Meu ninho

O Gabriel, leitor carioca com 20 anos, gay, tem me recorrido virtualmente para compartilhar suas atuais crises existenciais. Na realidade, seus dilemas têm sido os mesmos desde que o conheci e, em intersecções subjetivas entre questões de sua homossexualidade e classe social, me inspirou para escrever o post de hoje.

Educação e independência

Gabriel, ao contrário da maioria de nós, nasceu naquele grupo menor de família de posse. Ele, seu irmão e seus pais moram num belo apartamento de frente ao mar, lá no Rio de Janeiro. Desde de pequeno, ainda semente, teve uma série de regalias e confortos mediante o ponto de vista da maioria que não teve. Digo assim porque, se todo brasileiro tivesse as mesmas condições materiais que teve o Gabriel até hoje, não teríamos referencial para distinguir o que são “regalias e confortos”. Seria igual para todo mundo.

Nesse mesmo contexto, desde pequeno, seus pais o educaram de uma maneira “aninhada”, voltada para dentro da bolha. Por um lado, teve e tem acesso a privilégios que uma maioria só poderá obter depois de formado, ganhando o próprio dinheiro por intermédio de uma labuta diária e força de vontade. Aos 19 anos ganhou um HB20 de seu pai. Poderia ser um Celta ou um carro usado. Mas Gabriel, segundo ele, nunca foi muito atento a esse tipo de tema e, por fim, quem escolheu o veículo foi seu pai, evidentemente numa escolha sob o contexto social o qual se encontra. HB20 não deixa de vender uma ideia de status. Por outro lado, em dois anos de convívio comigo e um encontro presencial, já sabia pelo contato com meus colegas da ESPM viventes dessa mesma “nata”, que Gabriel teria as mesmíssimas questões existenciais sobre ser gay, assim como qualquer outro jovem. A nuance em sua vida é que num contexto de tanto conforto fornecido exclusivamente pelos seus pais há 20 anos, ele é muito mais dependente. Sempre soube que conforto gera dependência. Ainda mais quando, desde semente, se germina num berço de ouro.

Me questionou hoje sobre a independência dos outros amigos do Blog, referenciando-se ao post anterior. Fui objetivo e deixei bem claro: “não é o fato deles serem um pouco mais velhos que você que os fazem mais independentes. O que noto com as referências desses meninos é que a sua educação é mais conservadora e existe um aspecto de que seus pais ‘aninham’ você e seu irmão. Digamos que vocês são mais ‘mimados’, embora essa não seja a melhor palavra. Os demais tiveram que se virar mais cedo. Não tiveram tantos privilégios. Isso faz a independência vir mais cedo…”.

E realmente, no meu ponto de vista, a independência de um filho tem muito a ver com a educação. Na minha, por exemplo, meu pai queria construir um universo de mais dependência desde que tomei consciência. Muitos dos meus medos para me “jogar na vida” e descobrir o mundo vinha desse elo de dependência psicológica construída por papai. Por outro lado, o discurso da minha mãe era o inverso, dizendo: “se joga sem medo, definindo seus próprios limites para que não entre em vício algum”. Tal parágrafo traduz novamente certa máxima: há pais que educam os filhos para si, tentando construir imagem e semelhança e há pais que educam os filhos para o mundo, para que desse mundo o filho construa seu próprio referencial.

Porém, num contexto cômodo como do Gabriel, cheio de regalias e benesses desde semente, tal conforto ressoa também como amarras duras as vezes. Muitos de seus anseios atuais o inspira a desapegar de sua bolha mas, ao mesmo tempo, existe toda uma esfera de regalias que o puxa para a caixinha conservadora criada pelos seus pais. Nesse bolo todo de pais que criaram seus filhos para si, imagem e semelhança, a sua realidade homossexual é notada com constantes questionamentos (de sua mãe, que sabe). Questionamentos que vem de maneira “elegante, política e intelectual” como se faz nesse universo de elite, mas não deixa de ser um puta saco.

