Midnight Diner: Tokyo Stories

Mais uma recomendação cultural produzida no Japão

Trago aqui mais uma referência cultura com Midnight Diner: Tokyo Stories, outro seriado para o latino-cordial brasileiro que busca maneiras, formas e meios para rever seu entorno e, até mesmo, fazer um exercício para entender a própria maneira de ser.

A cultura japonesa no Brasil é uma das predominantes, principalmente no Sudeste e Sul do país, formando essa sopa diversa que dá a cara à sociedade brasileira.

Um dos pontos que a mim é marcante, independentemente do fato de ser gay, é que uma das fraquezas de nossa sociedade é a própria diversidade cultural que nesse solo se estabelece: uma verdadeira colcha de retalhos. Já explico.

Torre de Babel

A história da Torre de Babel – seu caráter lúdico e metafórico – sempre me chamou bastante atenção. Gosto.

Além da desigualdade de classe ser (ainda) marcante em nosso país, uma diferença que – a mim – é nítida, é a de culturas que muitas vezes me pôs a crer na metáfora de Babel e Brasil. Somos latinos predominantemente (descendentes de espanhóis, portugueses e italianos, cada qual com suas nuances e, esses, marcados como os definitivos a trazerem o Cristianismo para o país), africanos, índios, holandeses, japoneses, chineses… e a conta não acaba por aqui.

Como criar uma identidade de sociedade (ou nação), como por exemplo é na Holanda ou até mesmo o Reino Unido? Além de um amplo território que dificulta o controle de governos, da má distribuição de renda e da ausência de políticas de controle de natalidade (ainda escrevo mais o que penso sobre este tema), vivemos de colchas de retalhos étnicos e culturas, cujas partes muitas vezes não se costuram (e, as vezes, até reagem para não se costurar).

Japoneses

A exemplo da cultura japonesa, habitamos o Brasil desde 1908 e, ainda, para uma grande maioria das outras nacionalidades que aqui se constitui, o japonês é um povo que pouco se conhece. Se o assunto não é animes, mangás, cosplay, algo da música pop e culinária.

Midnight Diner: Tokyo Stories relata pequenos casos de 20 minutos cada, abrangendo as mais diferentes nuances de relacionamentos entre japoneses. Não chega a enaltecer estereótipos, mas sim casos recorrentes que definem o cotidiano do japonês, muito além do que qualquer turista poderia enxergar. Gosto, muito.

Travesti no Japão? Tanto faz…

O primeiro ponto marcante e congruente com o Minha Vida Gay é que o transgênero, o travesti, o cross-dresser ou a drag queen, são (altamente) normatizados no Japão. Eu já tinha essa desconfiança pelo fato da cultura de gênero não ser algo marcada em minha educação, diferente da maioria dos conhecidos com alguma descendência latina.

Conversando hoje mesmo com meu pai – ele já tinha assistido esse seriado – ele comenta que o travesti no Japão é tratado com respeito (diga-se normalidade). Achei legal ele ter trazido exatamente esse ponto, logo que começou a falar também sobre o Midnight Diner: Tokyo Stories.

Esse é um fato claramente expresso no seriado, já que dois amigos travestis frequentam o restaurante Meshi, ponto central onde se discorre todos os relatos e casos.

O japonês não é herói

É (altamente) marcante na cultura latina (ou até mesmo ocidental), a dicotomia entre “heróis e vilões”. Em novelas, seriados e filmes, o “mocinho” sempre carrega virtudes e adjetivos positivos (não comete erros, não falha, não se corrompe, não erra, é bonito, é galã, é bom moço) e o “bandido” carrega todos trejeitos e feitos do que é vil, mal, corrupto.

O mal está no outro.

Esse conceito bipolar é bombardeado em nosso solo, regado de muita emoção, calor, drama do “tipo” mexicano e, não raro, com muita histeria. Quando erramos, sempre temos um milhão de desculpas, nomeando terceiros, situações ou fatos alheios.

