Mal necessário

Extrapolando assuntos do Minha Vida Gay, mas para – basicamente – o leitor gay se referenciar:

Guerras trazem aquele sentimento de injustiça (principalmente) pela identificação com os inocentes que nada tem a ver. Bota foto de criança então? Nos sentimos obrigatoriamente sensibilizados.

Podemos nos apresentar simpáticos aos franceses ou aos árabes. Torcer por um ou por outro. Partidarizar. Mas esquecemos que tais conflitos existem em nosso solo há décadas, vinculados ao crime organizado, ao tráfico de drogas, a diferença de classes. Vinculados até mesmo a uma briga de trânsito e a gente não precisa olhar para Paris para saber disso.

Tudo recai numa característica humana: a necessidade incontrolável de se destacar pelo poder; por aquilo que o homem instituiu como de poder desde as civilizações mais antigas. Os modelos atuais começaram por lá, meus amigos, naquela região “centro do mundo” em que se encontram nossos conterrâneos latino-parisienses. Eles sempre gostaram de ouro. Aliás, foram eles que definiram que ouro viraria uma rica moeda de troca. Só que a ideia de que a Europa foi formada por inúmeras matanças está longe da nossa visão, não é?

Claro que alguma coisa nos ensinou que guerras étnicas, entre países e atreladas a ícones da sociedade capitalista, relacionadas a quem detém o “poder mundial”, merecem uma atenção. Não é à toa que conflitos na África nem chegam por aqui, ou se chegam, não tem uma comoção digna de foto-efeito no Facebook. Fomos programados para idolatrar as “cidades luz” e repudiar seus temíveis desafetos. Eu mesmo me referencio muito com o funcionamento de NYC hoje. Eu adoro mesmo, mas sabiam que a NYC que a gente conhece é fruto direto de uma matança geral da “tolerância zero”, instituída pelo ex-prefeito Giuliani? Os “humanistas” aqui do Brasil abominavam a postura do tal prefeito naquele tempo.

Mas eu adoro andar numa cidade como São Paulo cuja criminalidade é controlada. Estou errado em me sentir bem assim?

Guerra, a mim, é um mal necessário inerente as nossas próprias condições. Em nosso tempo de existência, somos ainda muito mais macacos do que possa ser um estado humano mais avançado.

E o que a gente vai fazer com tudo isso? Apontar sempre o dedo para aquele que a gente acha que faz errado? É o que me parece que a maioria faz por osmose: apontar para um culpado e definir um tirano. Esse discurso que “ah, os EUA”, “ah, os finos franceses”, “ah, os radicais árabes”… “ah, o FHC como desculpa do Lula”, “ah, o PT como desculpa do PSDB”. “Ah, o Bolsonaro como desculpa do JW”. “Ah, os fascistas contra os comunistas”.

Pior é que é o que tem para hoje e para um milênio ou mais. Eu me assumo um macaco tentando dar uma leve evoluída nesses médios 80 anos que eu possa viver. Mas alguma coisa me diz que, mesmo assim, serei ainda macaco.

1 comentário Adicione o seu

  1. Sandro Bonassa disse:

    Vivemos em uma guerra civil não declarada, média de 150 pessoas mortas por dia no BRASIL, número bem maior que Paris, Síria ou Palestina.
    Um jovem de vinte anos foi covardemente assassinado em Ilha Bela ( litoral norte admirado pelos coxinhas) , até o presente momento não foi capturado o assassino, fica pergunta onde o cara conseguiu se esconder, se o único meio de transporte é a Balsa?
    Número de mortes no trânsito fica perto da Índia!
    Mortos por falta de hospital é uma vergonha para o país das olimpíadas!
    Uma mineradora não faz manutenção em suas barragens e uma cidade inteira é devastada, doze pessoas ainda desaparecidas no mar de lama e um ecossistema totalmente destruído!
    Ninguém até o momento foi preso!
    Economia falida, desemprego em massa, mas vamos comemorar um time Paulista é hexa campeão Brasileiro!
    Zona leste carente de transporte público, segurança e educação, porém tem estádio de time campeão!
    Sr Cunha que se tivesse vergonha na cara já tinha saído ou se Brasil fosse um país sério já tinha saído com ele!
    Nos LGBT lutando por igualdade e respeito!
    Número assustador de assassinatos por causa da sexualidade, coloca o Brasil entre os recordistas de violência contra gays.
    Neste momento tudo que importa é Paris e os seus bobôs ( abreviação para BURGUÊS BOÊMIO) , covardemente assassinados em seu momento de beber bom vinho, comer caviar e assitir espetáculo dentro de uma tradicional casa noturna européia.
    E aos latinos e africanos fica a nota no roda pé das notícias.

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