Lula Livre

Lula Livre para quê?

Para alguém que se posiciona como centro esquerda como eu, mesmo não acreditando muito mais nesses valores ideológicos de “direita, centro e esquerda”, Lula Livre é, antes de mais nada, um ópio. No mínimo, parece que a vida sendo comandada por um chefe de esquerda é mais leve. Mesmo que esteja uma merda.

Há séculos coube a direita assumir um papel do vilão, supostamente atenta às demandas das classes mais abastadas, do industriário (e não do operário), afeito as práticas de guerras e conflitos, do desenvolvimento do país a partir da produção, do Capitalismo e de, as vezes, carregar um discurso mais frio, orientado a importâncias econômicas, ganhos a todo custo e não à humanidade.

Em resumo, ser de direita

Em linhas gerais, o indivíduo de direita, conservador, busca resguardar valores patrimoniais e/ou tradicionais. Por exemplo, o movimento do Brexit, do Reino Unido, foi tipicamente um intento conservador em pleno século XXI, contrariando vontades – inclusive – da direita liberal, cujo interesse tende a apontar para os fluxos e ganhos do livre mercado, inclusive os estabelecidos a partir da fundação da União Europeia.

Pensadores de direita conservadora tendem a preferir por um Estado amplo, controlador, autoritário (tipo Trump) que dite as regras e leis de suas verdades. Pensadores da direita liberal, tendem a focar na liberdade do indivíduo que, quanto mais produtivo, mais autonomia merece para si, supostamente e também do Estado.

Ser de esquerda

À esquerda, originalmente criada na Europa, ficou o papel de representar a classe operária, os interesses daqueles que viviam sob regras particulares – e muitas vezes exploratórias – dos donos das indústrias. Essa é a origem. Sem mais, nem menos.

Mas de sua origem para cá, outros conceitos foram se aglutinando com o caminhar dos anos, dos interesses de líderes e das sociedades e, a ideia de esquerda, como o Estado amplo para subsidiar parte ou a totalidade dos recursos para a sociedade foi chegando.

A ideia do acolhimento às minorias e aos supostamente menos favorecidos, excluídos, periféricos, como o exemplo atual dos Sérvios, fugitivos dos conflitos de seu país, foi sendo abarcada pela esquerda.

E assim, em linhas gerais, no movimento histórico das sociedades, o indivíduo foi construindo suas ideias sobre direita e esquerda. Mas já digo que não foge muito da Bíblia: foram-se aglutinando valores e se moldando diante interesses específicos de grupos em contextos de espaço e tempo.

O homem se desespera na crise…

A clareza e a beleza da história sempre se constituem quando vira passado, no livro de história, no Google. Penso que uma das grandes limitações do ser humano, salvas algumas raras exceções (talvez como Yuval Noah Harari ou Steven Pinker), é não conseguir compreender com a justa dimensão e clareza a realidade, a abrangência do tempo em que vive. Principalmente quando crises, conflitos e depressões globais são mais frequentes do que o indivíduo gostaria de passar em vida.

Durante as curvas descendentes da vida em sociedade, o ser humano é obrigado a deixar de se abastecer ou bastar com o pequeno universo que frutifica em seu entorno. Adeus, carpe diem dos Hobbits, quando a textura do frango e as cores dos vegetais são as principais preocupações. Bem-vindo climão de Mordor, quando eu tenho que olhar para o horizonte, percorrer outros ambientes desconhecidos para ainda correr o risco de me dar mal.

Um vulto maior passa a assombrar o ser humano, o pavor coletivo, a animosidade coletiva, a ideia alheia de solução imediata que parece incompatível com seus valores, movimentos abruptos de um terceiro ou quarto, o sofrimento de um familiar, um amigo ou um conhecido desempregado, o preço dos alimentos que não pára de subir, o potencial sumiço do mesmos nas prateleiras do supermercado, o fechamento de indústrias e lojas, a dificuldade de adquirir aquele bem de consumo que, antes, era acessível e prazeroso de ter. Frodo Baggins desconfia até de Sam e isso não é mera analogia!

***

Ou, antes mesmo de tudo isso rolar, como aconteceu nas manifestações de 2013 no Brasil (e nessas semanas aconteceu algo semelhante no Chile), uma sensação de estagnação pendendo ao declínio, foram suficientes para levar milhões as ruas do país inteiro, gritando por vontades, necessidades, desejos que, a princípio, partiu do único inconformismo do aumento da passagem de transporte de ônibus.

Mas a Alice do País das Maravilhas, vulgarmente conhecida por Dilma, dizia que a ideia do país em crise era conspiração da oposição!

