Medo da entrega

Enquanto corria na academia, depois de um dia filha da p* de estressante, me veio a ideia de escrever algo sobre as pessoas e a tolerância que temos às mudanças. Mas revisitei em pensamento os últimos posts e vi que abordei bastante disso. Seria mais do mesmo, escrito de uma nova forma. Daí que, agora a noite, o Tango fez a maior sujeira de barro no quintal, pelo fato de estar chovendo em São Paulo. E eu, não satisfeito com a endorfina liberada na academia, resolvi brincar um pouco com a água, com o dog adolescente que está terrível (trepando na almofada do sofá todas as vezes que o libero para dentro – rs) e acabei por fazer mais um exercício extra: lavar o quintal. Arianos, em geral, liberam as tensões fazendo exercícios físicos (em tempos rudimentares, provavelmente, daríamos porradas – rs).

Foi liberando um pouco mais de endorfina, depois desse dia filha da p* de estressante, que resolvi usar minhas últimas horas do dia para falar sobre o medo da entrega, aqui no Minha Vida Gay, com um viés bastante diferente.

Hoje tive terapia e resolvi focar todos os minutos destinados à sessão para falar do meu novo relacionamento. Como minha terapeuta tem afirmado, é “diferente de tudo” e posso concordar. Tem sido diferente de tudo, assim como as relações novas que se estabelecem em minha empresa. Claro que a minha personalidade não se transformou totalmente e eu teria que renascer para que isso ocorresse. Mas o fato é que, na mesma medida que venho demonstrando novas percepções sobre a minha própria homossexualidade por aqui, a relação com as diversas pessoas a minha volta e a maneira que entendo a vida gay hoje tem se transformado. Acho que tem menos a ver com a idade, mas com as buscas mentais, espirituais e psicológicas deste interlocutor.

“Sem querer querendo” continuo com certa função “catequizadora”, de orientar pupilos gays que estão a minha volta (ou que são leitores do Blog), mas de maneira muito mais despretensiosa. É o caso do Tché, por exemplo, aquele que eu dei uns pegas há meses atrás e que hoje trabalha comigo. O bicho era um baita de um medroso enrustido naquele tempo, embora tivesse namorado por alguns meses, formando uma relação igualmente velada e contida. Talvez, só de eu transpirar certa segurança (sem querer), acabo inspirando. Entre idas e vindas a clientes, acabamos reservando um tempo para falar da vida pessoal e, do dia que ele se mostrava um cagão para adentrar em uma balada (uns 4 meses atrás), hoje bate carteira todos os finais de semana, criou novas amizades gays (com os quais ficou com todos, trivial – rs) e tem pegado geral, como pronuncia a juventude de hoje. Reconhecidamente, ele disse: “você tem me ajudado no trabalho e na vida pessoal”. Empedrado como ele era (ou é), até que tal frase definiu, na prática, o “amolecimento de suas juntas”.

Mas tal vibe com o Tché é bem diferente do que realizei, por exemplo, com os amigos do MVG, cujas histórias e fatos tanto discorri por aqui. Assim e assado, quero chegar exatamente no ponto central do texto de hoje: a maneira que tenho me relacionado com as pessoas tem mudado, dentre tantas mudanças que a forma de me relacionar já passou. Não seria diferente com o Rafa.

“Diferente de tudo”, não quer dizer algo mágico, incrível e um sonho de uma noite de verão! Tais expectativas se reservam para quem está nos primeiros capítulos das entregas afetivas. Posso dizer, sem modéstia nenhuma, que eu já escrevi um livro. Talvez alguns no quesito. E desde o Japinha, a maneira de me relacionar foi mudando.

Quando comecei com o Rafa, vi ali, ao meu ladinho, a estrada conhecida de anos, meus comportamentos, ações e reações de sempre que possivelmente me garantiriam as mesmas falsas sensações de controle. Faria aquele raio-X do preterido e o envolveria de sedução, daquele jeito ariano de não se dar por satisfeito enquanto não sentisse que o objeto estivesse conquistado (no critério ingênuo de um próprio ariano). Mas ao mesmo tempo, ao observar aquela estrada ali, do mesmo Flávio repetindo modelos comportamentais, saberia que viriam não somente os prazeres, mas os conhecidos desgastes. Chegou um tempo em que os cansaços daquele Flávio ficaram maiores do que os prazeres. Bem ou mal, tive que aceitar que eu teria que mudar para não repetir o que a psicologia chama de “modus operandi”. E vou dizer, queridos leitores: (1) tomar consciência de nossos padrões comportamentais talvez demore décadas, (2) reconhecer que mudanças são necessárias para que a gente não repita “os mesmos erros” é um desconforto sem tamanho. Costuma doer, costuma cansar e, sim, nos arranca da zona de conforto do próprio padrão.

Assim, nos últimos meses, tenho mais pisado em ovos do que me atirado na certeza do provável. Não é nada, nada confortável, posso afirmar. Mas tem sido melhor do que ser eu mesmo como eu era antes.

