Medo da violência

Apesar do tema do post ter correlação com o público gay, pelas diversas questões relacionadas à homofobia espalhadas pelo Brasil, o texto de hoje vai novamente abordar um outro assunto, igualmente de caráter social e comportamental. Diz respeito aos diversos Brasis dentro de um mesmo país.

Violência é algo que uma grande maioria teme, e o temor nada mais é do que um reflexo natural humano, um tipo de freio para aquilo que pode fugir do controle, gerar transtornos ou nos tirar do equilíbrio.

Mas foi desafiando (levemente) esse tipo de medo que eu me permiti, mais uma vez, adentrar em mais uma bolha social consistente e real na minha cidade, mas que para a classe média – justamente pelo medo da atmosfera violenta – tem sentido apenas na teoria.

O meu bairro, há décadas atrás, foi reduto dos mais ilustres bandidos de São Paulo, inclusive o “Escadinha”. Naquele tempo, a bandidagem não só era intelectualizada, como também detinha bem a língua portuguesa e existia certo glamour nos atos de furtos e assaltos que praticavam. Meu antigo vizinho ao lado, da casa em que eu morava mas era alugada, vira e mexe contava do corpo que ficou estendido por uma semana na rua. Estou falando de meados dos anos 60 e começo dos anos 70, e de um vizinho que nasceu no bairro.

Acabei comprando uma casa nessa vila (porque gosto muito), a 600 metros da casa alugada e de frente a um bar azul frequentado por uma grande maioria de aposentados, taxistas, obreiros, pintores e gente que – se não nasceu aqui – se estabeleceu há muitos anos. Curiosamente, a minha vila tem dessa mistura: casais jovens ou solteiros como eu, vindos de um contexto de classe média um pouco mais alta, prédios para burgueses e todos os moradores antigos, mais velhos, e de um contexto de classe um pouco inferior.

Não é raro de cruzar com pessoas negras, negras puras, sem a mestiçagem tão conhecida no Brasil. E um deles, com 37 anos e também nascido aqui, é o Teco.

O Teco não aparenta a idade e tem todo aquele perfil de malandro, não da malandragem dos anos 60 ou 70, mas do perfil de malandro moderno, com aquele jeito de falar arrastado e cheio de gírias de mano, em tom alto e – para muitos – ameaçador.

Vira e mexe ele ficava no bar, meio desocupado e, nas entrelinhas em conversas com o japonês, dono do boteco, eu sabia que o Teco fazia uns “bicos” com drogas. Para quem não sabe ou faz vistas grossas, todos os bairros de São Paulo, dos mais nobres aos mais modestos, tem lá seus pontos nos quais se comercializam dessas coisas.

O Teco foi embora para Floripa. Tem feito espetinhos para eventos e parece que está se dando bem por lá. Mas antes disso, há uns 4 meses atrás, ele me pegou um dia na rua e disse assim:

– Oh, Flavião… não tem como você me dar uma carona rapidinho até a Rua X?

– Poutz, Teco… hoje estou na correria. Mas se for mais tarde capaz que dá – meio que desconversei, já desconfiado que a “Rua X” tinha a ver com seu suposto trabalho.

Ele deixou quieto. Dias depois fui perguntar para o meu conterrâneo, dono do bar, se o pedido do Teco me colocaria em alguma roubada. O japa falou assim:

– Ah, ele é super gente fina. Mas não faz esses favores não que tem a ver com droga.

Alertado, fiquei atento. Mas o Teco sumiu, até o dia que o econtrei na rua, arrumando as coisas para zarpar para Floripa. Ele fez um carinho no Tango, estava com seu camarada também (supostamente) “dos esquemas” e, sempre muito gentil comigo, comentou de sua aventura no Sul.

Mas ontem a noite, depois que voltava da academia, vi o Teco de longe e notei ele gritando: “Flavião!”. Me fiz de desentendido, mas ele parou de frente a minha garagem e disse:

– Flavião, preciso ir naquela rua lá. Não tem como me levar? Prometo que é rapidinho!

Pensei alguns segundos e confesso que estava curioso para entender mais dos esquemas. Das duas, uma: ou daria um corte, com alguma desculpa alegando estar muito ocupado, ou eu abriria o jogo quanto a minha insegurança relacionada aos seus “esquemas” e que se fosse alguma situação de risco, não seria legal. Resolvi optar pela segunda:

– Teco, você não vai me colocar em nenhuma roubada, né?

