O apego

Esse danado do apego tem diversas intensidades e nos povoa em diversos aspectos. E é um daqueles sentimentos “faca de dois gumes” pois, quando as coisas funcionam conforme o apego, é maravilhoso e quase não lembramos dele. Quando deixa de funcionar ou corremos o risco de perder aquilo a que se tem apego, ele vem em suas diversas intensidades.

Apego e medo são sentimentos que andam juntos. Enquanto o primeiro está conectado ao objeto, ideia ou pessoa, o outro – o medo – está em nossas costas: é tudo que pode ser imaginado ou sentido caso o objeto, ideia ou pessoa se desconecte da gente.

Uma pessoa apegada ao namorado sente a energia do apego quando, por algum ou muitos motivos, existe o risco de perdê-lo. Daí vem o medo pelas costas e te abraça, jogando dentro de sua cabeça imagens e, dentro do seu coração sentimentos, do que seria a sua vida sem a pessoa. Fantasiamos o ruim, o “nunca mais gostar de alguém” e a vida sem rumo.

Apego e medo. Parceiros, normalmente, cruéis. Apego por aquilo que achamos ter controle ou posse e medo por aquilo, caso se perca o objeto.

Uma pessoa apegada a um ideal sente a energia do medo com a possibilidade da perda do mesmo. Enquanto alguns temem a queda do governo vigente – alegando golpe e a possibilidade de uma intervenção militar – outros temem a instauração de uma Venezuela no Brasil. Não é triste este maniqueísmo recheado e contornado de apegos e medos? É triste, é cego e justifica a responsabilidade da sociedade frente a decadência do sistema vigente. Se pensamos que estamos desconectados, como meros juízes e críticos do oposto indesejado, estamos igualmente enganados.

O Islã, apegado às doutrinas religiosas, atacando França e depois Bruxelas e, em contra partida, um Mundo Ocidental apegado à preservação de seus valores que atirarão bombas em território oriental matando (igualmente) inocentes? Fruto do apego, da territorialização. “É meu e aqui ninguém mexe!”.

Que sentido de onipotência e razão extrema que anda assolando o mundo? Para que tanta fobia e ódio?

O apego, cada vez que mais o tempo passa, me parece um sentimento muito primal, primata. Evoluir como indivíduo e, por consequência, como sociedade – a mim – me parece ter muito disso.

 

 

 

7 comentários Adicione o seu

  1. Esta evolução como ser humano requer aprendizagem e desenvolvimento em muitas vertentes que nem sempre são compartilhadas entre sujeitos diferentes. O reconhecimento da diversidade e consequente respeito a vida se faz necessário em um mundo tão plural.

  2. O desapego nos espiritualiza! Que lutemos mais por ele.

  3. Joaquim disse:

    Como se libertar do apego?

  4. Pedro disse:

    Joaquim, eu não creio que seja possível se libertar do apego, porque todos nós temos isto, quer dizer, mesmo que nos “libertemos”, digamos assim, de alguém, sempre aparece um outro alguém que vem e substitui esse buraco que havia ficado, e ele sempre vem, vai e volta, é um processo de retroalimentação, eu acho.

    Libertar-se do apego, é o mesmo que dizer, eu não quero mais amar a ninguém porque eu sofro, e porque sofri. Mas a vida não funciona desta maneira, infelizmente ou não, sempre vem alguém que nos tira disso, e mais uma vez vivemos isso.

    O apego em si, é um termo utilizado na psicologia, e inclusive é uma teoria muito interessante, com uma vasta literatura dedicada a ele, eu não sei explicar muito bem porque não é a minha área, mas enfim, é aquele sentimento de conforto, plenitude que encontramos na companhia, ou através da presença de determinada pessoa.

    Em termos de teoria, seria o sentimento experimentado pelo bebê no útero, onde tudo é perfeito para que o bebê possa sobreviver ali dentro de maneira confortável, o primeiro rompimento é o nascimento, temos que nos adaptar àquele novo ambiente hostil, a primeira vista, mas logo vamos nos acostumando, é claro, a princípio com a ajuda da mãe, e depois vamos substituindo isso por outras pessoas, enquanto vamos amadurecendo.

    O que eu mais gosto na filosofia budista (que eu não sigo rs) é exatamente a questão da aceitação do sofrimento, ou seja, uma das conclusões de Buda que o levou à elaboração da filosofia budista foi justamente isso: O sofrimento existe, e é inevitável.

    O sofrimento existe, ele é inerente à nossa condição de seres vivos (mesmo que não-humanos), o sofrimento é uma reação adaptativa que deveria propiciar o retorno a uma condição ótima, para voltarmos ao conforto, à plenitude esperada, desejada e anteriormente conquistada e no momento perdida.

    Não acredito que o desapego de fato exista, da maneira como é entendido, acredito sim na substituição do objeto ao qual dedicávamos aquele apego, que pode ser uma pessoa, pode ser o trabalho, pode ser o que você gosta de fazer, o seu hobbie, enfim, o que você quiser que seja. Mas ciente de uma coisa, nada na vida é eterno, nem mesmo a nossa vida é, ou seja, não tenhamos a esperança vã de encontrar algo que dure para sempre, porque no meu modo de ver, isto não existe, e nunca existiu e jamais existirá.

    O negócio é saber curtir esses momentos de conforto, e por aí vai, e que como dizia o poeta Vinícius de Moraes, que seja eterno enquanto dure (é muito clichê, eu sei).

    1. minhavidagay disse:

      Eu já discordo um pouco do Pedro, Joaquim. Já penso que é totalmente possível você alcançar uma autoconfiança e um autoconhecimento que te liberte de alguns vícios do apego.
      Acreditar, por exemplo, e perceber que não controlamos nada ou quase nada principalmente pessoas, é uma boa filosofia para compreender o que te apega ou não.
      Claro que uma isenção do apego não existe, por sermos humanos. Faz parte de nossa natureza.
      Mas sofrer ou não por apego, a mim, é uma escolha.
      Porque convenhamos que o apego em si não é a questão e sim o que se sofre por existir apego.

  5. Joaquim disse:

    Teoricamente, acredito na segunda hipótese, embora para mim seja um pouco difícil de realizar, pela minha maneira de ser.

  6. Pedro disse:

    Faço minha, as ultimas palavras do Joaquim. O apego é algo que está em minha vida, porém não somente nós somos responsáveis pelo apego. Eu diria, por mim mesmo, quando penso em jogar o balde dágua, o outro lado vem com mimos e afetos que nos faz mais apegados ainda. É um caso difícil de se lidar, e cabe muitas reflexões.

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