O mal está no outro. Amém.

Desde Terrace House (que é um Reality Show e, por consequência, não tem grandes atores e atuações), é possível notar que a ênfase igualmente expressa em Midnight Diner: Tokyo Stories é, basicamente, a humanidade. A falibilidade que acompanha todos os indivíduos, que nos enche de culpas, remorsos e arrependimentos, mas com um tom e uma estética leve, quase que trivial, tornando aquilo que nos humaniza (nossos erros, basicamente) em algo natural, corriqueiro, perdoável, digestível.

Sangue Latino

O objetivo desses meus posts que trazem um pouco da cultura japonesa – para lá das temáticas gays – não é mudar o DNA latino, tampouco criar comparações para entrar no julgamento do “melhor ou pior”, “bem ou mal”, aquela velha e boa competitividade infantil que não nos tira do lugar.

Mas partindo do pressuposto que todas as culturas tem problemas [reforço, por exemplo: japoneses estão mais predispostos ao suicídio devido as nuances da cultura e tem grandes dificuldades para formar par, igualmente pelos contornos culturais], olhar de fora a nossa própria cultura latina-cordial-brasileira pode ser um exercício importante (para o momento ou com alguma frequência) para entender os mesmos velhos buracos em que nos metemos.

Todas as culturas têm essas valas. Todas. Mas por quais motivos o brasileiro ainda enfrenta o estigma da desigualdade? Por quais motivos a corrupção é tão disseminada nas mais diversas camadas sociais e até mesmo em hábitos corriqueiros? Por quais motivos cremos (ou torcemos) para divindades ou demônios quando o assunto é política? Por quais motivos o Cristianismo, seja no formato católico, ou agora evangélico, predomina, muitas vezes criando verdadeiros dependentes fanáticos?

Talvez as respostas para essas perguntas sejam bastante óbvias para uma boa parte dos leitores do Minha Vida Gay. Mas, ao que tudo indica, não fomos contundentes e frequentes o suficiente para executar, praticar e estabelecer novos patamares como sociedade.

Ainda.

Não existe um mundo melhor do que outro

Já estive no metrô de Nova Iorque como mais um cidadão comum, algumas vezes na vida. As cidades de Tóquio e Nova Iorque são tidas como potências de avanço e produtividade. E, mesmo assim, é bastante comum ver um idoso nova iorquino lendo o jornal e resmungando sobre os problemas do seu local. Notei algumas dezenas de vezes, fazendo mentalmente a comparação besta de que “esse senhor não faz ideia de como é no Brasil”.

Tenho como definitivo que o ser humano carrega em seu sistema operacional o inconformismo, a contrariedade e uma (eterna) sensação de insatisfação independentemente de qual canto dessa terra ele esteja. Mas a movimentação, a ação, a atitude, a postura e o executar para transformar aquele estado de inconformismo, contrariedade e insatisfação variam drasticamente de sociedade para sociedade, de indivíduo para indivíduo.

Parto de outro pressuposto de que a grande maioria das pessoas, no mundo, tem o eixo na zona de conforto, na estagnação. Quase assumo que é algo humano. A diferença é que a compreensão do coletivo – o senso dessa coletividade – é que vai promover uma ação em rede para algum avanço e/ou evolução, para a estagnação ou para o precipício. Eu definitivamente considero que, quando nas últimas eleições presidenciais a esmagadora maioria votou para o segundo turno nos dois candidatos mais odiados (ou com maiores índices de rejeição), a escolha coletiva – no final – foi para um tipo de precipício.

Quanto mais individualizados formos – fazendo jus a máxima “terra de ninguém” que para alguns define o Brasil há séculos – mais consentiremos a Babel que, aqui e agora, se estabelece em nosso país.

De novo: não existem fontes e buracos melhores ou piores do que de outros. Apenas a eterna desculpa (ou não) das coisas serem como são.

Eu creio mesmo que, seja aqui ou no Japão, tudo é fruto (também) da omissão sobre a parte que nos cabe.

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