Nos trilhos

Agora que estou voltando emocionalmente aos meus trilhos (e quem ler o post anterior vai entender os acontecimentos), começo a respirar aos poucos e retomar alguns bons hábitos que não estavam com espaço nos últimos meses. Tive um tempo de sobra hoje e pude organizar os e-mails que vem por meio do contato, aqui do Blog Minha Vida Gay.

Não consegui responder todos, mas li alguns que me chamavam mais atenção. Tem e-mail acumulado desde maio desse ano :(

Desculpem se eu não conseguir dar uma resposta, mas acho que será difícil fazer a todos, ok?

Um dos temas que me saltou, foi de um leitor que se identificou com os posts que falo sobre o relacionamento que tem rolado com o Rafa. Uma relação que não define formalização, ou seja, não é namoro. O leitor caiu em certa “armadilha” que uma relação assim, que não se formaliza, pode nos colocar: uma das partes se apaixonar e a outra parte não e, no final, a não formalização é motivo para muita insegurança e transtorno da parte que se sente apaixonada.

Ele deixa expresso em entrelinhas ou com evidência que a não formalização não o permite a cobrar determinadas coisas. E realmente, eis o ponto central que me faz justamente querer experimentar o tipo de relação que tenho vivido com o Rafa: certa ausência de cobrança.

Quando falamos assim: “estamos namorando”, existe uma série de definições, algumas gerais (normatizadas) e outras específicas ao indivíduo, que caracterizam um namoro. Regrinhas como, o “bom dia” por mensagem, o “boa noite” antes de dormir, o “relatório” de como foi o dia, o poder ou não frequentar determinados lugares, o poder ou não estar próximo de determinados amigos (aqueles cujo juízo de valor, cheio de viés do ego, determina) e assim por diante.

Quanto mais objetificamos (fazer de objeto) o outro, mais regrinhas há nos “contratos” de relacionamento. E sim, mais complicamos. Relacionamento é um ato egoísta e de controle? As vezes sim, mas camuflado de paixão e apego. Principalmente quando a nossa autoestima não é lá essas coisas. Sinto em dizer! Aqui é o MVG falando…

Só existe um pequeno detalhe nessa “arte de se relacionar”: nunca ou raramente as regrinhas e concepções do que se entende o que é um namoro é igual para todo mundo. Como disse, existe uma base normatizada (e isso é cultural e não inata) e um grupo de nuances que é particular e depende, exclusivamente, do repertório e valores de cada indivíduo.

Assim, quando se estabelece um namoro, de maneira intuitiva, natural e insconsciente, um casal vai criando as regras. Outras vezes, não é tão intuitiva e natural assim: o casal senta para debater o que entra ou não entra na relação. É racional, é propositadamente acordado. As DR’s costumam ser para isso.

Como alguns leitores tem acompanhado, minha referência atual com o Rafa traduz apenas uma escolha: entender primeiro os sentimentos, sacar antes quem é a pessoa que estou me envolvendo (e vice-versa, é importante evidenciar) e deixar a falsa garantia de formalização apenas para o final, como CONSEQUÊNCIA. Em outras palavras, estamos fazendo ao contrário e, pelas graças do bom Deus, até o momento (5 ou 6 meses já) tem dado muito certo. Não foi conversado, mas entendo que a formalização do namoro será um desenrolar natural nesse processo.

Mas é claro que para seguir assim, a gente precisa estar muito seguro de si e certo do que se quer (ou pelo menos uma das partes sim). Na esmagadora maioria das vezes, pelo menos no meio gay, a gente acaba se precipitando na formalização porque buscamos uma ideia de segurança que o formal nos garante. E esse formal, normalmente, é a ideia do controle sobre o outro. Chamamos isso de paixão ou amor. E é… mas é controle também.

O rapaz, em seu relato, disse que não pode cobrar de seu menino o horário que ele sai e chega, de encontros com seus amigos. Mas sejamos lúcidos: será que todos os indivíduos entendem que esse tipo de certeza de satisfação, “do horário que se sai e chega de encontros com os amigos” é uma regra normativa em todos os namoros? A resposta é NÃO, cavalar. Depende exclusivamente do casal e, com certa obviedade, do repertório de cada indivíduo que o compõe. Para o rapaz, isso é uma regra de um namoro. Para o outro, certamente não ou pelo menos, não é esse tipo de regra que ele vai aceitar.