Sammy, Matheus, Kota, Beto, Japinha, eu. Tivemos regalias de uma média classe no geral, longe do poder material da esfera do Gabriel. Alguns deles começaram a trabalhar por necessidade, então iniciaram mais cedo. No meu caso, embora tenha ganhado um Ford KA de meu pai há séculos atrás, quando resolvi montar a minha empresa com 23 anos tive as costas. Papai, assim como os pais de Gabriel, tinha um projeto completo para a minha vida, imagem e semelhança. Quando resolvi romper com a bolha, tive a total negação. Não me ajudou em nada, nem para ser fiador da casa que vivi de aluguel durante sete anos. Mas tomei coragem, respirei fundo, fiz vistas grossas ao meu pai, me agarrei nas orações da minha mãe e me joguei. Papai perdeu alguns fios de cabelo e eu, finalmente, iniciava a minha emancipação. Ficamos um ano sem falar, quer dizer, ele quis assim. Mamãe, finalmente, celebrava em silêncio a minha liberdade de escolha. O mundo era o seu projeto a mim.

O exemplo de Gabriel há de servir de referência para a maioria que vive em outras bolhas: dinheiro traz felicidade? Eu diria que dinheiro confere alguns confortos e privilégios. Mas tais privilégios nos preenchem mesmo da dádiva da satisfação quando conquistados. Pelo menos esse é o caminho que segui na minha vida: foram as minhas conquistas emancipatórias por ser gay, no trabalho, nas amizades e na própria relação que tenho construída hoje com meus pais e com meu irmão que me satisfazem. Papai definiu por levar uma “eterna amargura” por ambos os filhos não terem saído do jeito que gostaria. Tem lapsos de orgulho, mas passa a maior parte do tempo reclamando de tudo (rs).

Eu demorei 38 anos para ter certos privilégios e confortos que, Gabriel, já tem com seus 20 anos sobre um alicerce material solidificado por seus pais. Mas para Gabriel, mesmo por ter nascido nesse universo de regalias, considera que o mundo hoje é pior do que melhor. Eu, mesmo por ter demorado 38 anos para ter conquistado certos privilégios, os mesmos que ele tem aos tenros 20 anos, considero o mundo hoje melhor do que pior.

Passei por necessidades grandes, aquelas comuns a minha esfera social: com 20 e poucos anos tive indecisões sobre carreira, grana que apertava durante meses, dívidas! Queria ter muita coisa, mas daquele mundo eu conseguia um pouquinho. As vezes, ficava tão inconformado com a minha condição, de meu pai ter virado as costas e de estar me fodendo com uma empresa que não deslanchava, que a minha vontade era vender água de coco na praia. Quantas vezes eu não acordava, logo de manhã e pensava: “vou abandonar essa minha empresa do caralho!”, “sou um desgraçado!”. Dezenas, senão centenas.

Descobri nesses 20 anos de carreira, do tempo que tive meu primeiro e segundo estágios para hoje, que sob efeito da resiliência e fé a gente conquista. Tais virtudes residem em todos nós incondicionalmente, mas o quanto as desenvolveremos independem se somos um Gabriel, Flávio, Sammy, Matheus, Beto, Japinha ou etc. Depende de aceitarmos nossa condição particular hoje (sem buscar comparações inúteis e reducionistas), traçar propósitos para vida e seguir.

A mim, foi a melhor maneira de entender que o mundo hoje é melhor do que ontem sob todos os aspectos. Até o fato de não ter votado na Dilma me deixa de consciência limpa (RISOS).

“Melhor que olhar para o lado é olhar para frente”. Se depender do MVG e do Flávio, seguimos em frente sempre. Olhar para o lado e comparar é perda de tempo e só faz rodar em círculos.

10 comentários Adicione o seu

  1. Sandro Bonassa disse:

    Flávio, que texto fantástico.

    Realmente privilégios, berço de ouro, muitas vezes são uma prisão.
    E olhar para o lado não ajuda em nada, temos sempre que andar em frente.
    Admiro peesoas que rompem as redias do conforto e buscam sua realizar pessoal e profissional, entretanto o mundo.
    Venho de uma família classe média, nada de muito luxo, porém tive acesso a educação particular, carro ford KA usado meu pai ajudou a comprar o resto foi comigo.
    Admito que boa parte da minha vida passei lutando para aceitar minha sexualidade e acabei que deixando alguns pontos importantes de lado.
    Mais sou feliz por ter encontrado o equilíbrio e a fé na vida, duas combinações extremamente importante, graças a elas enfrentei de cabeça erguida por duas vezes o câncer, saindo vitorioso, até mesmo as Sequelas foram muito menor que os médicos previam.

