Natal que eu amo, Natal que eu odeio

Natal. Não sei se acontece com a grande maioria dos gays, mas tal celebração normativa e de origem religiosa tende a ser sempre motivo de muita alegria ou de um bode extremo. Falarei àqueles que sentem um bode gigante hoje. :)

Particularmente eu sempre adorei o Natal. Talvez porque, desde a minha infância, não tive essa referência de juntar toda a família, primos e tios que se veem apenas uma ou duas vezes por ano. Nunca tive aquela tia ou avó lançando a famosa pergunta indesejada cedo ou tarde: “cadê a sua namorada, Chiquinho?”

Tal gesto, das tias ou dos avós, sempre foi motivo de muita paúra para um grupo de jovens gays. A falta de identificação com as brincadeiras dos primos meninos é a mesma coisa e, a celebração que deveria alegrar pelos presentes, pela variedade de comidas e doces na mesa, pelas cores e pelo teor alcoólico – comum nesses eventos – vira motivo para afugentar esse gay.

Natal vira uma tortura. Um cansaço, uma monotonia para esse perfil de pessoas.

Tudo isso que é o Natal que vira repertório positivo ou negativo. Tem gente que não gosta dessa data pela hipocrisia que se estabelece nesses encontros, daquelas pessoas que se veem tão pouco durante o ano e, quase que num ritual forçado (onde primos e tios ficam esnobando seus feitos do ano uns aos outros), precisam marcar presença para “ostentar”. É como se fosse uma felicidade simulada.

Outras pessoas não curtem Natal pelo valor católico ultrapassado e, alguns terceiros, vão alegar as duas coisas.

Mas o que tem de extra, na vida de alguns gays, é a tal “pressão normativa”, o costume, de se fazer, por exemplo, a cobrança anual de uma namorada [tenho certeza que muitos jovens gays saíram do armário em contextos como esses, assustando a tia, matando a avó e “acabando com a festa” (rs)].

Veja como a gente fica condicionado a um modelo. É culpa da tia fazer assim ou assado? É culpa da avó que, quase como num toc (transtorno obsessivo compulsivo) precisa rodar a mesma faixa na vitrola todos os santos anos? Todos os santos anos? Todos os santos anos?!

Não é culpa de ninguém de fato, pois estão todos vivendo uma famosa, tradicional e religiosa caixinha! Vivemos delas e não percebemos. Essa é a realidade.

Daí esse gay, desde muito jovem, vai percebendo o conceito de “modelos comportamentais” ou, se não percebe, está aqui o texto para fazer elucidar. Desde muito jovem, pela pressão ou não, vai buscando referências diferentes que substituam um encontro de Natal que parece alegrar tanta gente. Ele quer também sentir esse tipo de alegria!

Naturalmente, o gay – sem o julgamento moral propriamente – aprende cedo a formar uma “caixinha” diferente (ou não!). Principalmente aqueles que “odeiam” Natal pelos motivos citados. Tem hétero que também odeia Natal por essa hipotética hipocrisia. Mas o problema do gay, além disso, costuma ser “a tia” – rs.

No meu caso, como dizia há pouco, eu sempre gostei de Natal. Papai sempre foi brigado com todos os parentes e, assim, normalmente passávamos com a família de amigos. Curiosamente, tais tias e tios não cobravam nem a mim e nem a meu irmão uma namoradinha, quando tal fase chegou. Curiosamente os amigos e amigas, filhos desses tios, brincavam ou se divertiam sem recair no sexismo, sem machismo e nenhum outro “ismo” que pudesse amargar meus momentos.

Depois da ceia, saíamos do condomínio de uma praia do litoral paulista, meninos e meninas, e esparramávamos cangas na areia para ver estrelas, sentir aquela vibração de positividade que o Natal nos proporcionava e aguardávamos, quase que todos os anos, o nascer do sol, madrugada a dentro em conversas incansáveis. São essas percepções que tenho do Natal: uma certa liberdade, um tipo de paz e, tudo, sem pressão.

Não estou aqui para provocar inveja a ninguém. Mas tenho que dizer que, as vezes, faz sentido o gay ficar bicudo e pegar aversão nessa época do ano. Mas tal comportamento também não deixa de ser um “modelão”, igualzinho ao da tia velha que pergunta da namorada.

A mim, cabe desejar a todos os leitores do MVG as vibrações positivas que sempre (sempre mesmo) cultivei nesse período. Hoje passo o Natal, na maioria das vezes, apenas com meu pai e minha mãe, mas como ficou impresso em mim tais vibrações, quantidade de pessoas chega a não ter sentido. Sentido tem o sentimento em convergência. Se você ainda não encontrou tal sentido, para essa época do ano, você não tem que reclamar do estado bicudo, cinza, monótono. O fato é que existem pessoas que se sentem bem com tudo isso, não por um ufanismo vendido, um capitalismo do Papai Noel, mas pela simples percepção diferente (da sua).

Você pode não gostar, mas eu gostando, posso muito bem (e também) oferecer um pouco dessa vibe para o bico! Afinal, na época de Natal, sempre tem o isolado da família fugindo da tia ou da avó! =P

Feliz Natal para todos que acompanham o MVG, para aqueles que adora e para aqueles que odeiam! =]

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