Não tem um jeito só para ser gay

O post de hoje fala sobre rumos. Rumos subentende propósitos e, estes últimos, estão diretamente relacionados à personalidade das pessoas, gays ou heterossexuais.

O texto de hoje serve para abrir os olhos de quem estiver disposto a isso: ser gay não é e não deve ser um punhado de comportamentos específicos que nos definem, que nos colocam em estereótipos. Gay não é comportamento e já ouvi muita besteira por aí, posturas reducionistas, precárias, insensatas. Já ouvi que gay tem o perfil que trabalha muito e que acumula riqueza para que, na velhice, tenha condições de ficar financiando os “boys”, viris e transpirando sexualidade. Ouvi também que gay gosta principalmente das divas, Lady Gaga, Madonna, Shakira e derivados. Outros já acham estranho aqueles gays que não frequentam o meio, como se estar no meio fosse algo obrigatório. Ainda, tem aqueles que nos colocam num contexto de promiscuidade, de que gays são mais atirados e pensam 80% do tempo em sexo. Para finalizar com chave de ouro, tem aqueles que acham que gays são sempre divertidos, alegres e de bem com a vida.

Essas fôrmas comportamentais não diferem em nada de quando rotulamos héteros, alegando que só falam de bundas e futebol. Que são todos machistas. Ou que travestis adoram o submundo, são escandalosos e safados. Ou que negros são menos evoluídos que brancos.

Tudo isso vem de um apego emocional que invariavelmente nos reduz, de uma necessidade de grudar em algum costume para nos caracterizar. É apego dos perfis de pessoas (e elas existem) que precisam se prender à caixinhas pela pura necessidade de autoaceitação e inclusão. Para poder criar algum tipo de comparação e dizer que “o meu jeito é melhor do que o outro e se fulano não estiver nesse ritmo, ele não faz parte”.

Vou explicar a vocês, queridos e fiéis leitores, o que é – na minha concepção – ser gay:

1 – Ser gay é como o amigo Tiago. Há dois anos atrás tinha acabado de assumir sua homossexualidade, ainda se entendendo. Formávamos nossa amizade num contexto em que ele passava por uma forte desilusão da paixão. Andava inseguro, quase acreditando que “os gays só querem saber de curtição” (mais um modelão comportamental). De lá pra cá fez uma viagem solitária para fora do país, conheceu um pouco do “submundo” da vida gay, dos prazeres imediatos e rápidos. Eis que, quando retornou e ainda desiludido, com a autoestima baixa, entrou no Tinder e cruzou pelo Michel. Iniciaram um namoro, cujo primeiro encontro foi digno de filme de romance. Vão casar no final do ano, com direito a cerimônia religiosa, buffet, festa, padrinhos e convidados. Vão morar sob o mesmo teto também e assim, dar um tom para essa coisa de ser gay.

2 – Ser gay é como meu amigo Matheus. Vive um vida mais agitada, cheio de compromissos agendados nos finais de semana, antes mesmo da semana começar! Teve dois relacionamentos que, apesar de durarem meses, foram fortemente representativos para seu amadurecimento. É uma pessoa talentosa, com uma energia incrível para desdobrar sua vida profissional. Não foi apenas uma única vez que disse a ele: “você vai longe” e, realmente, tem habilidade e vontade grandes de prosperar profissionalmente. Vive ainda um pouco dos “fantasmas” de seu último namoro. Talvez não tenha enterrado totalmente seu ex, se de fato isso seja possível. Tem se permitido, aos poucos, pelas andanças nas festas e nos aplicativos, conhecer pessoas novas para a sua vida. Aguarda por um tipo de encantamento e, claro, que seja correspondido.

3 – Conheci o Fernando, um cara extremamente religioso e rigoroso consigo. Com 45 anos na época, parecia ter muito mais bloqueios que os meus amigos mais jovens. Não imaginava que apresentá-lo ao Grindr abriria pressupostos maiores, que formariam o enredo de sua vida por mais de um ano. Conheceu um menino, de 25 anos e hoje vivem juntos uma amizade que não é bem amizade e uma afetividade que não é realmente afetiva. O Fernando atravessou aquela “porta” que dificilmente um gay passará novamente: viu, enfim, a possibilidade de despejar de sua “represa da alma” todo o sentido de afetividade e atenção que, em seu imaginário, era o jeito decente de se fazer. Tem descoberto, assim, que o correto não existe. Não existe apenas uma fórmula química para equacionar as relações, as gerações e os valores de cada indivíduo. Em um mundo tão diverso como o Brasil, cujas percepções são tão distintas, Fernando tem percebido que há uma realidade muito mais diferente do que, aparentemente, estava cristalizado em seu ideal.

4 – Eu cheguei numa etapa de minha vida que não consigo mais me prender a um “jeito certo de ser gay”. Isso não há e digo mais: não existe um jeito certo para ser, desde que o outro não seja prejudicado. Descobri em minhas “andanças mentais” e vivências que – no começo, enquanto jovens – a gente até se prende a determinados comportamentos e atitudes para formar uma identidade e dizer “eu pertenço a esse grupo” (claro que num processo muito inconsciente e que pode durar a vida inteira). Mas o cuidado se dá justamente em não achar que esse “mundo particular” que se forma define a homossexualidade ou define o “jeito certo”.

Pode até definir o seu, aquele que te conforta e te faz bem, mas não quer dizer que corresponde ao jeito do outro. Ser um velho gay solteiro “rico” para ficar cultivando “boys” não define a vida gay. Ter fixação pelas divas não define a vida gay. Precisar frequentar o meio não define a vida gay. Ter hábitos promíscuos não define a vida gay. Ser gay não é um estado emocional constante de alegria contagiante, diversão e de leveza na vida, o que inclusive nos desumaniza. Nada disso nos define, embora alguns gays cultuem essas imagens.

Chega uma hora que a gente busca o nosso jeito de ser, puxando um pouco do que nos apetece nesse caldo imenso de referências, coisa que qualquer indivíduo faz.

Ser gay é muito mais do que o enlatado, apesar do enlatado confortar muita gente. Vá atrás do seu jeito e seja feliz.

 

1 comentário Adicione o seu

  1. Rodrigo disse:

    Pra mim ser gay acima de tudo é ser você mesmo, é se sentir confortável com sigo mesmo. Eu amei o blog desde o primeiro dia em que acidentalmente li um post que falava sobre gays que se apaixonam por heteros a dois anos atrás. Sinto falta de mais posts assim.

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