Mães de filhos gays

O último post foi uma homenagem para meu pai e aproveitando o ensejo do domingo, resolvi falar um pouco sobre a minha relação com a minha mãe. Antes de mais nada, fundamental citar que uma normatividade entre os filhos gays é uma proximidade maior às mães. Claro que a toda regra existem exceções, mas entendo que uma grande maioria dos gays possuem uma proximidade/apego maior as progenitoras e um simétrico distanciamento dos pais.

Bem ou mal, afirmo que do berço em que nasci, minha mãe sempre foi muito companheira, banhando de calma, fé e aconchego meus momentos mais difíceis e de muita amizade meus momentos felizes.

Faz alguns anos que ela deixou o altar do arquétipo de mãe e hoje caminha ao lado. Claro que as vezes assume um perfil mais maternal, das preocupações e tudo mais, mas rapidamente volta à posição ao meu lado.

Mamãe sabe de praticamente tudo da minha vida. Lado A, lado B. Só não sabe de tudo-tudo porque as vivências repetidas do lado B não merecem ser replicadas, no meu ponto de vista. Mas até sobre a sauna, com interesse de entender como funciona, ela ficou a par. Enquanto meu pai me achava (com certa razão) que eu era “porra louca”, ela nunca teceu um discurso do tipo “a culpa é minha! Dei muito liberdade ao meu filho”. Pelo contrário, foi aquela que me ensinou, sem dizer, para que eu olhasse para o mundo e o devorasse a minha medida, descobrindo sobre limites (e não medos). Ela, durante a vida toda, teve essa autonomia e buscou formar suas próprias referências de acordo com tudo que seu olhar enxergava fora das asas paterno-maternais. Meu pai dizia o oposto e desse núcleo paradoxal, fiz minhas escolhas de acordo com meus impulsos internos. E acredito que é assim que as coisas funcionam: o externo, considerando pais, nos apresenta suas verdades e, a partir dele e de acordo com o funcionamento individual, vamos definindo nossa circunferência, entorno, caixinha ao longo dos anos.

E pessoas como eu, revê esse entorno de tempos em tempos.

Recentemente comentei a ela que eu tinha herdado esse seu jeito de ser, de querer olhar para o mundo e construir minhas próprias referências e não necessariamente comprar a ideia que papai tentou emplacar com tanta força para meu irmão e a mim. A diferença, básica mas tão definitiva, é que ela sempre carregou uma personalidade mais suave e, eu, a energia da intensidade que, sim, hoje amenizou na medida dos meus 39 anos. Ela disse assim: “ô, muita intensidade mesmo! – rs. Você é ainda intenso, Flavinho – rs”.

Posso afirmar que, justamente pelo fato da minha relação com minha mãe ter sido sempre harmoniosa, não sinto grandes apegos por ela e talvez seja devido a essa referência que hoje busco por algo semelhante com um cara. Apego mesmo eu tive fortemente pelo meu pai, como opositor, o negando muitas vezes, mas certo e consciente hoje de que a nossa relação me colocava numa necessidade constante de provação a ele. Eis o apego. Um tipo de magnetismo que, quando em equilíbrio, não entraria por esses caminhos. Não existe rivalidade, não existe a necessidade de atender expectativas e, acima de tudo isso, não existe a necessidade de aceitação quando o apego é menor.

Durante mais de uma década da minha vida gay, projetava a relação com meu pai (arquétipo do homem) em meus relacionamentos. E vejo que muitos gays fazem isso: a maneira que nos relacionamos com outros carinhas, tem muito da maneira (positiva ou negativa) que temos nosso pai dentro da gente. A psicologia é imbatível pois há argumentos e não achismos ou imposição. E no momento em que acertei conscientemente minhas contas com meu pai nos últimos anos, como ilustro no post anterior, estou finalmente formatando uma nova maneira de me relacionar com homens. Afinal, sou gay e esse processo de “limpeza” nas relações dos meus principais arquétipos (mãe e pai) não me heterossexualizou (rs).

A busca por um companheiro passou a ser mais refinada. A medida que eu projetei meu pai em minhas relações, a maioria dos gays fazem isso também. Daí, quando noto essa projeção alheia sobre mim, é automático: esfria. Perco o interesse porque está superado, passei de fase, “a parada é outra agora” e não porque o outro está errado ou é inferiorizado. É simplesmente uma questão de combinação. São etapas da vida que a gente entra ou não. No meu caso eu entrei, com muito (e muito) esforço.

Some a tudo isso uma natural crise geracional, de pais e cujos filhos hoje ultrapassam a idade dos 25 anos. Sempre me interessei por pessoas mais novas do que eu, mas com todo esse filtro estou mais seletivo. Quem escolhe muito acaba sozinho? Não é bem assim que funciona…

O fato é que não tenho pressa. Pressa e ansiedade eu tive durante a maior parte do tempo nessa vida. Agora se inicia a fase de uma nova paz e a certeza de que posso ser um “ariano suave”, agora que aquele jeito impositivo, irritadiço e impulsivo – de “lavagem cerebral” de meu pai – se descolou de mim.

