No banquinho do Piroca’s Bar

Acabei indo a Chilli Peppers no sábado (e não na sexta, depois do encontro com o Gabriel). Pasmem, mas não fiz sexo no dia e passei a maior parte do tempo no Piroca’s Bar (nome esdrúxulo, eu sei – rs) que fica lá dentro. Tomei cervejas, vodkas e, naquelas horas, algumas pessoas vieram bater papo comigo, claro que com intenções finais libidinosas, mas não era o caso pra mim naquele momento.

Um deles merece destaque: eu não sei se é a minha cara ou meu jeito, mas pessoas que se aproximam de mim tendem a ficar muito a vontade para dividir intimidades. O que é legal porque, no geral, tendo a ser um confidente “ok” e retribuir com boas reflexões. Nem sempre sou um bom confidente – para falar a verdade (rs) – mas as boas reflexões, mesmo que desagrade o ouvinte, são assumidas.

40 anos e de fisionomia grande, acima do peso, peludo e barbudo. Bem dotado (segundo ele – rs). Atuante na área artística e definitivamente masculino. Muito simpático e comunicativo, com acento notável de descendência italiana, o “D” trouxe histórias interessantes que passam alheias ao olhar da maioria de nós, nós que vivemos e respiramos apenas a bivalência “heterossexual / homossexual”. O D foi casado, tem uma filha e atualmente namora uma mulher que é masculinizada. Poderia ser uma lésbica. Confessa ter um legítimo tesão por ela e, durante as relações sexuais, ela veste um consolo e ele faz o papel de passivo a ela. Situações tratadas com naturalidade que, segundo ele, estimulam o libido de sua mulher que goza litros durante a situação.

Tratar a real diversidade com essa naturalidade, sem me sentir ameaçado, sem levar um “choque” por fugir do que a minha caixinha diz que é “o certo”, possibilidade – inclusive – a tal segurança para que as pessoas se aproximem para suas conversas e desabafos, permitiu que o D continuasse: “eu assumi a ela que gosto de piroca. Eu achava que ela poderia se horrorizar, claro, mas pelo contrário: ela adora me comer”.

– Engraçado, cara… eu acho que estou ficando velho. Antigamente eu vinha num lugar como esse e aguentava várias gozadas. Hoje, uma só está de bom tamanho… com aquela “intensidade” – falava o D.

– Sei bem como é isso [embora eu tenha entendido a tal da “intensidade” como um discurso do macho – rs]. Tenho 39 anos e não preciso mais ficar gozando a todo momento, haha.

Comentou ainda outro fato interessante: quando D tinha uns 20 anos, seu irmão mais novo havia lhe pregado uma peça. Numa situação de fetiche, D ficou vendado e amarrado na cama com a promessa de que uma vizinha tinha essas taras por ele. Uma pessoa começou a cavalgar nele e a venda começou a sair. Ele viu que era o próprio irmão, que tinha se sugerido a criar a situação com a “vizinha” e que hoje tem uma vida totalmente heteronormativa, do tipo “machão mesmo” e que fala daquele jeito “escroto”.

Chegou e me questionou:

– Onde será que ele guardou essa história? Ele nunca, nunca mencionou sobre isso.

– Olha, D, as pessoas guardam isso em diversos lugares. Mas raramente em algum lugar que seja fora de uma sauna, por exemplo. Eu adoro esse lugar, os diversos ambientes, a autonomia que a gente tem para entrar no meio da putaria master lá em cima ou de passar horas aqui trocando uma ideia. Eu tenho um Blog e acho que seus relatos vão pra lá (rs).

– Ah é? Qual é seu blog? Posta lá que eu vou entrar pra ver.

– Bate depois no Google “Minha Vida Gay”, vai ser o primeiro do Google.

– Ah, você é gay então?

– Ah, sim… nunca vi a cor de uma vagina pessoalmente – rs. E você, se entende como?

– Eu me sinto bissexual. Mas nos últimos tempos eu tenho preferido pinto (gargalhadas).

– Sei… a parte afetiva não rola muito com outro homem, né?

– Pois é… não consigo me ver envolvido por outro cara. Gosto é de sexo.

Na função que tem o MVG, principalmente quando estou solteiro, taí um dos buraquinhos da porta que é possível expiar. Muitas portas, para falar a boa verdade quando o assunto é a diversidade. A riqueza da mesma é prioridade a mim e, assim, não entrarei na discussão do que é moral ou ético perante os pilares sociais. Me foco nas ocorrências de padrões que, na realidade, são diversas. E o nosso olhar, assim como nas restrições políticas atuais, só enxergará o que nos convém, como na maioria das vezes.

