Minha vida gay hoje

O Blog Minha Vida Gay ultrapassou os 4 anos, o que me permite aplicar bem o termo “antigamente”. Basta pensar que comecei a formatá-lo em 2011, quando tinha 34 anos e não vai demorar muito para eu completar meus 39 anos hoje. Sou quase um quarentão e o Blog está “finalizando os 4 anos de faculdade”! =O

Posso afirmar que a minha percepção sobre relacionamentos afetivos e, no caso, gays, mudou bastante nesse período. Até meus 33 anos (ou na fase do namoro com o Beto) eu tinha um punhado de sentimentalidades que jovens (ou não tão jovens assim) tem em relação aos seus pretendentes e parceiros. Expectativas e idealizações (advindas de paixões e/ou carências, e até mesmo uma baixa autoestima) funcionam como uma névoa sobre o preterido. Quando estamos nessas condições de apaixonados, carentes ou com a autoestima baixa, tendemos a não enxergar o outro como ele é. Enxergamos apenas os ideais criados em nossa cabeça e as expectativas formadas a partir delas. Não conseguimos ficar em paz; pelo contrário, ficamos ansiosos! Não é à toa que tantos relacionamentos que se iniciam em paixonites agudas, terminam em frustrações, rancores e dilúvios sem precedentes! Uma das partes – salvo raras exceções – sempre será mais pé no chão ou, na pior das hipóteses, alguém que irá projetar as próprias frustrações na pessoa que é “abusada”. Doa a quem doer, a realidade é que se a gente alimenta o gênio ruim de cada um (e todos nós temos essa faceta), bem nutrido, o gênio ruim (do ego) tende a ser cruel, mesmo que sem consciência.

Vivemos um contexto cultural bastante movido pela emoção. Somos numa maioria afro-latinos e, historicamente, sabemos muito bem o quanto tais culturas de origem carregam certas tonalidades mais fortes de sentimentalidades para as coisas. Ou você acha que o termo “novela mexicana” é um mero trocadilho? “Robozinhos” talvez sejam os anglo-saxões (alemães, por exemplo) ou os japoneses! E quem sabe, a evolução está no equilíbrio entre tais partes. Agora, um desgostar do outro “porque japonês isso e mulato é aquilo” é a negação daquilo que nos faz falta.

Na última Copa, retirando a camada dos trambiques, a Alemanha venceu pela técnica. Em outras palavras, seria o mesmo que dizer: “controle as emoções e se aplique na razão, no treinamento e na técnica pois o futebol é um jogo estratégico”. Vez ou outra, o jeito do Brasil, seja materializado em um time de futebol ou um candidato a presidência, nos confere alguma explosão de entusiasmo, atendendo nossas expectativas. Mas, no meu ponto de vista, ao reger a vida a maior parte do tempo pela emoção – contrariando os movimentos humanistas que andam povoando a nossa sociedade – sem dar espaço para razão (e para a intuição), assumimos o nosso desequilíbrio e todas as consequências dessa escolha. Assumimos inclusive o risco invisível que é conceder tanto crédito para a “fé que depositamos no outro”, seja num time, num político ou naquele rapaz ali, que você quer para você!

Posso afirmar que o olhar atento ao conhecimento, por meio de livros, estudos e treinamentos e até mesmo pela prática, nos desenvolvem a razão. Estou afirmando que, se o brasileiro não gosta de estudar, simplesmente está negando a oportunidade de se tornar um indivíduo mais equilibrado e, consequentemente, um indivíduo que define objetivos na vida e, o melhor de tudo, os alcança. Um indivíduo que adquire um maior controle de si, que permite-se a pensar pelo coração, pela mente e pela intuição. Pasmem, mas o conhecimento e a consciência que adquirimos sobre as coisas a partir deles, nos confere uma boa autoestima!

O conhecimento garante algo (extremamente) importante para um indivíduo: a emancipação mental. O que torna fácil um texto difícil, o que nos enriquece de vocabulário para uma entrevista, o que nos fornece condições para superar bloqueios próprios, medos e traumas para seguir em frente a outras jornadas e, embora eu não esteja curtindo atualmente o tom de discurso, o Jean Wyllys é um cara para exemplificar. Apesar de seu subtexto atual gerar concordâncias e discordâncias (o que o coloca num patamar polêmico), é inegável que foi uma jornada de conhecimento, afundado em livros, de ouvidos e olhos atentos, atrás de uma carteira de escola, que o Jean virou um tipo de referência de desenvolvimento.

O fato é que existem muitos outros como o Jean, para mostrar que sem conhecimento sobra apenas – somente apenas – as sentimentalidades. Sentimentalidades que, como por exemplo, a Geni – minha faxineira – teve ao repudiar seu marido por ser machista e por ter aprontando com ela por tantos anos. Mas as mesmas sentimentalidades que, hoje, no momento em que ela finalmente decidiu se separar, vem consentindo para que seu filho (que tem uma esposa e uma amante) perpetue o mesmo modelo do pai. Afirmo que, a ela, faltou tal emancipação intelectual para que tivesse vivido bem longe desse marido enquanto seu filho era uma criança. Teve a chance, mas num sentido de autopiedade (emocional), manteve tal relação.

