Nerds e Geeks

Havia uma época, antes de me assumir, que o meu cantinho seguro, confortável e imaginativo era o sobradinho dos fundos da casa dos meus pais. Meu avô morava por lá e, quando foi para a casa do meu tio, deixou que eu dominasse a área. Tornei aquele quarto o meu porto seguro e o esconderijo dos meus segredos. Fiz dele a minha cara, com as minhas tralhas eletrônicas, centenas de CD’s, videogame, teclado e, a época, inúmeras fitas de VHS. Já fui nerd, bastante, e a remanescência das emoções daquele tempo persiste principalmente hoje, quando me deparo com os tickets pré-adquiridos para a sessão de Star Wars. Nem viagem para o exterior me deixa com o frio na barriga, como a expectativa para o “Despertar da força” está fazendo hoje.

A imagem abaixo, registro pessoal, remonta um tempo no qual a minha sexualidade – o fato de eu ser gay – havia uma importância na minha vida como a maioria das pessoas que hoje tem 20 e poucos anos. No final dos anos 90, eu tinha em torno de 23 e acabava de criar aquela coragem básica para sair do meu armário, que no meu caso, era o quarto que era do meu avô.

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Aquele universo era cheio de romantismo e fantasias. Músicas e filmes eram válvulas de escape eficientes para nutrir o meu ego e minha solidão. Eu era gay, permanecia dentro de mim muitos conflitos e dúvidas relacionados à minha sexualidade, à expectativas profissionais, a uma cobrança interna de ser bom para alguma coisa e um conflito real, intenso e prolongado com meu pai. Hoje, com olhos conscientes, não era à toa que eu me identificasse tanto com a série: Vader é um tipo de arquétipo do pai, autoritário, severo, quando não – as vezes – cruel. Luke, o filho, era um jovem ingênuo, isolado num planeta desértico e cheio de vontades para ser alguma coisa da vida.

Por que será que eu guardei até hoje essas fitas de VHS? Porque o que ficou daquele tempo não foi somente as dores do conflito entre pai e filho, nem a pressão para eu me tornar alguma coisa na vida, numa cobrança social. Ou muito menos o sentimento confuso por ser gay. Naquele tempo em que eu estava começando a dar meus primeiros passos fora do armário, existia muito do lado pueril, ingênuo e imaginativo! Eu vivia, sim, a realidade que eu podia criar dentro da minha cabeça. Era imaginação pura, certo platonismo e tudo aquilo era prazeroso, distante dos sofrimentos típicos de quem é gay e tem 20 e poucos anos hoje. Em outras palavras, um jovem hoje com 16 anos quer rapidamente dar vazão para a própria sexualidade; já quer namorar! No meu tempo, ou pelo menos a mim, ficar e transar não eram, assim, grandes vontades.

Quando foi a minha vez de ter 23 anos, no final dos anos 90, não existia uma cobrança interna (nem externa) de me apresentar em par. Apesar de todos pesares conflituosos e contínuos que eu tinha com meu pai, nunca existiu uma exigência – por parte dele – para autoafirmar a minha masculinidade perante a minha família. Até já citei isso em alguns posts mais antigos, quando sugiro que essa não-cobrança talvez seja algo da cultura oriental. As vezes, minha mãe perguntava de “namorada”, mas sempre num tom tranquilo. E meu pai, “macho-alfa”, jamais manifestou as exigências tão corriqueiras – a época – da demonstração da masculinidade (ou até mesmo do machismo). A ausência desse tipo de “desafio” me isentou, em partes, da culpa por ser gay (sim, muitas vezes nos sentimentos culpados por não atendermos as expectativas e cobranças de nossos pais).

As artes manifestavam-se aos meus olhos e ouvidos e eu buscava me suprir exatamente disso. Não só artes, mas como documentários da Discovery Channel sobre vida e natureza, biografias de grandes personalidades como Da Vinci, desenho do Dragon Ball Z “importado” diretamente do Japão e seriados da Sony que, naquele tempo, era o grande canal desse tipo de conteúdo. Star Wars teve uma representação para mim, um tipo de identificação definitiva do jovem que fui e das relações sociais na minha vida. Depois dessa fase, a medida que o mundo real foi tomando forma e que eu fui tomando gosto pelas diversas frutas que a emancipação como indivíduo oferece, resolvi deixar o quartinho. Por um tempo, na busca da construção da minha identidade, pensar em voltar para aquele lugar me enchia de preguiça e um certo medo de regredir. Parecia que tudo que tinha ficado para trás era tedioso. Mesmo assim, eu guardei essas fitas…

A sensação que tenho, com 38 anos (curiosamente, tenho a mesma idade de Star Wars), é que o meu armário não é mais tedioso, nem me desperta insegurança pelo retrocesso. Voltar a ele, ou melhor, voltar a ser a pessoa que fui, é algo impraticável e é até óbvio dizer isso. Mas quando citei as remanescências, no começo do post, é a isso que me refiro: Star Wars me conecta (fortemente) a um tempo, cujas emoções juvenis, intensas e cheias de vontades em potencial, alimentam um menino que hoje existe dentro de mim. Nerd ou Geek são apenas rótulos sociais para encaixotar determinados hábitos. Não me incomodam. O fato é que, essa sentimentalidade de se sentir aquele velho-novo-Flávio não tem como precificar.

Depois de um ano de 2015 que exigiu muito da minha “adultice”, da minha consciência sobre a realidade e do esforço emocional, físico e intelectual para saber me reposicionar diante dos imprevistos da vida, encerrar o ano com os olhos atentos na telona e imergir no universo fantástico de Star Wars (com a minha mãe, meu ex-Beto e um casal de amigos héteros, reunindo três gerações) é um fenômeno que transcende. É um reencontro comigo mesmo e é a autoafirmação de que aquele jovem esperançoso e inventivo, cheio de ideias e energia, conseguiu enfrentar muitos obstáculos, tombou, batalhou, levantou, brigou, superou, errou e acertou para se tornar um Jedi…

…na vida real e não tão real assim.

As fitas de VHS traduzem a realidade: é possível conquistar.

1 comentário Adicione o seu

  1. Sandro Bonassa disse:

    Tenho uma forte ligação com filmes e personagens. Postagens anterior. Bateu muito com tudo aquilo que eu sempre comparei o filme com a minha vida.

    Estes post reflete muito minha vida também.

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