Namoro um homem que é casado

Novas estruturas de relacionamento

Esse tema poderia cair como luva para nós, gays, já que é mais comum do que se imagina a formação de relacionamentos afetivos entre dois homens, sendo um deles casado com uma mulher.

A ala mais conservadora poderia nomear formatos assim como “promiscuidade”. Aqui, no Minha Vida Gay, trato como “formas diferentes de organizarmos nossas gavetas”.

O pressuposto primordial é os envolvidos estarem bem, em paz e felizes com os modelos, supondo o respeito aos limites ou limitações dos próprios.

Esse fato, na realidade, chegou a mim de uma amiga – igualmente descendente de japoneses – filha direta de imigrantes (eu sou neto).

Acontece que ela veio comentar assim: “minhas amigas se preocupam e enchem o saco até para que eu case. Eu namoro um rapaz que é casado, mora junto com a mulher, mas há anos eles não têm mais nenhum tipo de relacionamento. Vivem sob o mesmo teto – dormem em camas separadas – e cumprem certas funções sociais perante as pessoas que, durante esses anos, são conhecidas em comum. Mas não há mais relacionamento. O que você acha?”.

Antes de eu responder o que eu achava, fiz uma definitiva pergunta: “você se sente bem assim? Está feliz? Ambos estão seguros nesse modelo?”.

Ela: “eu com certeza estou”.

Eu: “bom, então não tem muito mais o que falar. A gente pode ser de esquerda, direita, azul, cor-de-rosa, vermelho ou branco. Mas com certeza uma grande maioria – inclusive gays – vê segurança apenas em formatos tradicionais e conservadores espelhados da heteronormatividade. E eu, por inclusive ser gay, tive a vida me ensinando a criar alternativas, em cima de um modelo que eu sabia que jamais de completaria. Até fui casado do ‘jeitinho bonitinho’, por três anos e quem disse que foi um mar de rosas? A gente acha que essas idealizações vão nos trazer uma felicidade plena. Mas, na realidade, não existe modelo de relacionamento que não traga problemas no pacote, na prática. A questão é: o que você banca, suporta, quer lidar? O que você quer?”.

Minha amiga arregalou os olhos (na medida do possível – rs) por ter sido uma primeira pessoa a trazer aquele tipo de olhar/ponto de vista sobre um assunto que, de domínio público, traria os mais batidos aconselhamentos, as mais tradicionais reações.

“Sim, eu me sinto bem e feliz assim” – afirmou a minha amiga, com uma entonação segura.

E não há previsão para esse formato ser diferente disso por hora, por desejo de ambos.

Lidar com as escolhas

Quantas pessoas, inclusive gays, não seguem o padrão tradicional vindo da heteronormatividade? Quantos não experimentam relacionamentos a três ou são solteiros vivendo um romance aqui e outro ali? Quantos não abrem a relação para dinamizar toda história?

A vida, com o passar do anos, vai nos ensinando que as idealizações são maravilhosas enquanto estão apenas dentro de nossas mentes, quando é apenas uma ideia controlada e construída pelo nosso individualismo. Fantasiar é, muitas vezes, uma ação egoísta!

Por outro lado, estou longe de ser o tipo que me tornei uma revoltado, um inconformado e uma vítima da realidade porque ela me entregou também as dificuldades, decepções e frustrações que a gente, no final, vai entender que ela entrega mesmo, a todos. Nos acinzentar/amargurar devido a elas ou superar é questão de escolha.

O ser humano, por causa dessa tal de consciência, se tornou um dos bichos mais estranhos desse planeta. Primeiro porque vive mais tempo de idealizações do que deveria. Depois, porque parece preferir projetar em terceiros e quartos a responsabilidade, quando as coisas não funcionam – na prática – como se gostaria. Olhar para si é de um incômodo sem tamanho.

Desafios assim não são para amadores

O modelo que a minha amiga topou, de namorar um rapaz casado, não quer dizer que vai durar para sempre ou que será sempre bom. O que é mais importante é que, hoje, ambos se encontram em conformidade e equilíbrio assim, assumindo os prós e contras (inclusive as opiniões depreciativas de amigas!).

A falência das instituições familiares, no esquema padrão e tradicional que conhecemos, não quer dizer o extermínio das mesmas. Mas, simplesmente, a possibilidade de tentarmos, criarmos e experimentarmos variações, como essa que a minha amiga se propôs.

Nada se perde e tudo se transforma. Só que o ser humano tem pavor de mudanças, no geral. O ar da fatalidade (Cristão, no caso de nosso país) predomina quando o assunto é mudança.

Achar que será maravilhoso para sempre, seja o modelo que for, é coisa de criança. Criança bebe leite…

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