“Angustus est nobis visio, quam fert cum gratia nobis salutem. Sed mihi aliter facere conari”.

17 comentários Adicione o seu

  1. Ana disse:

    Marcos, adoro seus textos sinceros e inteligentes. Preciso de uma luz sensata, honesta e que entenda de diversidade sexual. Meu parceiro sempre gostou de mulheres, mas faz alguns meses que está está sentindo desejo e por travestis e confessou que saiu com uma e que fez sexo oral e a penetrou, mas não quis ser penetrado por falta de coragem. Ele também está sentindo vontade de se vestir de mulher, assumir uma identidade feminina no ato sexual e ser penetrado numa inversão comigo. Algumas vezes acha que é bissexual, outras não quer aceitar. Quer sempre a minha ajuda, diz que não quer me perder porque gosta de mim, não sabemos o que fazer. Ele já se apaixonou por muitas mulheres, mas está sentindo muito desejo por pênis e não quer admitir a possibilidade de gostar de homens, por medo, insegurança e tabus. Como devo agir? Obrigada.

    1. minhavidagay disse:

      Oi Ana, tudo bem?

      Na realidade me chamo Flávio, eheh.

      Mas vamos lá: primeiramente, parabéns por estar lidando com essa situação delicada, que nos arranca do que é normativo. A identidade de gênero e a identidade sexual funcionam de maneiras muito diferentes de pessoa para pessoa, para além da bivalência “hétero e gay” de um olhar mais tradicional. Pelo menos, são as minhas vivências práticas dentro e fora do Blog que tem me mostrado isso.

      Eu sugeriria recorrer a algum terapeuta ou instituição especializados em transgêneros como ponto de partida. Confesso que a “minha praia” é o gay, o homossexual que tem atração sexual e se envolve afetivamente por outro gay.

      Costumo dizer que, hoje, o conceito “LGBTT” deveria ser desmembrado pois existem peculiaridades nas partes que não necessariamente sejam de compreensão comum ao todo.

      Por hora, sobre a maneira que você deve agir, no meu ponto de vista, é acompanhá-lo nesse processo, caso seja possível você se desapegar do que é normativo sofrendo minimamente. Imagino que não seja muito fácil, justamente porque não se ensina ou explica abertamente – na sociedade – quando coisas assim acontecem.

      A sociedade define suas normas e qualquer variação nos tira o chão, a segurança e não há um referencial para seguir.

      O conflito por parte dele é natural. Se você acompanhar as entrevistas e depoimentos do Laerte Coutinho (que hoje é a Laerte) vai notar um processo de autoesclarecimento em suas entrevistas durante os anos. É processo e creio que procurar seus vídeos no Youtube, abordando a temática da transgereneridade ou da transexualidade pode ser uma boa. É uma pessoa séria. Outra dica é assistir o filme “A Garota Dinamarquesa”. Mostra bem certo processo de descoberta de um homem que se encontrou transexual. (É diferente ser transgênero e ser transexual, ok?).

      De qualquer forma, minha recomendação inicial é a principal, ok?

      Flávio.

  2. Pedro disse:

    Relato interessante sem dúvida, mas não surpreendente, na medida em que hoje se é muito mais livre atualmente para se fazer o que quiser em termos de “cama, mesa e banho” (rs).

    Já ouvi coisas do gênero, e conheço pessoas com preferências semelhantes, embora muitas dessas pessoas só consigam se liberar pra viver certas fantasias depois de mais autônomas e maduras.

    Neste caso, parece muito mais uma fantasia mesmo, uma espécie de fetiche, ou algo do gênero, que não se liga muito à questão da identidade, diferente daqueles que se autodenominam “gays”. Cuja a sexualidade é uma questão central dentro do espectro identitário do indivíduo.

    A rigor, creio que se trate de mais um daqueles casos que nós chamamos de HSH (homens que fazem sexo com homens), uma categoria “guarda-chuva”, que engloba uma série de homens que só curtem e só querem sexo com outros homens, mas não rola um lance afetivo, que envolve aquela história toda de apego, afeto (se for só isso, como diz a Rita Lee é amizade rs) e sexo também.

