Loucos aos 40 anos

Quando um padrão sobe a cabeça

Aos 23 anos, quando iniciei meu longo processo de assunção por ser gay, vivi meu primeiro namoro e abri minha primeira empresa, esta que se mantém por 18 anos, convivi – logo na entrada da minha vida de empreendedor – com loucos aos 40 anos.

O pai de um amigo, diretor de uma grande indústria farmacêutica, a época próximo dos 50 anos e um parceiro importante que muito apoiou os primeiros anos da minha empresa, a época também na faixa entre os 40 anos e os 50 anos, viveram o mesmo tipo de surto: enlouqueceram em querer saltar de padrão de vida (que já era bom, por sinal) para algo sem proporções.

O clássico dar um passo maior que as pernas

Para um ingressante como eu, nessa onda de ser empresário, percebia tudo aquilo com um sentimento de estranheza e bizarrice, embora os admirasse e os tivesse como referências em outros aspectos da vida.

Mas meu lado pé no chão, nipônico, de olhar a importância do caminho e perseverar day-by-day, logo percebia aquilo com um sentimento muito legítimo: “é impossível essas empreitadas – idealizadas por eles – darem certo! É querer ganhar dinheiro fácil, é querer enriquecer de uma maneira improvável, com fórmulas mirabolantes. São tipos de atalhos que, para mim, não existem”.

Vi esses homens sucumbirem no próprio sentimento de ganância e status, como nos filmes da Disney nos quais os mais maquiavelicamente ambiciosos, despencavam do penhasco. Ou como o Gollum que, na sede do poder absoluto, afundou nas lavas profundas do vulcão junto com o anel.

Embora, na vida real, fossem pessoas boas e, como disse, o segundo principalmente, muito me ajudou nos primeiros anos – difíceis – da minha empresa.

A diferença entre empreender e ser cego

Podem tem certeza que, um bom empreendedor, no mínimo, se vai colocar em risco 50 é porque tem mais 50 guardado. No mínimo. E o que eu presenciei depois de ver esses homens apostando 100 de uma vez, foram agiotas arrancando tevês da recepção, fuga pelas portas dos fundos, empregados com mais de três meses de salário atrasado e, até, compra de CPF falso para recomeçar a vida há quilômetros de distância. Sequência após sequência do “jeitinho brasileiro” se manifestando em pulsos e impulsos, mediante a manifestação do cúmulo do desespero. Desespero por estarem em situações como essas e despero, ainda, de dar uma guinada na vida da noite para o dia!

Tudo isso saltando aos olhos de um aspirante ao emprededorismo: eu.

Soube, posteriormente, de alcoolismo, acidente e tentativa de suicídio. Não necessariamente nessa ordem. Porque ainda, há quilômetros de distância, tentaram outras ideiais mirabolantes de enriquecimento fácil, a ponto de faltar comida para a família.

Hoje estão vivos, mas nunca mais recuperaram a integridade. Um deles é sustentado pelos filhos e o outro, até onde tive notícias (e faz tempo), encontrou seu caminho, enfim, em alguma religião Cristã. Virou meio que radical. Na verdade, já era e só está focando essa energia em outro objeto agora.

Luz ao final do túnel

O lado bacana, descolado e positivo que a gente vê por aí nas mídias, YouTube e livros, para quem corre atrás de assuntos de trabalho, desenvolvilmento pessoal e profissional e empreendedorimo, é que muita gente nessa faixa dos 40 anos (alguns até antes disso), resolve dar uma virada na vida profissional.

O sonho de trabalhar no grande ou multinacional mercado corporativo – que a mim nunca comoveu por, desde 22 anos ter ciência que era um mundo ilusório altamente hierárquico – tende a se desmanchar para muitos que adentram os 40 anos.

Vemos cases em revistas ou sites, ouvimos de amigos e colegas guinando a vida para novos horizontes: abandonam o corporativismo e vão “montar a banquinha” nos nichos mais diferentes. Reduzem o ganho mensal mas, segundo esses novos rumos, deparam-se – enfim – com a felicidade! Outros vendem ou se desfazem da vida em terras-brasilis e vão descobrir desafios em outros países.

Tudo isso é válido e digno. Os mercados estão mudando, as sociedades também e parece que, graças ao bom Universo, muitos estão tomando a consciência que o status do corporativismo é um tacho enorme e bem decorado de ilusões.

E as trevas

Duas facetas da mesma moeda, a vida, e quase que preto e branco se a gente compreender as coisas pelo olhar do latino-brasileiro-cordial: há quem adoece pelo status, como os exemplos deste post e eu achava até então que isso era geracional, desses homens que cruzaram a minha vida quando eu tinha 23 anos e eram em certa medida meus mentores.

Mas foi numa conversa com um amigo muito querido, que também é meu cliente, que fiquei sabendo do seu contexto atual. Está na faixa dos 40 anos como eu e é alguém que sai com relativa frequência na grande mídia, como um dos porta-vozes importantes da sua área.

Só que, a mim, que o conheci na época da faculdade, essas camadas imagéticas não me iludem e, provavelmente, sou daqueles poucos que ele senta, abre o zíper da personagem, se despe e apresenta a realidade que é.

Há três anos, para perpetuar o status, está endividado com três bancos, vendeu carro recentemente e sofre todos os meses para bancar ele e sua família. E vou contar: trabalha-para-caralho. Eu trabalho muito, tanto quanto ele, mas se tenho 50 para arriscar, é porque tenho – no mínimo – 50 guardado, hipoteticamente.

Em sua postura de humilde-amigo-arrogante, o mesmo que conheci a época da faculdade, período em que todos viviam de muitas provações e autoafirmações ainda, tive que ouvir hoje mesmo: “…é coisa de novo rico”.

Azedou um pouco meu estômago.

Isso é um alerta

Longe de banhar este conteúdo de pessimismo pois, da intenção profunda que vem do meu peito, isso é mais um alerta de um padrão comportamental tóxico (de uma minoria que seja, mas ainda um padrão tóxico) de pessoas que estão vivendo a faixa dos 40 aos 50 anos.

Esse tipo de milagre não existe, queridos leitores. E que essas linhas sirvam de aviso para quem quiser ser lembrando, assim como eu, aos 23 anos quando olhei para aqueles meus homens-mentores e os vi sucumbir em suas loucuras dos 40 anos. Isso pode acontecer com qualquer um.

O que as pessoas não fazem com a própria alma para sustentar uma imagem?

Chamei esse meu amigo para almoçar um dia. Espero que aceite.

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