Nuances nas amizades entre gays

Existe uma ocorrência. Algo que costuma a acontecer, as vezes, entre dois amigos gays.

Longe de dizer que tal comportamento é normativo, regra ou definitivo na amizade entre homossexuais, mas no seriado “Queer as Folk” (e me refiro à versão inglesa que eu realmente acompanhei do começo ao fim), Stuart Alan Jones tinha seu amigo Vince; formavam uma dupla de homossexuais inseparáveis. De maneira sensível, Queer as Folk representou muito bem esse tipo de “caixinha” em que se estabelece certas nuances e padrões de relacionamento entre amigos gays. Por um lado, era o ego de Stuart que se colocava em evidência. Eram as suas demandas em primeiro lugar, seus casos e seus excessos. O amigo Vince, muito mais low profile, cumpria o papel de alguém muito mais moderado, ouvinte e receptor das intensidades do amigo.

Nas entrelinhas, a personalidade de Stuart visava um pouco mais de controle e equilíbrio que vinha de Vince. Este, por sua vez, talvez desejasse a si algo da impulsão de Stuart, energia que o colocava em suas aventuras e desventuras. Estava aí, nessa química, a conexão entre os dois personagens. Impulsão VS. Razão, Ying e Yang.

Das telas para a vida real, desde que comecei a acumular minhas primeiras experiências sociais no universo gay, tal dinâmica de duplas de amigos acontece. É até que comum perceber por aí esse tipo de ocorrência no meio gay. Eu mesmo, há alguns anos atrás, tinha o meu parceiro da impulsão, o Beto, que inspirava a mim algo do que eu achava que não tinha: certa volúpia, certa intensidade, certa inconsequência. Em outros momentos da vida, eu mesmo virei certo “Stuart” ao Beto que parecia mais aquietado.

Vi essa singuralidade de relação em outros casos também, alguns até que bem recentes, próximos a mim. De um lado, manifesta-se uma energia que se joga, que banca certo risco, que dramatiza, por vezes escandaliza e vive certa inconstância de picos altos e baixos. Por outro, é a parte que se mantém, que se preserva, que reflete e raciocina. É aquele que pondera.

O primeiro tende a ter sempre casos passageiros, intensos e rotativos, como se não conseguisse se firmar, parar e se estabelecer. É o lado que age pelo impulso dos desejos e tem menos consciência de si. Atua com carisma, flerta mas não se controla. O segundo tende a construir histórias mais sólidas (ou pelo menos tem isso em vista). Carrega esse jeito de algo herdado, inclusive, pela família ou na maneira que realmente entende a vida. Busca por uma maior consciência de contexto e, inclusive, vê o amigo como num grande laboratório. As vezes, até, como vítima de um histórico de vida mais turbulento: bullying da infância, conflitos familiares, ou qualquer coisa que os “Stuarts da vida” justifiquem para serem egóicos e inconsequentes.

Não sei em que medida da busca de nossas identidades, da autoaceitação e da resolução como gays, que tal química se estabelece. Mas acontece num tipo de atração. Vejo hoje com certo humor essas ocorrências, agora que tal sintonia não ressoa mais de mim. Parece que pode fazer parte de uma fase de vida de muitos de nós, gays.

Curioso é perceber que, na maioria dos casos que presenciei (ou fui uma das partes), a tendência é que o amigo “Ying” e o “Yang” não se sustentem na amizade. Existe uma atração que nos conecta por um momento (que pode durar anos) e, depois, uma outra força estranha e subjetiva tende a nos repelir. A verdade é que “Impulsão e Razão” desenvolvem certa dependência de uma pela outra.

Assim, vivemos mais um pouco das subjetividades humanas e o lado bom é que vivemos. Aquele que estiver atento, há de aprender alguma coisa.

3 comentários Adicione o seu

  1. lebeadle disse:

    E então MVG, nessas amizades como fica se rola sexo, é possível os amigos seguirem do mesmo jeito depois de se envolver. Amizade combina com sexo? Ou seria Inimizade que não combinaria? Já teve alguma experiência assim?

    1. minhavidagay disse:

      Oi Lebeadle… na minha opinião, amizade e sexo que se misturam representam o lado “ruim” da sociedade líquida.

      Normalmente uma das partes acaba mais envolvida que a outra e a amizade tende a acabar.

      Desconheço amizades coloridas que não terminem com afastamento…

      1. lebeadle disse:

        Também tenho a mesma impressão apesar de não ser fundamentada em fatos, apenas na analogia que faço entre amizade e família, aquela representando a família que se escolhe e, às vezes, a grande oportunidade de um gay conhecer o amor familiar pois há muita rejeição ao fato de se assumir perante pais e irmãos.
        Então o que há mesmo é um temor, um tabu em violar essa segunda família e acabar perdido de mim mesmo.

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