    Talvez bissexual, mas esta categoria também é mais identitária do que os HSH, que estão unidos mais pela prática que pela identidade, afinal não existe uma definição de identidade, só uma prática sexual em comum que os une.

    Existem muitos caras assim hoje, e alguns “gays” inexperientes podem acabar se envolvendo afetivamente com eles. Não deixa de ser uma ilusão, geralmente, é só sexo mesmo que eles querem. Mas existem exceções, existem caras que usam este comportamento pra se iniciar, digamos assim, nessa de ser “gay”, no sentido estrito mesmo do termo.

    Eu diria que esta é uma das maneiras de vivenciar o desejo homossexual, que não implica necessariamente que quem sente seja “gay”. E o cara em questão parece estar super-satisfeito e super-bem-resolvido com isto. Isto é legal pra quem se relaciona com ele, porque gente mal-resolvida é fod@ pra se relacionar, seja lá de que jeito for…

  3. minhavidagay disse:

    Oi Pedro!
    Você se sente bem resolvido?

  4. Pedro disse:

    Olá Flávio,

    Bem, esta é uma questão muito complexa. Tenho duas respostas a serem dadas: Sim e Não.

    Em relação às questões internas (psíquicas mesmo) de escolha do objeto, digamos que nisto estou perfeitamente resolvido, tenho uma preferência sexual direcionada aos homens claramente, embora sinta atração afetivo-sexual por mulheres ocasionalmente, que não é tão impactante, ou tão significativa como a atração que tenho pelos homens.

    Não estou resolvido em relação à questão da identidade “gay”. Eu na minha ingênua ignorância, acreditava que toda a pessoa que tinha atração afetivo-sexual por indivíduos do mesmo sexo poderia ser chamada de “gay”. Depois de muitas leituras entendi que não é bem assim que as coisas funcionam.

    Ser “gay”, é bem verdade, um processo, uma construção, neste processo eu ainda estou no início, com 24 anos, tem gente de 16 anos hoje que já é mais bem-resolvido em relação à identidade gay que eu rsrs.

    Engraçado, porque eu com 16 anos já havia transado com mulher, já estava na faculdade, mas não me conhecia na totalidade, não aceitava isso de gostar de homem, eu negava e achava que ficava excitado vendo homem pelado porque eu estava “imitando” o outro cara, dentre outras explicações das mais esdrúxulas possíveis para os meus “desvios inaceitáveis de conduta”. Doce ilusão, que bom que acabou a tempo.

    Isso é um exemplo de como ser mal-resolvido consigo mesmo e com sua própria sexualidade. Em relação aos outros não dá pra comparar, cada indivíduo tem uma história diferente de vida, que leva a caminho diferentes, mas todos caminham e seguem por um processo que se chama de tendência à auto-atualização.

    Ser bem-resolvido não é uma totalidade, e sim somos bem-resolvidos em alguns aspectos da vida e em outros não, eu até hoje não me resolvi profissionalmente, fiz a graduação, já trabalhei dentro e fora da minha área, e fiz mestrado, mas não concluí, não consegui, no mestrado eu percebi que estava tudo errado, e que aquilo me fazia sofrer, mas eu achava que deveria seguir em frente, e posteriormente ter abandonado foi uma atitude digna da minha parte, de respeito a mim mesmo, que estava sofrendo, demais.

    O cara do texto é super-bem-resolvido em relação à sexualidade dele, na minha opinião, vejo que ele sente prazer e curte o que faz com homem, com mulher, seja lá com quem for. Eu creio que seja parcialmente bem-resolvido com a minha sexualidade, embora não seja do tipo que pratique muito o “esporte”, comigo estou bem (neste campo da vida), e acho que é isso que importa.

    Espero ter respondido satisfatoriamente a pergunta.

    1. minhavidagay disse:

      Oi Pedro, longe de mim julgar uma resposta tão pessoal como satisfatória ou não. Era uma curiosidade, já que você se manifestava as vezes no blog e de uns tempos para cá tem se demonstrado bastante participativo. Queria entender um pouco mais de você.

      Abraço!

  5. lebeadle disse:

    “Onde será que ele guardou essa história?” perspicazes observações do blog, sempre. Talvez tenha esquecido, talvez ache graça e nem perceba o quão grave é para o outro.

    Gostei também do desvelamento do Pedro, a partir da pergunta feita pelo MVG, após um longo comentário onde muitos conceitos são desenvolvidos, e ele tocou no cerne/na carne e o Pedro foi ainda melhor do que antes.

