Melhores amigos

Tudo é mais seletivo aos 40

Alcançar os quase 40 anos, como gente (e como gay), me tornou mais seletivo. Na proporção inversa de quando eu tinha 20 e poucos anos – época em que me sentir envolvido com uma quantidade de amigos era imprescindível à minha auto estima -, contar com a qualidade baseada na afinidade (e intimidade) passou a ser determinante. Basicamente, nos meus 40, a palavra “preguiça da quantidade” e da muvuca é um fato presente.

Ao mesmo tempo, superar a “caixinha” determinada por uma cultura normativa sempre foi a minha pegada. Já é bastante comum, pelo menos entre as pessoas que mantenho um convívio mais frequente, ver a relação de amizade entre ex-namorados. Para falar a verdade, dos amigos selecionados, pelo menos metade são ex-namorados.

A bem da verdade, superada e resolvida as questões passadas, ex-namorados são e serão aqueles que mais nos conhecem fora pais e irmãos. A conexão de amizade e carinho que se mantém qualifica qualquer relação. O fato é que ex-namorados conhecem não apenas a parte legal e positiva que nosso ego “vende” ao ambiente com naturalidade, mas também a faceta chata e negativa que – apesar de nos humanizar – tendemos a camuflar numa pura necessidade de aceitação e pertencimento.

Pensei agora que, talvez, as pessoas que não conseguem estabelecer um convívio fraterno com ex-namorados, na realidade, negam o contato pois sabem que o outro – o ex-namorado – conhece melhor a nossa parte “suja”, justamente aquela que a gente tende a querer esconder. Ficar exposto para um ex, dependendo de como funciona a nossa cabeça e como se termina, é uma lástima (rs).

Temos, todos, uma parte mesquinha ou egoísta ou individualista ou orgulhosa ou melindrosa ou mau humorada. Por mais que eu acredite que a maioria das pessoas do planeta seja “do bem”, somos humanos e, assim, passíveis de fazer cagadas. São eles, os ex-namorados, que em diversas medidas tornam-se os principais julgadores de certos deméritos que carregamos dentro de nossas embalagens.

Construir intersecções de amizade com ex – sejamos gays ou heterossexuais – não deixa de ser um exercício de assunção de nosso “lado negro humano”, aquele que, como citei, muitas vezes evitamos revelar.

Nos últimos anos, tenho trocado meus valores sobre relações duradouras e priorizado as sinceras. Relações sinceras e francas podem durar meses pois, na base da abertura e sinceridade, revela-se rapidamente certas incompatibilidades, daquelas que tiram a química da história. Ou podem durar anos pois, na abertura e franqueza, percebe-se que a balança pende para a sinergia. Relações duradouras certamente carregam o status do tempo de duração mas nem sempre revelarão a franqueza. As vezes, como nos velhos tempos (e os velhos tempos são presentes hoje em alguns casos), o comodismo é um elemento que determina a duração.

Mas, vejam bem, não existe aqui uma crítica sobre o que é melhor ou pior, mas sim um balancear de valores para a pura reflexão. De todas formas, não existe um jeito certo para se relacionar, mas o jeito que entendemos hoje e que, amanhã, poderá ser, apenas, diferente.

Nesse último mês me reencontrei com parte dos meus ex-namorados, inclusive o Beto, o qual fui (altamente) apaixonado. Falei sobre gratidão no post anterior mas não explicitei as situações que me fazem grato em 2016. Poder viver a paixão que tive por ele, de arrebatar meus quarteirões interiores, é um dos motivos. Reve-lo e preservar o respeito, carinho e afetividade, sem abalar meu ambiente hoje, é de grande satisfação. Tenho uma estima valiosa mas que concede autonomia as partes. Praticar meu discernimento é também de grande valia.

Ter encontrado um novo equilíbrio na minha empresa e implantado com eficiência o início do Life Coach MVG, também me trouxe satisfação. É a árvore a qual já cultivava recebendo novos fertilizantes e novas sementes sendo plantadas para me preencher nos próximos anos. Felicidade tem um pouco disso: preencher a vida daquilo que nos satisfaz. Gosto de me aventurar em projetos e isso é da personalidade.

Ter realizado minha viagem para NYC de novo, pela quarta vez, foi bastante representativo. Embora eu tenha recebido algumas críticas, daquele olhar cheio de viés de que sou “fã” dos americanos, me sentir agora seguro para afirmar que sou um habitué de Manhattan, apesar de parecer esnobe para os mesmos olhares enviesados, me preenchem de dignidade. Dignidade pelo trabalho, pela capacidade de “organizar todos os aspectos da casa” e poder partir tranquilo e dignidade pelo nível de autonomia conquistada, pertinho dos 40 anos, como gay, profissional e pessoa.

Celebro também com gratidão a excelente relação com meus pais. De uma mãe (sempre) adorável e principalmente de meu pai, aquele que já foi o maior desafio da minha vida e, hoje, é simplesmente pai com todos significados que esse “nome” – por bem – deve carregar. Na média de 73 anos, ambos estão dentro do avião agora, para um cruzeiro internacional. Sozinhos. É uma gratidão expansiva contar com esses dois velhinhos saudáveis, ativos e abertos ao mundo e a própria vida. Não existe, a mim, melhor referência de “mente sã, corpo são”.

A gratidão vem também pela maneira que está configurada, hoje, minhas relações, da maneira que estabelece meu coração e, financeiramente, não posso reclamar (embora tenha um perfil de querer mais, assumo – rs). Isso também é persondalidade, aberto ao julgamento de que sou capitalista! rs.

Tudo isso não é para sambar na cara daqueles que estão ressentidos ou frustrados com o ano de 2016. Passei e vivi todas as dificuldades e frustrações macroambientais de crise política, econômica e moral e digo mais: em épocas difíceis como essa, quem é dono só se fode. Enquanto é da responsabilidade do empresário garantir o salário acordado com cada integrante da equipe, na crise, o dono se vira nos 30, 40 ou 50 para, inclusive, manter a oportunidade de trabalho. Esse foi meu MAIOR desafio em 2016, sem pestanejar.

Acontece só que eu, por definição e escolha, pelo controle que tenho da minha mente, assumi que meu ano foi incrível pelos exatos motivos pontuados acima. E tenho certeza que, se cada leitor quiser olhar para a parte cheia do copo, vai encontrar muitos aspectos.

De tal maneira, concluo o post de hoje que é complementar ao anterior. Optei por fechar o balcão organizando as gratidões nas prateleiras mais altas e vistosas. Tem muito amor e conquistas acenando. As dificuldades ficam nas prateleiras mais baixas para ter fácil acesso e para resolver em 2017.

Felicidade depende somente do olhar, meus queridos leitores. Isso é crença emancipadora e crença é fé.


coach-de-vida-gay

Sou Mentor e Coach para o público gay e relacionados: pais, irmãos, amigos, entre outros e desde 2011 matenho o Blog MVG como meio de referência, trocas e vivências. Gostaria de uma mentoria ou coaching? www.lifecoachmvg.com.br

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