…e entontece nos bons momentos

Quando as coisas estão bem, as pessoas estão empregadas, o poder de compra está em alta, a facilidade de troca de emprego para um outro supostamente melhor (principalmente para quem está ingressando na profissão) é real, as empresas de inovação estão apresentando para o mundo as mais transformadoras ideias, as dinâmicas econômicas das sociedades estão ativas e fluidas, países antes assolados pelo subdesenvolvimento passam a despontar junto com os gigantes; os projetos e planos econômicos estão sendo executados e sinalizam avanço e crescimento, indivíduos geniais em suas respectivas áreas (no último ciclo próspero foram os caras da área de tecnologia digital, como Gates, Jobs e Zuckerberg) se despontam e viram referências de criatividade, jovialidade e sucesso…

…quando as coisas estão bem, tendemos a olhar para a nossa vila, a “Vila dos Hobbits”. As pessoas não quererem olhar para o todo, culpar o vizinho e o representante da oposição. Mesmo porque, o ego do ocidente é tido como “ego atômico“.

Não precisam dar atenção para aquela cartada econômica duvidosa, para aquele discurso de terceiro ou quarto que lança culpas ou responsabilidades pelos males do país ou do mundo. Porque não há males. Deixamos um autocrata da vez aproveitar do bom momento e fazer sozinho.

Quando as coisas estão bem, estamos produzindo, produtivos, consumindo os consumíveis em alto e bom som ou discretamente – dependendo do estilo, moda ou trejeito de cada um – as benesses de uma máquina Capitalista global, das engrenagens econômicas girando em compasso e fluidez para, igualmente, fazer voltar nossos olhares para a pequena circunferência de sucessos e prosperidade de nosso entorno.

Dark ages

Já ouviram falar na “Era das Trevas”? Há historiadores que contestam aquele período, alegando que o Iluminismo predominante levava o homem daquela tempo a devorar o conhecimento como nunca antes.

Eu entendo que “Trevas” e “Luz” compõem uma dicotomia advinda de nossa língua, de nossa natureza humana, de nossa fantasia e do simbolismo necessário para que o homem afirme e reafirme suas sensações com algum sentido. Foram claramente apropriados pelo Cristianismo na cultura latina, esse que exala dos poros latinos por menos Cristão que sejam, por mais longe que passem da igreja. Aqui, nessa terra chamado Brasil, nunca a ideia de “bem VS. mal” foi tão dramaticamente expressa a partir de tudo que vem do nosso tipo de polarização.

Entendo que para alguns pensadores, estudiosos, historiados, sociólogos, psicólogos e professores, a “Era das Trevas” do século XXI poderia estar se configurando: movimento separatista na Espanha, epidemias de doenças praticamente erradicadas acontecendo em diversos cantos do mundo porque as pessoas passaram a contestar a vacina, movimento dos terra-planistas, crentes aos reptilianos, o Reino Unido em intento de separação, conflitos e crises em todos países da América do Sul, polarização extremada, cientistas adiantando o tal do Relógio do Apocalipse, iminência cada vez maior de um grande asteroide atingir a Terra e, não menos importante, Lula Livre (rs).

O último foi uma brincadeira, antes que os esquerdistas jurássicos me xinguem.

Duas faces da mesma moeda

Independentemente de como a sociedade brasileira queira enxergar, a libertação de Lula tem muito água para rolar para se conclamar vitória. Já que essa coisa de “vitória”, de tomar cachaça para comemorar, “sextou” e urros opiáceos nas redes sociais, só denuncia nossas estéticas (formas) de polarização, bem como os urros de contrariedade. “Só no Brasil” as pessoas vão chorar pela vitória de um presidente. Foi assim com Lula, foi assim com Bolsonaro.

Irônico que o “L” de Lula com as mãos e o “L” de Bolsonaro armado variam apenas com uma mínima mudança de ponto de vista…

***

Sob o aspecto macro político, que envolve Lula, Bolsonaro e todo nosso sistema político vigente em um contexto local e todos os demais países em um aspecto mundial, não chego a crer na Era das Trevas, no aspecto deprimente que muitos interpretam como se realmente Voldemort estivesse voltando. Mas entendo que, na média, o mundo todo ficará mais achatado (e não plano, não me confundam) por alguns longos anos. Até que se estabeleçam novos alicerces, modelos, engrenagens e mecanismos para sustentar este, o famigerado Capitalismo que, a mim, jamais será substituído por outro modelo, a não ser uma nova versão dele mesmo.

O momento é prato cheio, já há algum tempo, para que os mais extremistas e utópicos conclamem (mesmo conhecendo somente até a página dois) a ideia e/ou fantasia do Socialismo e/ou Comunismo, lembrando que historicamente sempre houveram “meia dúzia” de neguinhos idealizando esses modelos em contextos de depressão. Principalmente em contextos de depressão.

O fato que a mim não me deixa iludir, equivocar e – pior – agir perante esse achatamento intelectual proveniente da polarização, é que Lula e Bolsonaro são as duas facetas da mesma moeda, considerando que a realidade mundial realmente e por infortúnio tenha o caminho estreitado para os próximos anos. Na real, a treta é que ninguém gostaria de viver a “Era das Trevas”.