Entendem?

Quando a gente diz assim: “ah, a pessoa não quer nada com nada”. Corremos o risco de estar generalizando, quando o pensamento pertinente seria: “a pessoa não está na mesma que a minha”, só isso. Aceitem que dói menos.

Em meus namoros anteriores, por vezes eu era controlado e por vezes eu era o controlador. E vou dizer que, depois que se namora mais de uma década pessoas diferentes, seguindo determinadas regrinhas culturais (que sabe-se lá porque foram impostas!), colocando mais ênfase nos acordos do que nos sentimentos, a coisa desgasta. Para cacete. Do jeito que a sociedade anda, diante a crise das instituições (e a maneira que nos relacionamos é também algo institucionalizado), seremos forçados a rever nossos valores. Está aí o intento desse texto. Reflitam.

O que é certo para um namoro e o que é errado? Depende muito minha gente, e essa liquidez é a nossa realidade atual, doa a quem doer. Podemos ficar brigando, impondo os desejos de nosso ego, os valores adquiridos, ou pior, regras advindas de nossas próprias inseguranças.

Alimentar nossas inseguranças não é resolve-las.

Por exemplo: da maneira que estou levando com o Rafa, falamos mais em lealdade do que fidelidade. Da maneira que estamos levando, foi um risco, mas eu já lhe apresentei a maioria das aventuras da minha vida “mundana e carnal”, das saunas, de sexo coletivo e etc. Ao mesmo tempo, ele não teve parcimônia de me contar que passou um período ficando com três meninos ao mesmo tempo, até descobrir que eles eram parentes! (rs). Juro… gargalhei quando soube e em nenhum momento me senti incomodado.

Uma das verdades possíveis é que dois homens juntos (e falo por nós, pois não presto atenção nas relações heterossexuais nesse nível) buscam provocar,  inconscientemente, certo ciúme um ao outro justamente para tentar “medir” / testar o quanto se gosta. Mais uma tentativa LOUCA, de achar que tal termômetro – pelo ciúme – é a garantia de alguma coisa. Pode ser que sim, pode ser que não. Mas chega uma hora que esse tipo de coisa cansa, pelo menos a mim. A gente acaba se submentendo demais às inseguranças do outro, num puro despejo de “amor” ou por SAFADAS chantagens emocionais e, assim, não se cresce junto, não se evolui.

Eu estou buscando um outro sentido para essa palavra, amor.

Aprendi em mais de uma década de relacionamento que amar não pode ser o combustível para alimentar o gênio ruim do outro, nem o nosso. O Rafinha, com seus legítimos 25 anos, as vezes me coloca em teste, sem querer. E, como já citei em outro post do blog, encontra um muro escrito assim: “daqui não passa”. Daí ele diz assim:

– Ai que raiva de você!

E a gente se diverte. Relação há de ser leve enquanto dure, meus amigos. Entrar em relacionamentos para ficar sofrendo, por inseguranças mil em relação ao outro, por achar que o outro é manipulável, para ficar numa função de quem é o dominante na história, valeu a pena até 1/4 do meu livro. Me deem a licença de querer escrever diferente.

Lembre-se que no final é a minha vida, não é a sua. Você pode dar graças a Deus que não é a sua, pois ficou incomodado com o texto. Ou pensar assim: “poxa vida, é isso que eu quero pra mim”. Tanto faz. Ninguém está falando de verdades absolutas por aqui. E você pode dizer assim: “nossa, não entendi nada desse post”. Faz sentido. Volte a le-lo daqui a uns 5 anos.

As pessoas são diferentes. Precisamos acolher essa ideia ao invés de nos colocarmos constantemente ameaçados.

2 comentários Adicione o seu

  1. Averdade disse:

    Faz todo o sentido!

  2. obsr disse:

    Creio que o email lido foi o meu. Demorei para comentar aqui porque simplesmente me esqueci desse detalhe.
    Quando esse artigo foi publicado já havíamos terminado nosso relacionamento/namoro seja lá o que foi isso.
    Depois de quase um mês ainda estou vivendo o luto. Vivendo aquele tempo de pensar de mais, fazer de menos e hora ou outra derramar umas lágrimas.
    Espero que tanto com esse artigo quanto o que me aconteceu seja um grande aprendizado. Algo que me ajude a crescer como ser humano.

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.