Moonlight

Filme de temática gay: uma crítica aos padrões

Atenção: o post de hoje, dedicado a uma análise do filme “Moonlight”, pode conter spoilers!

Já é mais do que tempo da sociedade lgbt e heteronormativa reconhecerem que não existe uma jeito só para ser gay. Tal ideia é mais abrangente do que parece e quanto mais nos autoafirmamos (a favor ou contra) em direção aos rótulos conhecidos, mais difícil é de enxergar o real.

Creio que os esforços audiovisuais e culturais, para destronarmos os padrões midiáticos, coloridos, belos, sarados, saudáveis e divertidos do “homem gay”, tem sido cada vez mais eficientes. Um Oscar ganho como melhor filme de 2017, no caso, é a garantia da atenção concedida para alguns daqueles (inclusive gays) que talvez achem que “ser gay” é a referência que gira em torno do umbigo ou do imaginário nunca antes atestado.

Sei também que muitas das produções cujo tema é a homossexualidade, focam na questão da “sofrência”, da AIDS e dos dramas comuns (ou não tão mais comuns) a quem é gay. Essa massificação, para uma parcela de pessoas, ainda faz sentido.

Mas exercícios como “Please Like Me”,  “4th Man Out” e “Cuatro Llunas”, apontam para a pluralidade, nos distanciando de rótulos e modelos pré-determinados ao “ser gay”. No mínimo, sugerindo que o gay vai além de nossas próprias referências atuais e, talvez, ajudando a abrir um pouco mais os olhos daqueles que estão construindo ou reconstruindo referenciais.

Em outras palavras, dar vazão ao desejo homossexual não quer dizer necessariamente frequentar as baladas lgbt tal qual a The Week. Não quer dizer frequentar a Praça Benedito Calixto aos sábados à tarde em São Paulo. Não quer dizer também ter que (necessariamente) ativar os aplicativos de relacionamento, como o Grindr, Hornet e Scruff em épocas de “caça”. Não quer dizer optar por um dos pólos na dualidade entre homossexuais masculinizados VS. afeminados. Não quer dizer virar ativista ou polítco para a causa. Não quer dizer conviver entre amigos gays exclusivamente e autoafirmar o sentido de pertencimento nas redes sociais. Muito menos ser alguém “letrado” em relação as gírias do meio, estas, tão exploradas nas mídias bem humaradas.

De fato, alguns gays se identificam e constróem suas imagens vinculadas a tais hábitos. Nada contra, pelo contrário, mas nada muito além do que já é popularizado.

A homossexualidade não se vincula a um tipo, a uma profissão, a roupas específicas, a assuntos de interesse, a hábitos corriqueiros, a lugares, a maneiras ou modismos. Um homossexual pode ser surfista, skatista, lutador, cozinheiro, engenheiro, arquiteto, advogado, dançarino, médico, ator, pedreiro ou político. Pode preferir roupas formais ou andar descolado. Pode ser conectado a “moda gay” ou não ter interesse sobre o assunto. Pode ser magro, baixo, alto, gordo, peludo, liso, careca, cabeludo, romântico ou racional. Pode ser branco, negro, amarelo e, se fosse possível, azul. Pode ter simpatia por Drag Queens e as vezes se travestir ou não ter afinidade nenhuma com a ideia. Pode adorar futebol ou não perder nenhum episódio de Ru Paul.

E enfim, como é determinado em Moonlight, o gay pode administrar uma boca de drogas, ser musculoso, ex-presidiário e se vestir como um rapper norteamericano curtidor de músicas do gênero. Ou ser um cozinheiro, discreto e low profile, um pouco fora de forma, divorciado de sua esposa e com um filho. E, de maneira sublime e suave, ambos podem ter uma relação homossexual, verossímil e afetiva.

A questão é: você se permite viver novas referências para a construção da sua identidade como homossexual? Ou você acredita que “ser gay” é só daquele jeito específico que você não tem nenhuma afinidade?

Moonlight, mais do que uma referência ao heterossexual sobre a homossexualidade, é uma lição ao gay preso a suas caixinhas.


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Flávio Yukio Motonaga
www.lifecoachmvg.com.br

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