    Adorei este texto

    1. minhavidagay disse:

      Valeu, Sandro! :)

  2. Dani Boy disse:

    confesso que tbm sou “mimado” e concordo que confortos regalias geram dependência acho que são usadas propositalmente pelos pais hahaha.

    bom duas coisas; a primeira que por “estranho” que pareça tambem acho o mundo pior que melhor … efeito da bolha será??

    e segunda, HB20 status ?? NAONDE??? HB20 é caro de classe media que ACHA que nao é classe média hahaha

    1. minhavidagay disse:

      O Dani Boy!

      Qualquer “mommy’s boy” que sonha com o i30, mas que o pai não vai tirar a mão do bolso por achar demais alguém de 18/20 anos ter um carro desses, tem que se contentar com um HB20. ;)

  3. Gabriel disse:

    Ai Flavio, que loucura!! hahaha

    Virei a “bicha rica” do blog hoje. Não que eu não desejasse a atenção, mas percebi claramente que você não foi nada politicamente correto comigo, afinal, o texto esta muito muito parecido com aquela conversa que tivemos ontem, com trechos vindos diretamente ela. Gostei do texto, porem queria apontar uma coisa interessante nele. Em relação a crescer pessoalmente, superar seus limites e sair das asas de seus pais, a influencia paterna na sua vida foi, em sua maior parte, negativa. Mas para compensar, você sempre pode contar com sua mae, que apoiou você e queria que você fosse independente. Você já se imaginou, Flavio, se ela tambem fosse como seu pai? Se você não tivesse tal incentivo da parte dela? Seria que teria conseguido mesmo assim, ou teria a alto estima em conta hoje? Difícil dizer, mas infelizmente, acho minha situação em casa mais difícil. Ninguém esta do meu lado, e duvido do amor de todos. O mais próximo que tenho de alguém que me apoia pelo que sou e’ minha avo, embora eu saiba que nunca poderei me assumir gay para ela (mas a perdoo por causa da idade). Isso me faz muita falta. Eu quero passar pelo que os seus outros amigos passaram o mais rápido possível, mas sei que pra mim vai ser mais difícil, pois sou um mimado as avessas: sou acomodado, mas tenho a auto estima baixa. Qualquer saída da zona de conforto me amedronta.

    Claro, apesar de ser difícil, não estou aqui para me lamentar. Tenho amigos em situação ainda pior do que a minha, com famílias que ninguém gostaria de ter. Para fechar esse comentário com uma nota mais otimista, sábado aconteceu uma coisa que eu não te contei ainda. Meus pais chegaram de viagem ao Rio, e perguntaram se eu poderia ir busca-los. Gelei de medo, pois teria que atravessar todo o aterro do Flamengo, uma zona de transito rápido, para ir busca-los. Mas no fim, quando vi que nada tinha a perder, peguei o carro e, com a ajuda de meu fiel irmão praguejador, consegui chegar sem arranhões ate la, para ir e para voltar. A única bronca que levei foi quando não parei para estacionar no valet do shopping, coisa que nunca faria se estivesse sozinho. Pode ser só esquerdice caviar, mas senti uma imensa satisfação fazendo meus pais pararem na vaga comum ;-)

    1. minhavidagay disse:

      Gabrielke! =D

      Que bom que você se manifestou por aqui como um legítimo gay high society (rs). É bom ter percepções de pessoas desse “pequeno castelo de cristal”. Brincadeiras a parte, vou cair de cara numa função MVG: logo no seu primeiro parágrafo, quando você entra na COMPARAÇÃO de seus pais em relação aos meus, dizendo que para mim foi mais “fácil” por isso, aquilo, assim e assado, desculpe, furou o argumento! (rs). Deixei bastante claro que são nessas comparações, tentando “intensificar” os seus problemas em relação aos problemas dos outros, que acabamos rodando em círculos e não saindo do lugar. Os problemas com meus pais eu tive, os problemas com o seus pais você tem e o fato de eu resolver os meus problemas não vai garantir a resolução dos seus. Comparações que não vão levar a nada…

      No meu ponto de vista, independentemente das classes, o poder capital não compra algumas soluções para as nossas crises existenciais. Seja com muito dinheiro ou pouco, as suas questões tangem uma forte divergência cultural, de olhar para a sua bolha e viver num tipo de trânsito entre o que você gostaria e o que o seu núcleo “impõe”, incluindo todas as comodidades que te “seguram”.

