Mãos dadas ou não

O leitor Arthur me encaminhou um artigo bastante interessante sobre como a expressão de afeto, como um casal gay andar de mãos dadas em espaços públicos, ainda afeta a percepção de muita gente.

O texto e a pesquisa são contextualizados nos EUA, aquele mesmo trecho de terra do qual costumo trazer referências positivas. O jornalista fala de sua experiência em NYC, palco que deixou eu e o Meu Japinha bastante a vontade, de mãos dadas e, por vezes, em abraços. Não sofremos nenhuma recriminação por lá, mas parece que o autor da notícia sim.

A notícia provoca aquela reflexão: o quanto a demonstração de afetividade entre gays, em público, cai bem?

Numa das sessões de cinema, que recheou meu final de semana, haviam dois casais heterossexuais, um de cada lado da poltrona que eu tinha escolhido. O casal do lado da esquerda, mais afastado, esteve na pegação, movimentos e ruídos equivalentes ao ato praticamente o filme inteiro. O da direita, muito mais tranquilo, logo que as luzes apagaram, ficou abraçado mas atento ao filme.

Diante tanta movimentação, conversas, risadas e ruídos a minha esquerda, foi natural eu pender no encosto da direita para encontrar uma posição ao máximo confortável e mais distante dos murmúrios que tiravam a minha atenção.

Pegação desse tipo em locais públicos, dentro ou fora do cinema, gera um natural incômodo para boa parte das pessoas. No planeta onde me criei, a intimidade de um casal não deve ser exposto, quase que num tipo de exibicionismo.

No mesmo shopping center, o Frei Caneca, talvez pela toada carnavalesca, os gays estavam mais abusados. Próximo a todos os banheiros masculinos posicionava-se um segurança a paisana que, de tempos em tempos, entrava para ver se a nossa turma não estava praticando o famoso “banheirão”. Numa dessas passagens, tive um certo “piriri” e corri para um dos banheiros. De súbito, encontrei todos os mictórios com um usuário e, logo na minha entrada, todos olharam simultaneamente. Era evidente que aqueles gays praticavam uma bela duma putaria naquele momento.

Corri para um dos boxes, tranquei a porta rapidamente e notei que, logo em seguida, um dos rapazes tentou me enxergar pelas frestas. Situação indigesta: dor de barriga e ainda um gay querendo matar seu fetiche comigo, cagando.

Cumpri a função que a natureza proclamou. Pela mesma fresta, vi que o “xixi” de dois dos usuários do mictório era interminável, o que comprovava a minha impressão do “banheirão”. Dei a descarga e rapidamente fui para a pia lavar as mãos. Em seguida, por advento “divino”, o segurança entrou no banheiro e não precisou dizer absolutamente nada para, logo, a gaylera dispersar.

O dia todo, a todo momento, estavam lá essas figuras conferindo uma função a mais para os seguranças do shopping. Depois do incidente do “beijo gay” funcionário nenhum pode recriminar.

Naquele local, do casal heterossexual em toques ardentes dentro do cinema e do “banheirão” all day long nos receptáculos masculinos, frequenta senhores, senhoras, pais e filhos pequenos também. Será que tal contexto tanto faz nessas horas?

Não seria mais civilizado exercer tais práticas sexuais em locais apropriados como saunas, autoramas e cinemões exclusivos para a promiscuidade?

Até que ponto essa permissividade não justifica, inclusive, a existência de “Bolsonaros” no mundo? Porque a bem da verdade é essa: o tempo passa, chego quase aos 40 anos e maus hábitos gays invadem ainda os espaços públicos. Foda-se o fetiche. A sauna 269 é um lugar apropriado para isso.

Eu e Meu Japinha andamos de mãos dadas tranquilamente em NYC.

A gente dá brecha para as pessoas falarem e desculpem, senhoras e senhores, mas na hora do banheirão da vida eu me coloco no lugar do senhor que nada tem a ver com o gozo alheio. Na minha bolha, o exercício de civilidade coletivo não precisa cobrar direitos, se fazemos direito. Taí, novamente, a questão de postura.

3 comentários Adicione o seu

  1. FRED disse:

    Parabéns pelo blog. Estou lendo vários post seus e cada vez me identifico mais com sua opiniões.

    Sempre fui de pensar que o meu direito acaba quando eu começo a invadir o direito do outro. Temos de respeitar para receber respeito!

    Continue escrevendo!

  2. minhavidagay disse:

    Obrigado Fred! :)

  3. Eu e meu namorado conversamos sempre sobre isso. A sociedade não precisa ver que nos amamos com a nossa pegação pública. Carícias, beijos e etc., servem para momentos de intimidade. É óbvio que gostaria de andar de mãos dadas com ele, mas, morando nesse país, no interior do nordeste não dá de jeito nenhum. Acho que nunca chegaremos a esse ponto de civilidade porque como você disse, muitos “bolsonaros” só existem porque alguns de nós fazem o que não deveriam fazer.

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.