Novas reflexões sobre a vaidade

Vaidade é uma característica que acompanha parte de nós, gays. Até hoje, aqui pelo MVG, abordei muito o tema falando dos excessos que circundam tal qualidade. Continuo a achar que o exagero, a fixação e certa tendência de um discurso que “todos nós ligamos muito para moda, beleza e estética” são chatices tremendas. Nos enquadram, nos rotulam, nos botam dentro de uma caixinha.

Por outro lado, tenho que concordar – mesmo porque se fizesse o contrário seria uma hipocrisia – que o estar bem consigo tem pitadas diferentes de vaidade. Vaidade, ao contrário do que dita os “sete pecados capitais”, é elemento importante para a saúde individual, para a autoestima. Um calça jeans velha, camiseta surrada e chinelo não deixam de conter vaidade.

Acontece só que, muitas vezes, a glamourização da moda e da beleza é tão excessiva que enche o saco de alguns seres pensantes. Parece nos colocar numa condição rígida de seguir determinadas tendências (como essa encrespada barba masculina que está na moda ou, agora, os óculos com lentes espelhadas e multicoloridas) e se não seguimos o ritmo, como robôs quase que debiloides, estamos fora. Fora, sabe-se lá do quê.

O que eu considero é que o senso é definitivo para entrarmos nessa ou naquela tendência. O contrário também, de ser um crítico algoz da manipulação da mídia que nos torna escravos rendidos da beleza, é igualmente chato a aquele que faz da moda uma religião. Nem oito, nem oitenta.

Super pertinente abordar esse assunto num Blog como o MVG sempre que posso. É sabido que muito de nosso estereótipo gay vem dessa fissura pela beleza, do apelo à vaidade. Mas a beleza em si, a vaidade e o apreço pela imagem é extremamente saudável quando consciente e numa gradação individual. Deixa de ser uma ameaça aos nossos valores e medos se concebemos critérios. O problema, no final, é que uma parte de nós está copiando um ao outro numa osmose burra, de acordo com uma tendência, sem ao menos refletir para quê, por quê e com qual finalidade. “Será que tal estilo combina com o que eu quero mostrar para o mundo?”. Dúvida simples, mas a resposta na maioria das vezes não há.

O resultado final é sempre de muitos gays frustrados, achando que uma enorme juba florestal (por exemplo) vai aproximá-los de expectativas esperadas, sejam lá quais forem. É como se usar determinada marca de roupa espanhola fosse definitivamente nos incluir num contexto e ser aceito. Nada disso.

Mas mesmo assim, uma certa dose de vaidade nos cai bem e sempre cairá.

A mim, pensar em moda é responder uma dúvida fundamental: você sabe qual imagem você quer transmitir? Porque independentemente de elucubrações e conjecturas, se a moda nos torna rendidos ou não, o ser humano compra imagens desde dos primórdios. E o que eu vejo por aí é uma maioria de gays querendo vender “A”, mas se montando como “Z” pela pura osmose.

 

2 comentários Adicione o seu

  1. israel disse:

    “No final, sofrem mais aqueles que são idealistas individualizados, apegados a valores e que colocam como “certo” um padrão. O cerne hoje, das relações, é a flexibilidade, a consciência de concessões e o comprometimento sobre “pequenos contratos” que um casal estabelece, contratos estes que são íntimos, pessoais e intransferíveis”

    Ótima colocação. O problema tanto aos casais héteros como também aos homossexuais está nessa cansativa insistência em querer a força de prender a paradigmas, a modelos, a padrões. Flexibilidade seria a palavra chave.

  2. L. disse:

    Eu já até tentei lutar contra o padrão de beleza, mas ele é mais forte que eu. Infelizmente a beleza – principalmente física – ainda é a principal “moeda de troca” entre uma boa parte dos gays. Sempre briguei com o espelho e até hj sinto que não vou conseguir atrair quase ninguém que eu gostaria com o corpo que eu tenho atualmente. Enquanto todo mundo não mudar a mentalidade, não vai adiantar de nada. Enquanto isso, serei mais um que garantirá mais uma inscrição nas academias da vida.

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