Agora eu estou sendo eu. E foi assim que aprendi com a minha mãe. Mães e pais que criam os filhos para si sofrem mais. E isso é um problema deles e não propriamente dos filhos. A evoluída experiência do desapego é para todos.

6 comentários Adicione o seu

  1. Pedro disse:

    Gil, mais uma vez, traz uma discussão semelhante à tua na canção Pai e Mãe, um samba com um estilo bem vetusto, com uma letra pra lá de interessante, e acima de tudo universal. Isso em 1975.

    Acredito que tenha sido uma escolha proposital de arranjo e tudo mais pra dar aquela atmosfera de passado. Mas a verdade é que muitas coisas que Gil escreveu que estão na letra dessa música, só hoje é que são tratadas com uma certa naturalidade pelo público em geral.

    Parece uma certa vocação a de Gil, de estar ali sempre a frente, sempre com os olhos no futuro. Certa vez, ele contou, que lhe perguntaram onde ficava no Rio a estação 2222. Ele não disse o que respondeu, mas no show disse mais ou menos isso; “Ele pensou que eu era mago, que já tinha chegado ao futuro […]”.

    Gil além de músico, é um poeta, por quê não dizer também um grande pensador e acima de tudo “mago”, como o rapaz havia pensado.

    Na música de Gil, Pai e Mãe, ele traz ainda viva, de alguma maneira, essa virtual bissexualidade freudiana dos tempos primevos da infância. Apesar de ser um diálogo com os genitores, boa parte dos versos são dedicados ao pai, antes dizia que tinha passado um bom tempo aprendendo a beijar outro homem, como beijava seu pai, ao longo do diálogo com a mãe, ele se volta novamente para o pai se reportando, desta vez, de maneira indireta com as seguintes palavras:

    “[…]
    Diga a ele que não se aborreça comigo
    Quando me vir beijar outro homem qualquer
    Diga a ele que eu quando beijo um amigo
    Estou certo de ser alguém como ele é
    Alguém com sua força pra me proteger
    Alguém com seu carinho pra me confortar
    Alguém com olhos e coração bem abertos
    Para me compreender.”

    O amigo de Gil pode ser o que a gente quiser que seja, pode ser amigo, pode ser um namorado de longa data que se tornou efetivamente um amigo, mas a verdade talvez seja que isto tudo seja muito universal, seja muito humano, próprio disso de ser gente, ser pessoa, ser você e ser eu. É isso, eu acho – rs.

  2. Rothuzs disse:

    Aprecio relatos sobre a relação familiar entre gays e suas famílias. É ‘natural’, ocorre de diversas formas e deve ser valorizada pensando que muitos de nós não possui mais seu núcleo familiar composto pelos seus pais…
    Esta maior aproximação com as mães e distanciamento dos pais seria uma consequência do nosso desejo erótico?

    1. minhavidagay disse:

      Bom dia Rothuzs!
      Não acredito que a aproximação com as mães e o distanciamento dos pais seja uma consequência do desejo, mas que a maneira que nos relacionamos com eles, principalmente com a figura do pai, irá nos influenciar em maior ou menor grau na maneira que nos relacionamos com nossos parceiros.

      1. Rothuzs disse:

        Quis dizer como consequência pois ‘normalmente’ a maioria dos pais se afasta dos filhos gays enquanto a maioria das mais os protegem… (O que não é meu caso… minha mãe sim se tornou muito protetora após minhas assunção aos 16 anos, e meu pai se esforçou para ficar cada vez mais perto)…
        Agora sobre a relação que estabelecemos com nossos pais deve sim influenciar como nos relacionamos com nossos parceiros, só não entendo muito disto e nem tenho ideia em que medida isto ocorre…

  3. Pedro disse:

    Rothuzs, esse negócio de pai e mãe, e repetir na relação, enfim, isso é muito coisa de psicanálise. Uma vez me peguei pensando nisso que vc estava falando, e percebi que tinha uma coisa de verdade muito nessa história, mas nem a própria psicanálise dá conta disso de maneira satisfatória.

    O Freud e o pessoal que seguiu na psicanálise a partir dele foram importantes para “desvelar” de alguma forma o psiquismo humano. Mas isso como em toda e qualquer outra forma de “ciência”, eu acho que tudo isso precisa ser ainda amadurecido e aprimorado ao longo do tempo.

    A verdade talvez seja que é muito raso afirmar que só a relação com os pais influencia na dinâmica da vida do indivíduo. Mas dizer que não influencia também é um erro, influencia sim, mas, como efetivamente isso ocorre, creio que ninguém seja capaz de dar uma resposta definitiva sobre.

    1. minhavidagay disse:

      As intersecções da relação entre pais e filhos e, por consequência, do filho com suas relações são subjetivas. O ser humano é subjetivo e creio que as experiências e comprovações cheguem até parte da história.

      De qualquer forma, eu particularmente entendo o papel da psicologia como algo determinante para nosso processo de autoconhecimento, esse sim revelador e que traduzirá particularmente (com o tempo) em que medida funciona a minha relação com meus pais. Meu post funcionou como parte dessa tradução.

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