Meu irmão

Quantos parentes ou amigos se distanciaram por causa de política em 2019?

Como se cisões realmente conferissem prazer. Algo quase que sádico ou masoquista, algo cheio de orgulho e a certeza de alguma “verdade”. Ainda gays e na maioria dos casos de família dos mesmos, é como se fosse uma conduta nobre virarmos as caras para quem preferiu por Bolsonaro ou voto nulo, como eu.

Meu irmão

Meu irmão, há bastante tempo e talvez o tempo em que é funcionário público, se posiciona mais para a esquerda do que eu. Brinco que ele tange a extrema porque ele gosta de raspar na beiradinha de vez em quando com surtos esquerdistas.

Não chega a ser fã de Ciro Gomes, mas é quase isso: toda vez que vai contar algum fato ou caso sobre esse representante político, vem algo no mesmo tom entusiasmado quando vai falar de heróis da Marvel.

Enquanto um dos meus hobbies são plantas, o dele é gibi.

Antes de mais nada, ele e eu gostamos bastante de conversar sobre política. Se deixar, falamos horas a fio sobre isso e muitos outros assuntos.

Algumas poucas vezes, como é mais típico de quem se concentra mais em um dos polos, ele coloca calor e paixão ao pronunciar suas ideias numa conversa sobre o tema, a política. Em um ano de 2019 em que muitos parentes ou amigos se distanciaram, teve apenas uma de nossas conversas que eu o senti “sair da caixinha” e eu recuei, certo de que, naquele estado, não valeria a pena alimentar o debate.


Não chego a abominar atos de “descurtidas” de amigos, da maneira que se popularizou por aí nas redes sociais como se fosse um gesto heroico e coerente, digno de aplausos dos “iguais”. Mas tenho uma enorme preguiça de quem agiu ou age assim. Se estabelece no tipo de atenção narcísica idêntica a/o da/do selfie. No meu ponto de vista, é mais isso do que algo com teor político. Declarar na própria rede social é o ápice desse narcisismo.


Ponderação e empatia

Não “preferi” estabelecer esse estado de equilíbrio de relação com meu irmão pensando em minha “cunha” ou nos meu sobrinhos. Simplesmente, foi por mim e por ele e por uma qualidade de relacionamento que nasceu após nossas adolescências ou da minha adolescência.

A ponderação aponta para uma balança. A empatia, uma compreensão mais detalhada, mais intuitiva sobre a maneira de como o terceiro pensa, age, funciona e conduz a vida. Ter empatia por aqueles que pensam semelhante, no caso de política que é algo mais marcado atualmente, é um exercício raso de auto consentimento. É um auto agrado. É a reafirmação de si. É egocêntrico e, talvez, sugira pelos bastidores a falta de uma autoestima alta.

Pausa para alguns conceitos: o que é o ser político?

Pergunte-se hoje como Itamar e FHC conseguiram reunir “gregos e troianos” (praticamente esses mesmos que habitam o Planalto Central) para emplacar o Plano Real.

Hoje é fácil entender quando se é um bom político pois o que temos há alguns anos, culminando agora nesse Bozzo, são os piores deles – talvez – desde as Diretas Já. Se alguém disser “ah, mas o presidente não consegue fazer nada por causa da oposição!”, santa ingenuidade: não é por causa da oposição, mas principalmente, porque o atual presidente é um péssimo político, incapaz de seduzir a oposição para emplacar projetos mais tangíveis.

Mas que eu seja justo: não deixa de andar de mãos dadas com a Dilma, o que determina uma má política e uma ausência de projetos robustos há praticamente uma década no país.

Não existe um bom político sem habilidade de oratória. É o caso dos dois, Tico e Teca. Ou, os dois lados da mesma porta.

O bom político

O bom ser político, inclusive, envolve com suas ideias os diferentes. É um tipo de venda, um processo de convencimento, principalmente daqueles que desacreditam, inicialmente, do bom político.

A polarização, por consequência ou causa (ou um pouco dos dois), é um fenômeno que vem da camada social e que ajuda a enrijecer ainda mais a boa política, pois quando se entra na “luta entre o bem e o mal” (maniqueísmo) se abandona o consenso que é natural da política e parte-se para a imposição e autoridade (mera coincidência Bolsonaro ser assim?). Pode-se dizer que em governos autoritários e ditatoriais não há política. A população, se comportando dessa forma, é a mesma coisa. Portas.