    Longa vida ao MVG, rumo aos 40!!! Feliz aniversário atrasado. Rs

    Ars longa, vita brevis

    Abraços

    do seu sempre amigo

    LeBeadle

    1. minhavidagay disse:

      LeBeadle, querido!
      Obrigado pelas felicitações – rs.
      Espero que esteja tudo bem com você.

      Um abraço!

      1. lebeadle disse:

        Oi, amigo está.
        Depois mandarei algumas notícias pra vc
        abraço!!!

  6. Oi Flávio poderia me ajudar tb. Acho que o meu problema é bem parecido com o do Pedro. Não quero me alongar… Só sei que sou gay adoroooooooooooo homemmmmmmmmmmmm tipo qualquer um tirou a camisa perto de mim eu já olho, seja gordo, feio do jeito q for, é claro q aqueles em forma chamam mais a atenção. Só que ainda me culpo muito por ser gay e por ser de uma família meio que tradicionalista e tb cidade do interior. Já até pensei em casar com mulher. Já pensei em gostar de mulher e tudo mais o que você pode me dizer? Ah e já faço terapia. Mas ouviu de alguém tipo de igual pra igual é muito melhor.

    1. minhavidagay disse:

      Oi querido Danilo.
      Bem, você é de uma geração próxima a minha, né? Bem ou mal tivemos mais repressão em nossa geração. Sou do tempo em que, quando sai do armário, não era comum ver gays andando de mãos dadas na região da Paulista. Essa autonomia começou a se configurar de uns 7/8 anos para cá. O problema do autopreconceito e da autoaceitação é tão particular. Há quanto tempo você vem saído do armário? Consegue precisar?

      Não acho que o autporeconceito e a autoaceitação seja fruto do contexto em que vivemos. Tradicionalista ou não, nossa família e a maneira que ela se porta diante de temas como a homossexualidade é motivo para nos aceitarmos bem ou não até a página 5, vamos dizer. A partir da 6 é algo da gente com a gente mesmo. Você precisa tentar trazer para sua consciência os motivos que fazem você se sentir culpado, Danilo. E isso é um tanto individual. O quanto você busca atender ainda expectativas de sua família e mais, o quanto no fundo você é tradicional. Parte tradicional e parte querendo pegar todos os tipos de homens (rs). Será, inclusive, que a sua falta de “filtro” para se atrair por um homem não tem correlação com a não aceitação? Como se fosse uma autoafirmação de você para você mesmo de que gosta de homem?

      Vamos falando.

      Abraço!

      1. Sou assumido há muito tempo. Contei pra minha família aos 18 anos. E me assumi mesmo aos 20. Mas ou seja esse processo de me assumir ainda não concretizou. E sorry, uma correção. Não curto e tenho vontade de pegar qualquer homem não. Generalizei só pra dizer que curto é homem sim. Tem alguns que é claro não me despertam nenhum sentimento.

      2. minhavidagay disse:

        Entendi Danilo! Cada um tem seu processo mesmo. E é algo muito mais internalizado, na minha opinião.

  7. Pedro disse:

    Só duas coisinhas;

    Danilo: Caso vc curta… Bem, não é nenhum demérito curtir caras fora do padrão, aliás hoje isso é cada vez mais comum, faz parte da diversidade dentro da própria comunidade LGBT. Só pra ter uma ideia, hoje a coisa tá tão diferente, que o pessoal tem postado aquelas fotos de antes e depois de uma forma diferente: antes (musculoso), depois (gordinho) rs. Eu particularmente acho fascinante a diversidade no meio, pena que o negócio ainda seja extremamente segregado (só pode ser coisa de americano rsrs), e isso é que é ruim, já somos um grupo minoritário, e ser um “especialista” da minoria da minoria, é algo complicado, se é que me faço entender.

    Flávio (MVG): Esqueci de perguntar sobre a frase latina ao final do texto, se vc puder dizer de onde retirou e quem é o autor, eu o agradeço.

    1. minhavidagay disse:

      A frase é minha mesmo, Pedro – rs. Resolvi rebuscar =P

  8. Pedro disse:

    Puxa, que demais cara!

    Foi instigante. Fiquei totalmente em dúvida sobre esta frase, se seria algo religioso, ou estóico, enfim, com aquela sensação “O que será que ele quis dizer com isso?”. Acabou passando batido com toda essa discussão. Enfim, só isso mesmo.

  9. Pedro, leia a resposta que escrevi ao Flavio.

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