Em termos práticos, lá vai: quando em sã consciência eu estaria com alguém por quatro meses sem formalizar um namoro? Nunca. O Flávio de antigamente jamais permitiria a incerteza dessa inconsistência (e era assim que eu entendia: incerto e inconsistente). Quando eu perceberia o Rafa nos aplicativos, com a bolinha verde sinalizando online e, ao mesmo tempo, tratá-lo todos os finais de semana sem fazer de seu hábito um problema para o dia após dia de nossos encontros? Rapidamente o colocaria numa caixinha: “ele é um vadio e não quer nada”. Quando seria um branquinho de olhos azuis e cabelos mais claros? Ah, normalmente o moreno/mulato era o que virava. Quando seria alguém que, apesar de 25 anos, tivesse namorado tanto quanto eu, incluindo um “morar sob o mesmo teto”? O preterido seria sempre alguém no prefácio das relações ou nos primeiros capítulos.

Me encontrei com meu ex, o Beto, na sexta passada pois ele me devia um jantar. Eu havia comprado um treco em NYC e ele havia pagado uma parte. Como o dólar subiu (e o Beto sempre foi pão-duro – rs) eu resolvi abusar da amizade! Ele, de maneira inédita, aceitou e fomos num restaurante top de São Paulo. Daí que numa conversa, na qual ele ficou me zoando, alegando com todas as forças que eu já estava namorando, respondi assim:

– Não estou namorando. Estou vivendo um relacionamento, mas não tem contratos nem cláusulas ainda.

– Hum… mas vocês se encontram com frequência?

– Bom, desde que o conheci, só teve um final de semana que não o vi. E nesse feriado, ele diz que vai passar estudando e provavelmente eu não o encontre.

– Saquei…

– Vou te dizer uma coisa: o namoro que tive com você foi o ápice do ideal que tive até então. Acabamos pelos motivos que a gente conhece, mas em termos de idealização, pra mim, foi tão perto do que eu queria até então que ainda estou bastado. Agora, estou vivendo essa história com o Rafa sem saber onde vai dar. E acho que o grande lance, a grande novidade é exatamente essa: eu sempre planejava onde iria dar, idealização e expectativas, sabe? Para mim, hoje, o importante é saber que, com o Rafa, no próximo final de semana a gente tem vontade de se encontrar.

O fato é que, pela primeira vez, eu não tenho definido cláusulas que estabeleçam um “namoro sério”. Não tenho pensado, inclusive, em como conquistá-lo. Para quem precisa de definições, formalizações e compromissos, fazer assim parece ser algo largado, que não dá segurança. O interessante é que eu pensaria assim até um ano atrás. Mas talvez seja a primeira vez na minha vida, com mais clareza, que eu estou estabelecendo uma relação, antes, pelos sentimentos que brotam a cada dia e que, naturalmente, podem acabar (ou não) numa formalização. O incerto nesse tipo de relação gera um prazer, proporcional a emancipação emocional que estabeleci por esses anos.

Apesar da relação com o Beto ter sido o ápice de um ideal, um dos namoros mais plenos que eu tive, acabou. Posso dizer que, pela natureza tradicional de sua cultura familiar, o namoro com ele era cheio de regras, condutas e normas subentendidas. Eu também, a época, acreditava em minhas normas, condutas e regras subentendidas. Todas elas eram altamente arraigadas à heteronormatividade, desde o modelo matriarcal italiano a uma profunda necessidade formal da reunião familiar. As vezes, era muita formalização sobrepujando o sentimento. Assim, as vezes, era o exercício da hipocrisia, quando as pessoas não faziam coisas juntas porque se gostavam, mas porque existia/exista certo compromisso.

Para quem vê parcialmente, todos esses discursos podem sugerir o “medo da entrega”. Ora, para quem está imerso na cultura heteronormativa, religiosa e protocolar (mesmo sem se dar conta) é mesmo! Faria todo sentido. Mas eu prefiro acreditar no conceito “diferente de tudo” que a minha terapeuta lançou. Ela seria a primeira a sugerir medos, se fosse o caso. Se não vier dela, se não vier da mamãe e, acima de tudo, se não vier de mim e do Rafa, tem que vir da tia ou da avó? Ah, não… tudo isso é muito protocolar!

2 comentários Adicione o seu

  1. Sandro Bonassa disse:

    Uma vez você me disse que eu deveria pensar menos e deixar o coração guiar.
    Foi fácil de perceber que eu nunca tinha feito uma entrega total para outra pessoa.
    E saindo da zona de conforto, percebi que nem mesmo para minha família eu realizei uma entrega total, como eu falava detestava ficar em casa.
    Enfim venho mudando meu modo de agir, pensar e estou deixando o coração falar.

    Tenho passado mais tempo em casa, cuidando de algumas coisas, levando o cachorro para passear, academia, parques, eventos culturais e estou indo para praia com a família.

    Mudança fantástica….detalhe as baladas duas no mês…. Bubu está ficando para trás.

    Estou me entregando mais para as pessoas em minha volta..

    1. minhavidagay disse:

      Isso ai, Sandro. Bom saber que as mudanças estão rolando.

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