Logo, as coisas como elas estão, são altamente de nossa responsabilidade. A escolha pelo voto democrático destinada aos dois candidatos mais odiados determinou as perdas totais das chances de emplacar algum representante mais habilidoso (político) no primeiro turno. No segundo, a cagada já estava espirrada no chão. Ou melhor, na cara de toda sociedade.

Voltando ao meu irmão, ele e eu

Meu irmão é bastante diferente de mim. De personalidade, escolhas de vida, sexualidade, capacidade de guardar memórias e lembranças (dizem que quem tem ascendente em Peixes é como se fosse a Dory do Nemo, rs), temperamento, outros. Quase que as suas qualidades são os meus defeitos e vice-versa.

Ele é extremamente pacífico, evitando confrontos. Ele não confronta para que, em sua ideia, as coisas se apaziguem mais rápido. Eu sou paciente até a página 10 (dependendo do assunto, até a página 3 ou 30) e se precisar ter mais firmeza, não tem tempo ruim para eu confrontar. Sou filho de Ogum, protegido por Iansã, Áries com ascendente em Áries e serpente do horóscopo chinês. Astrologia e signos não fazem parte dos principais temas de interesse do meu irmão. Ele preferiu ler umas três vezes cada volume dos “Senhor dos Anéis”.

Eu convivo melhor com afastamentos pois, a mim, pessoas vem e vão. Tipo Lulu Santos, “como uma onda no mar”. Como alguém comentou na morte do Gugu (acho que foi o próprio Silvio Santos), os bons amigos podem passar anos distantes, sem um contato pessoal e, quando se encontram, está tudo bem e em sintonia fina. Desses amigos eu tenho uns três. Ou seja, me parece raro.

Ele, meu irmão, tende a sofrer um bocado mais pois parece ser mais apegado.

Ele, quando o assunto é mais delicado (e é inevitável assuntos mais delicados virem à tona quando as pessoas estão se relacionado), prefere as entrelinhas. Quando a situação aperta mais um pouco, ele prefere a esquiva. Eu, de um jeito ou de outro, encaro de frente e vai me incomodar demais se o desfecho permanecer nas entrelinhas. Portanto, sou bastante objetivo e ele prefere muito mais a sugestão. O que a mim parece inacabado, para ele é fluido, não precisa ter um fim. Escorpião com ascendente em Peixes.

Enquanto ele é água, eu sou fogo. Embora, para o entendedor, meu Mapa Natal tenha mais pontos de água na soma da coisa toda…

Amor fraterno

Pensando bem, o que tenho com meu irmão possui os encaixes imaginados do amor fraterno. Um amor que foi conquistado pois, para virar a chavinha dos traumas, tretas, birras e conflitos de ego da adolescência entre irmãos mais velho e mais novo (e vice-versa), foi necessário virar uma chavinha que, na realidade, muitos irmãos preferem manter na posição juvenil das tretas. Vivem de provações, provocações, de conflitos de razão, de quem “sempre se deu bem” e assim por diante (para não ter que citar, de novo, que esse jeito está repleto de contornos latinos-cordiais).

Superamos essa fase e o que ficou é esse amor, uma compreensão e respeito do que somos hoje.

Considerando que essa conquista seja um fato acumulado por mais de 20 anos, pós-adolescência, como é possível quebrar esse tipo de relação por causa de desacordos sobre conceitos e valores políticos? A conquista, no final, é dessa manutenção.

Da água e do fogo que, sem querer, aprenderam a se respeitar, a se permitir a serem quem são, sem travar as clássicas competições infantis de adultos irmãos.

Vejo meu irmão como um homem (não o gênero, mas o cara de 40), humano, cujas qualidades e defeitos trazem boas coisas e coisas não tão boas assim para ele. Eu simplesmente o aceito sem uma fagulha de condição e, penso, que com ele a mim é a mesma coisa.

Essa incondicionalidade não quer dizer que, em pensamento, não passem críticas e julgamentos a respeito dele em minha mente. E vice-versa. Talvez, se o convívio fosse diário, tudo seria mais difícil (como já foi no passado). Mas não por ser meu irmão, mas porque o convívio diário entre seres humanos são naturalmente difíceis (salvas raras exceções que, se surgirem na vida, a gente agarra com todas as forças. Isso se a gente estiver se permitindo viver para identificar essas raras exceções)…

Assim é com meu irmão.

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.