– Não, Flavião! Não tem nada a ver com drogas. Eu preciso deixar um lance para um camarada lá. Juro pra você que será num minuto. Me dá essa força, Flavião… – assumiu direto.

– Olha, Teco, se tiver alguma coisa envolvida com drogas vai ficar complicado pra mim. Não posso cair em nenhuma roubada que tenha a ver com isso… tou cheio de funcionário para cuidar (rs).

– Fica tranquilo, Flavião. Pô, mano, você é referência pra mim… não tem nada a ver com isso não.

Segurei meu medo, ciente que o contexto de drogas é repleto de violência, malandragem e corrupção. Partimos.

Aos poucos fomos entrando numa favela. Claro que dei uma gelada e, naturalmente, soltei a ele: “pô, Teco… você vai me botar dentro da favela?!”.

Ele: relaxa, Flavião… aqui eu domino. São todos meus camaradas.

Naqueles minutos, as pessoas que estavam na rua paravam para olhar um carro desconhecido no bairro, até a hora que o Teco saiu e, imediatamente, as mesmas pessoas tiraram a atenção de mim e voltavam a fazer o que estavam fazendo.

O negão saiu em disparada ladeira abaixo e, antes disso, falou assim: “é rapidinho, você vai ver”.

Dito e feito. Não deu dois minutos e o Teco saia do breu, ladeira acima, correndo em minha direção.

– Não te falei que ia ser rapidinho? Mas agora a gente vai dar um rolê enquanto eu te conto uma história…

– Beleza, me conta aí, Teco, que eu quero saber…

– Eu perdi meu pai muito cedo. Quando eu tinha 18 anos, meu irmão que era referência pra mim morreu também.

– Poutz, foi por causa de tráfico?

– Nãaao, nada disso. Ele era atleta, esportista… morreu afogado. Quando ele morreu, meu mundo desabou, Flavião. Imagina eu sem pai e sem meu irmão que era tudo pra mim? Mas aí, o Tino, que mandava aqui na nossa vila me acolheu.

– Ele era dono do tráfico aqui do bairro?

– Era, ele mandava em tudo isso aqui. Entra aí nessa viela a direita que eu vou te mostrar…

– Mostrar o que, Teco?

– Entra aí que você vai ver… tá vendo aquela árvore ali? Eu comecei a trabalhar para o Tino e eu ficava ali, debaixo daquela árvore.

– Você ficava vendendo drogas lá?

– Isso aí, Flavião…

– E quem vinha comprar de você?

– Ah, todos os moleques do colégio “W” e “Z” – se referindo a duas escolas particulares de alto nível que estão nas proximidades.

– Entendi… mas e aí? Como era a vida trabalhando com drogas?

– É uma vida tensa, Flavião… mas vai ouvindo… aí, o Tino enfartou e não podia mais trabalhar. Eu tinha 18 anos, Flavião, e ele confiava tanto em mim que resolveu passar o esquema pra mim… dá uma olhada na casa que ele morava…

– E aí?

– Você veio para o bairro em que ano, naquela casa lá de baixo?

– Ah, eu cheguei aqui em 2004, 2005… faz uns 10 anos já.

– Pois é… em 2004 eu mandava por aqui. Tudo isso aqui era meu. Lembra como ficava o bar do japonês?

– Lembro… ficava lotado de molecada classe média, de lotar a rua… e eu nunca entendia de onde aparecia aquela molecada…

– Pois é, Flavião… lá era a boca principal. Mas depois que o japonês voltou, ele acabou com tudo (gargalhadas).

– Entendi… e como era a tua vida? Rolava bastante grana?

– Porra, se rolava… mas não sobrava nada!

– E você gastava com o quê?

– Ah, Flavião… puteiro. Puteiro e bebida. Eu tinha 18 anos, descabeçado, chegava no puteiro que estava tomado por alguém. Aí perguntava: quanto o fulano pagou pra você? O cara me respondia: “5 mil”. E eu dizia: então toma aqui 7 mil e quero o puteiro fechado pra mim. Era isso direto. Mas era tenso Flavião…

– Tenso porque além da polícia, os caras de outras bocas queriam tomar de você, né?

– É Flavião… eu era moleque… já fui preso, perdi um monte de amigo que tomou tiro, principalmente dos caras das outras bocas. Até hoje tenho duas armas guardadas em casa (risos).

– Puta… que vida.