Cuspes e bofetes

Congruente a esse pé direito mais baixo, ao ar mais espesso, ao plano mais achatado, estão todos esses filhos, tios e avós atuantes com a mínima expressão que seja para dar combustível à polarização. A polarização é a nossa “parte negra” do barato todo.

Como comentei a um amigo:

“(…) a permanência em uma das pontas da polarização é a manifestação pura da estagnação. Se a gente quer mudar o país, o mundo, não vai ser habitando a polarização que vamos sair do lugar (…)”

***

Ao mesmo tempo, também consciente, me posiciono niilista perante a política atual e ao movimento da maioria. Para não dizer com fortes pensamentos anarquistas nas horas vagas (rs).

Uma parte de mim, no fundo ou não tão fundo assim, gostaria de ver tudo pegando fogo, como em “Joker”. Com Lula Livre, confesso, essa fantasia me soa mais palpável. Por esse motivo e somente esse, eu gostei de ver a libertação de Lula.

Essa coisa de antes cuspir, agora dar bofete e, quem sabe amanhã arrancar cabelos, é quase que um tratamento homeopático, com totais contornos latinos e cordiais. Novela da Globo.

Se a minha ideia é o esfacelamento da polarização (e esse sim é um desejo), talvez, ela só pulverize a partir da brutalidade.

No mais, pelos caminhos homeopáticos de nossa típica cultura, concluo com essa tirinha que, também, muito traduz o meu olhar:

lula-livre-e-bolsonaro-presidente

8 comentários Adicione o seu

  1. Nick disse:

    Criticar a mídia é uma coisa, agora ameaçar de cassar concessão de veículo de mídia é autoritarismo (e só um q ameaçou) , e centristas como vc igualando a critica de um com a crítica/ameaça do autoritário só normaliza o autoritário.

    1. Nick disse:

      É o msm q fazem nos EUA com o Bernie quando ele critica a mídia: igualam ele a Trump (q tbm critica a mídia), sendo q Bernie tem programa político 1000 km de distância do programa do Trump!

    2. minhavidagay disse:

      Qual dos autoritários? Rs na minha visão vejo ambos autoritários. Autocratas, populistas. Enfim, duas faces da mesma moeda como deixei explícito no texto…

      1. Nick disse:

        Pra mim autoritário é quem faz ameaça de não renovar concessão pública se a notícia da mídia não me agrada, e crítico é aquele q fala algo da mídia com fundamento. Tipo eu assisto a globo e acho q ela produz bons conteúdos e posso criticar ela por no jornalismo usar o termo “protestantes” quando é em outro país e usar o termo “vândalos” quando é aqui. Posso criticar ela por mostrar o pessoal venezuelano sofrendo com o presidente de lá e não mostrar o q o exército do Chile fez com os manifestantes lá (estupro e mortes)

      2. minhavidagay disse:

        Eu te entendo. Entre falar e fazer existe um fosso enorme. Agora, quanto mais alardeamos essas colocações emblemáticas de, no caso hoje Bolsonaro, mais cumprimos nosso papel no mecanismo do populismo.

      3. minhavidagay disse:

        Para esse caso em específico, podemos até achar que nossa “voz de protesto” vai evitar alguma coisa. Mas o que vai evitar mesmo são as regulamentações, o judiciário em casos mais extremos e o próprio poder da emissora que, a bem da verdade (para a esquerda ou direita) se quiser mostrar sua força, não é adversário fácil.

        Nossa voz de protesto, nesse caso, serve somente para o combustível necessário do populismo de Bolsonaro, dessa vez…

    1. minhavidagay disse:

      Oi Nick! Obrigado por trazer mais infos para o nosso debate. Bom, eu prefiro no momento observar a formação de contextos, novos contextos.

      De antemão, no meu ponto de vista, como eu disse que estou niilista (com ímpetos anarquistas nas horas vagas rs), uma instituição poderosa como a Globo deve ser realmente revista. Essas grandes empresas fazem parte de todo sistema que temos debatido. São peças de peso no jogo.

      Eu ando bastante cansado das instituições atuais (niilismo) e acho que essas mudanças, apesar do impacto inicial no que é atual e seguro (CONSERVADORISMO), tendem a trazer novas perspectivas.

      No mais, a Globo não vai afundar com alguma verba a menos de publicidade. Vai ter que, igualmente, buscar outros caminhos.

      Ainda, é tão conveniente e oportuno a tal emissora começar a divulgar cortes de funcionários nesse contexto! Quase que nos leva a uma associação imediata de que a “culpa” não é dela…

      Niilista, a gente tem mesmo que balançar as estruturas das instituições, independentemente de Bolsonaros da vida.

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