Sentimentalidades que muitas vezes colocam o outro num patamar superior ao nosso, das idealizações, do “cara perfeito”. As mesmas sentimentalidades que, quando se choca com a realidade, torna esse ideal num “bandido” e, nós, em vítimas, cujas sequelas e traumas (com as mesmas sentimentalidades) tenderão a ficar nos martirizando até que encontremos outro “ser iluminado”, num ciclo vicioso sem fim.

Embora no discurso trivial e cultural, os sentimentos são colocados como algo nobre, eu afirmo que a cultura brasileira peca pelo excesso de sentimentalidades. A balança desequilibra exatamente aí, quando uma maioria não “pensa”. Perdemos na Copa, em nossa casa, pela fé “insossa” depositada num time tecnicamente despreparado. Estamos perdendo na política, por ter acreditado por tantos anos na bandeira vermelha, na guerrilheira da ditadura, e no homem do povo que sugeria uma igualdade franca a todos (mas não avisou que o rombo em corrupção seria do tamanho de nossa crise econômica). E estamos perdendo todos os dias ao acreditar que o outro, “o rapaz lindo, viril e simpático” nos conferirá a paz que falta dentro da gente. Em todos os casos, depositamos expectativas num elemento externo, como se ele fosse capaz de ativar dentro da gente um entusiasmo fora do comum.

E se para uma emancipação e para um verdadeiro passo para a consciência, tal entusiasmo tiver que vir de nós por nós mesmos?

Então, eis a minha vida gay hoje, acreditando muito mais em mim em relação ao outro e, ao mesmo tempo, vivendo dezenas de intersecções com outras pessoas em diversos níveis. Diversos níveis que, diretamente ou indiretamente, emanam esse jeito de viver a minha. No final, não há certo ou errado, meus queridos leitores. Mas há propósitos e propósitos são praticamente tudo nessa vida. Enquanto isso, seremos uma maioria de “Maria vai com as outras querendo aceitação, curtidas e elogios” para um monte de coisas na vida, esperando que o outro, seja um político, um time de futebol ou “o cara” sejam o motivo de entusiasmo para nossas vidas. Esse modelo comportamental está falido.

 

 

8 comentários Adicione o seu

  1. Ro Fers disse:

    Viver em constante aprendizado, eis o lema da vida.
    Parabéns pelos 04 anos do blog.

    1. minhavidagay disse:

      Obrigado! :)

  2. André Jayme disse:

    Como é tão bom ler textos inteligentes que mesmo depois do fim da leitura te faz pensar e repensar numa constante reflexao sobre a vida, as pessoas, e voce! Parabens pelo texto e pelos 4anos, a proposito voce do signo de escorpiao Flavio? >)

    1. minhavidagay disse:

      Sou ariano, Jayme! :)

  3. Sandro Bonassa disse:

    Parabéns 🎊.

    Você e os leitores merecem.

  4. Lucas disse:

    Seu texto me fez refletir sobre algo que tenho sentido. Tenho um relacionamento há poucos mais de dois anos. No começo tivemos algumas turbulências, mas hoje vivemos tão em paz que, atualmente, sinto não me faltar nada. Mas as pessoas, não sei porque, sempre tentam arrumar um defeito na nossa relação. Quando saímos juntos ouço comentários e pelos olhares das pessoas percebo que elas se perguntam: “O que ele viu nesse menino? Ele não é bonito, ele é muito tímido, não socializa. Ele é muito magro, não é uma pessoa conhecida na sociedade. Nem carro ele tem.” Eu me deparo com tanta superficialidade no relacionamento de algumas pessoas, que cada vez mais me convenço de que estou com a pessoa certa. As pessoas hoje não procuram conhecer o interior das pessoas. Se um indivíduo tem uma boa aparência e algum dinheiro é a pessoa perfeita. Eu costumo olhar para os valores que a pessoa traz dentro de si, os objetivos de vida que ela tem e o quanto ela é capaz de compartilhar sua intimidade comigo. Continuaremos sendo um “casalzinho estranho”,”que não combina”, mas estamos super satisfeitos sendo assim.

    1. minhavidagay disse:

      Você está certo, Lucas. Se livrar de tais modelos pré-definidos é importante. E julgamentos sempre serão feitos. A gente sempre vai precisar fazer comentários da vida alheia para, de alguma forma, comparar com a nossa…

  5. André Jayme disse:

    Ariano é o priemiro em tudo, pelo menos se esforça, leve como uma criança, mas extremamente ciumento, talvez para o menos evoluido. Enfim, Adorando seu Blog!

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