      Vou te explicar, na minha opinião, o por quê de você e do “Dani Boy” entenderem o mundo de hoje pior do que melhor: vocês enxergam assim porque, talvez, nos mais diversos âmbitos da vida, o modelão autocrático centrado no poder familiar é tão intenso sobre vocês, que acabam por não terem autonomia para fazerem o que gostam. Muito difícil as pessoas serem “paus mandados”, seguindo normas, condutas e regras porque certa “etiqueta” da elite obriga. Certas “verdades absolutas” que te resguardam e etc.

      Sem essa autonomia de vida, tudo fica mais chato, mais cinza… se a gente perde essa liberdade, ou não descobre as cores que essa liberdade nos oferece, o mundo fica pior mesmo.

      Em outras palavras, você ainda enxerga o mundo com os olhos dos seus pais e talvez assuma isso para o resto da sua vida! As pessoas lá fora são invejosas, gananciosas, aproveitadoras e etc. Só em sua pequena bolha de benesses resistem a paz e “a verdade”. Nota como é estreito e apertado? Quem pode ver o mundo com bons olhos desse jeito? Quem pode ver o mundo com bons olhos enxergando-o com os olhos de outros?

      Você está numa fase de vida “chave” para definir o que vai comprar do seu modelão e do que você vai comprar porque buscou desvendar, com os próprios olhos.

      Abraços!

  4. Thiaggo disse:

    oooh Deuuus!
    um rico sofrendo de crise existencial … PAREM AS MAQUINAS!! ACUDAM!! rs

    que dó (SQN) …

    mas uma coisa é certa né?! viado é viado em todo lugar em qualquer situação. Seja aqueles que foram tratados desde pequenos a yakult e macarons ou aqueles que como o chaves só queriam um sanduíche de presunto (#desses)

  5. Pru disse:

    Olá pessoal,

    acompanho o blog desde meados de 2013 mas nunca comentei nada. Sempre acompanhei o blog de longe e incontáveis vezes fui contemplado com as postagens do MVG. O blog sempre me ajudou e me ajuda com diversas questões que levanto a mim mesmo e se tornou pra mim um grande referencial.

    Mas o que me levou a escrever aqui hoje foi o fato de estar passando, em alguns pontos, pela mesma situação vivenciada pelo Gabriel. Tenho 19 anos, moro no Rio de Janeiro também e, embora não faça parte exatamente da mesma realidade que o Gabriel, me sinto preso a essa zona de conforto que de certa forma acabou sendo imposta pelo meu pai. Tenho um relacionamento muito bom com ele, “não me falta nada” mas ao mesmo tempo a sensação de dependência que eu tenho chega a ser sufocante em alguns momentos. Com isso, hoje em dia me questiono cada vez mais se chegou a hora em que eu devo seguir os meus próprios passos (fato que faria com que eu tivesse que sair da zona de conforto e correr atrás de muita coisa) ou se sigo o que, aos olhos do meu pai, é o certo mas que eu não tenho certeza se me fará feliz. Digo isso em relação a minha vida profissional, que é o meio que eu vejo de conquistar a minha independência.

    Enfim, queria só deixar registrada aqui a minha solidariedade ao Gabriel já que estou passando de certo modo por algo parecido. E dizer que cada vez mais eu penso em ir em busca do que vai me fazer feliz realmente. Eu sei que não vai ser fácil mas acho que no final de tudo irá valer a pena. Talvez você deva fazer o mesmo…

    Um grande abraço a todos,
    Pru. =)

    1. Gabriel disse:

      Ola Pru, tudo bom?

      Bom saber que não estou sozinho nessa empreitada. Você poderia me mandar seu e-mail pra gente conversar melhor? Aqui tem poucos cariocas, então qualquer um que tiver ja e’ uma alegria. Mande só se estiver a fim, não estou exigindo nada rs De longe, achei você o melhor comentarista que apareceu aqui rs.

      1. Pru disse:

        Olá!

        Fico feliz por voce ter gostado do meu comentário. Espero que ele tenha ajudado de alguma forma. Não sei se vai contra alguma regra do blog deixar meu email aqui mas realmente é difícil encontrar cariocas pelo blog, ainda mais na mesma faixa etária rs. Então lá vai: eumesm81@hotmail.com

        Até mais! :)

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