem quanto na sua resposta e seria inviável eu tentar explorar todos e até mesmo me aprofundar, até porque não gosto de perder tempo com discussões intermináveis de internet. Mas juro que tentarei ser objetivo.

    Da mesma forma que te incomoda a postura que você considera vitimista, também me incomoda a forma como você e muitas pessoas falam do Brasil como se fosse o único lugar do mundo onde existe corrupção e desigualdade. Realmente existe muito jeitinho brasileiro de fazer as coisas, mas acho injusto colocar o Brasil como exclusivo da corrupção. A questão da Petrobras vai muito além disso inclusive, pois o Petróleo há muito tempo é o centro dos grande conflitos mundiais e não é à toa que ela sempre surge como protagonista de escândalos em período eleitoral no Brasil.

    De qualquer forma, acho complicadíssimo comparar o Brasil com EUA, países da Europa ou de qualquer outro lugar sem considerar a história, a cultura e tudo mais. Não dá! Além disso, o discurso de direitos iguais é muito lindo, porém não faz sentido em lugares onde determinados grupos pessoas são tratadas de forma extremamente desigual.

    Outro ponto delicado é sua postura de bater no peito para falar que você fez isso ou aquilo sozinho. Faz parecer que você é um super-herói, independente do contexto social e político do mundo em que você vive. Gostaria inclusive de entender o que você quis dizer com a palavra “postura”, pois soou bastante prepotente da sua parte.

    E neste ponto eu devolvo sua dica: Acorde você! Não desmereço em nada suas batalhas e conquistas, sei que são frutos dos seus dilemas e concordo que condição material e social não garantem nada (mas podem ajudar sim). Contudo, você só pode se assumir gay porque existe uma condição política no seu país que permite isso e nada garante que isso que vivemos não possa retroceder. Pesquise como era a vida gay em Berlin antes do Holocausto e veja ao que me refiro. Pesquise sobre a quantidade de países ainda condenam homossexuais à prisão a pena de morte.

    A minha crítica foi em você, como blogueiro, formador de opinião, postar o Eduardo Cunha, um político que deixou claro que vai atrapalhar qualquer coisa que envolva agenda glbt, praticamente como uma pessoa inofensiva para a vida dos gays. Eu espero sinceramente que você nunca precise ser atacado verbal ou fisicamente para achar que falar em homofobia é mero vitimismo ou desejo por privilégios.

    Aí você vem me dizer que criticar o blogueiro é ser parasita e ter atitude easygoing? Pergunto se acharia o mesmo se eu estivesse te enchendo de elogios e dizendo que você mudou a minha vida com o mesmo post. Gato, você está expondo suas ideias na internet. Se não quer saber o que as pessoas pensam sobre o que você escreve, faça um blog sem espaço para comentários.

  2. minhavidagay disse:

    Ok, Xcrotinho… fica aí o seu desabafo de novo. E uma dúvida: o que você faz, de fato, para melhorar ou mudar a nossa condição gay no contexto brasileiro além de escrever um ótimo texto reativo?

    Sobre o meu posicionamento, é o meu posicionamento (rs). Não vai mudar por eu ser alguma espécie de formador de opinião. Aliás, até agradeço o título. Você pode até reagir negativamente, como fez no comentário do post anterior e neste aqui, mas isso só alimenta o que já sugeri: somos idiotas de ficarmos confrontando posturas enquanto eles lá, no palácio, não farão absolutamente nada por nós.

    Eu e você queremos o mesmo, mas de uma maneira diferente. Aceite apenas isso.

    PS: esse post, ao contrário da propriedade que você deu, não foi escrito para você (rs). Foi escrito para esclarecer meu posicionamento. Sei lá se você é filho da Dilmãe… sei lá de sua postura fora da tela da Internet… sei lá. Capiche?

    Valeu!

  3. Xcrotinho disse:

    Acho interessante você escrever um post para “esclarecer” sua opinião quando apenas uma pessoa se na manifesta e você a menciona no início do texto e complementa na resposta dizendo que ela está assumindo um propriedade maior do que ela realmente teve. Desculpa, por ter me considerado muito importante no seu texto, heheehhe!

    Eu faço parte da massa de leitores que merece ser guiada pelo brilhante gaya espiritual, que nem merece sua atenção. Você ainda questiona o que eu faço para melhorar a vida gay, além de escrever um ótimo texto reativo sem nem saber quem eu sou. E você, o que você faz, além de criar um blog e vender pulseiras personalizadas com “função social”?

    Essa sua atitude “I don’t give a fuck” é fantástica, te dou os parabéns. Me pergunto se fui eu mesmo que fiquei com o ego ferido. Nem se preocupe em responder, porque vou dar unfollow. E como você diz: Beijo para quem é do beijo e abraço para quem é do abraço. Acrescento: Tapinhas nas costas pra quem é da brodagem.

  4. Abdré Galvão disse:

    Entendi perfeitamente o contexto deste texto e também, o lado do colega que expos sua opinião. Na minha humilde opinião (rs), tenho mais a concordar com o MVG. Acredito que muitos de nós gays, batem o pé pela igualdade de direitos e tudo mais, porém, falta algo que é de extrema importância o RESPEITO, porém, não o respeito ao próximo, e sim o respeito primeiramente a si mesmo! Como exigir que alguém lhe respeite, que pessoas tomem para si sua causa e ideologia, se nem mesmo muitos de nós nos respeitamos? A “POSTURA”, sim ela é e se faz importante, a postura que falo não se da na forma de vestir e etc…. Mas sim, em como você se comporta na sociedade e se faz para ser respeitado! Lembrem, hoje em dia as pessoas estão mais abertas, porém, de qualquer forma ela são de outras gerações, onde as coisas eram mais retrógridas ainda, elas não são obrigadas a aceitar, porém, devem respeitar, só que isso somente irá acontecer á partir do momento em que vc se respeitar, quando isso ocorrer ai sim, podemos exigir ao do próximo. Não adianta querer jogar na cara e forçar a sociedade aos trancos em aceitar com naturalidade abrupta! O comportamento de cada um é que trara resultados, claro em somatória moverá montanhas, primeiramente antes de ter em mente em mudar uma nação, porque não busque com suas atitudes, ideiais fazer com que as pessoas ao teu redor entendam e aceitam você e quem quer que seja…..
    Resumindo: As nossas atitudes, resultaram nas reações dos próximos, antes de exigir que os demais lhe respeitem, primeiro você precisa se respeitar…

    OBS: To numa correria aqui no escritório e não sei se me fiz entender perfeitamente e claramente….rsrsrs, mas espero que tenham entendido!

  5. Matheus disse:

    Pra mim, essa questão de “dar-se ao respeito” é uma grande bobagem, devido ao seu teor subjetivo. Beijei um cara na rua e apanhei por isso; exemplo extremo (e fictício), mas meu agressor alega que eu fui desrespeitoso e cometi atentado ao pudor. Ele tá errado?
    Já ouvi uma vez, em algum lugar do qual não me recordo, que humildade foi uma coisa que os ricos criaram pros pobres seguirem. é só fazer a analogia.
    Não pauto minha postura e conduta em princípios morais, mas nos éticos.

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