– É Flavião… mas eu resolvi sair dessa. Qualquer dia o tiro ia bater na minha testa. Hoje o PCC tomou conta de tudo. Tou fazendo direito agora, Flavião… e você é minha referência.

Já estava em frente de casa, em frente do bar. O Teco saiu super agradecido, beijou minha mão, beijou minha testa e disse assim enquanto saia do carro:

– Ó, se um dia você precisar de alguma coisa, já sabe com quem pode contar, né? Aqui, você tem um irmão.

– Valeu pela confiança, Teco… e por ter contado sua história.

Achei importante deixar esse breve relato. O rolê com o Teco durou uns 30 minutos, mas foi preenchido por fatos de uma realidade que passa bem longe da minha. Da sua, provavelmente.

Como eu insisto por aqui, existem outros mundos diferentes, ao lado de nossas cômodas caixinhas.

3 comentários Adicione o seu

  1. sa0n disse:

    Muito legal sua experiência, Flávio. Muitas vezes o medo nos consome e nos bloqueia para experiências bacanas. Apesar do texto falar sobre violência, o fato de vc ter desconfiado de alguém que não tinha nenhuma má intenção acabou por te deixar menos inseguro, podemos correlacionar com a nossa fase de autoconhecimento, até aceitar que somos assim acabamos tendo medo do que encontraremos, o medo de ser rejeitado, o medo de sofrer violência, o medo de não conseguir emprego sendo assim, o medo de ficar sozinho pra sempre… O medo! Sempre ele, maldito medo! Deveríamos vir ao mundo sem medos, seria tão bom se existisse apenas a coragem, não é mesmo?

    Posso dizer que o medo ainda me consome, estou longe de ser bem sucedido de minha sexualidade, apesar de me esforçar bastante para isso. A timidez que carrego advém desse medo de encarar a vida, de ter que assumir o que sou e arcar com as consequências disso mesmo não tendo feito nada de errado. Tudo isso pelo medo do preconceito! Mas sei que tb tenho meus erros. Mesmo estando tão sujeitos á situações de preconceito, acabamos tendo nossos próprios preconceitos tb, somos tão egoistas ao pensar que somos vítimas do mundo, mas quantas outras situações nos nos colocamos em posição contrária, demonstrando claramente uma hipocrisia, por pensar que o fato de sofrermos preconceito nos dá direito a nos vingar.

    Quantas oportunidades perdidas… Quantos amores desperdiçados… Sai de mim, medo! Não preciso de vc em minha vida! grato!

  2. Sandro Bonassa disse:

    Blz Japa…. Faz tempo que não colocou um comentário aqui no MVG.

    Eu cresci entre Tecos, escola onde estudei fica entre duas comunidades, muito carentes por sinal, escola que vai fechar na mudança educacional, alunos tem e muitos, o problema é as inúmeras ocorrências por causa de tráfico dentro da escola, briga de Ganges e falta de professores, ninguém quer trabalhar nesta escola, nosso estado falido em segurança pública acha mais fácil fechar a escola do que combater os criminosos.
    Eu moro em bairro vizinho, é fácil de chegar coisa de 15 minutos de caminhada, cresci entre os Tecos, meus amigos eram Tecos, alguns tiveram a oportunidade de mudar de vida, outros partiram muito cedo e outros devem estar trancados em alguma penitenciária pelo Brasil a fora.
    A grana fácil realmente seduz a molecada , lembro que na época eu trabalhava e possuía uma motocicleta 125cc , os Tecos estavam de 500cc, algumas compradas e documentação ok!
    Difícil se manter na linha, linha que por sinal é muito tenua , entre cidadão do bem e um marginalizado, quantas vezes assisti a violência da polícia em ação, batendo, humilhando antes de puxar a “capivara “de cada um pego no enquadro.
    E quantas vezes eu estava indo ou voltando do campo de terra batida para jogar futebol , escapei do enquadro apenas por ser branco! Mesmo estando junto dos Tecos no momento do enquadro os PM, mandava eu descer o morro logo.
    Vários brasis dentro do mesmo Brasil.
    Desculpe a ironia , se esta foi sua primeira vez dentro de uma comunidade, fico feliz por você.
    Eu Frequento desde criança e até hoje para visitar os Tecos que se deram bem , através do estudo e concurso público, tenho que subir o morro entrar de carro com vidros abaixados e sempre passar por um prevê interrogatório do ” vigia “, visita ou ” lojinha “.

  3. Caetano disse:

    Volta logo macho, saudades dos teus textos.

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