O futuro depois do COVID-19

O que é positivo durante e depois da pandemia?

Depois de mais de um mês de quarentena devido a pandemia do coronavírus, começo a ver movimentações positivas, principalmente daqueles que passam a encarar a realidade do vírus como determinante para economias, hábitos de consumo e relações sociais. Como sempre, sairá na frente quem não ficar esperando a boiada passar.

Em outras palavras, nesse oceano de incertezas sobre o futuro, de uma cultura nacional que gosta de emoção a partir da polarização e das escolhas políticas, existem luzes para quem quiser ver.

Konrad Adenauer, o lado cheio do copo

Alguém sabe quem foi Konrad Adenauer? Se você respondeu sem fazer uma furtiva pesquisa no Google, tem muitas chances de entender o “lado cheio do copo”. O ser humano – Sapiens – tem uma atração especial pela maldade e a morte, fato é que quando há um acidente de trânsito no meio do caminho, a grande maioria pára para observar.

Assim, Adolf Hitler é um nome que prontamente todos sabem o que representa (ou acreditam que sabem), mas poucos se lembram de Konrad Adenauer, o chanceler alemão que reergueu a Alemanha depois da Segunda Guerra. Quem está envolvido com o momento atual de pandemia no Brasil, soma a esse contexto a realidade de confronto e atrito políticos que ressoam temperados de ódio e ira desde 2014, tal qual um efeito dominó de rivalidades e acirramento incessantes. Mas não é disso que vamos falar hoje.

A partir de nosso imaginário sobre Hitler e o mundo que sobrou depois dele, como é possível termos chegado até aqui? Não só foi possível como eu descarto qualquer possibilidade de não superarmos a dobradinha pandemia no Brasil + acirramento político. O sufocamento é apenas, e somente apenas, ter que estar vivo nesse contexto, saber lidar com o tempo e internalizar algo de bom. Fácil é olhar para história (passado), ver que um dia a humanidade sangrou a partir das intenções distorcidas de Hitler, tê-lo como objeto de ódio histórico e descartar um senhor, idoso e católico chamado Konrad. Foi ele quem deu continuidade a história até a aclamada Angela Merkel. Isso, talvez, é tão mais substancioso, racional, palpável e verídico do que sua crença em Hitler.

Outro fato é, a exemplo do acidente de trânsito, a maioria das pessoas gosta de crer no trágico, na tragédia, no medo / fobia a partir de referências do passado. Enquanto muitos contrários ao presidente vivem temerosos com suas ameaças, estética e comportamentos, querendo antecipar a volta da ditadura militar e do facismo a partir de sua verborragia, é mais coerente e racional comparar Hitler e sua governança autoritária com o próprio corona vírus: ambos nos impuseram uma condição de quarentena enquanto ataques estão acontecendo todos os dias nas ruas. Ambos nos obrigaram a práticas de contigenciamento, o estoque de alimentos e reservas financeiras. Ambos botaram grandes empresas a adaptarem seus processos para produção de armas contra o inimigo, outrora recursos bélicos e — agora — máscaras, luvas, álcool gel e respiradores. Ambos convocaram pessoas para um confronto direto no front e me refiro a médicos, enfermeiros e profissionais da saúde de outras especialidades remanejados para o combate. Ambos obrigaram o levante de leitos extras em locais improváveis para socorro imediato aos “feridos da guerra”. E, não menos importante, ambos estão deixando e deixarão as economias dos países de ponta cabeça, colocando historiadores, sociólogos e políticos em sequenciais noites de insônia.

Ainda, com um aspecto benevolente: o inimigo é um vírus e não um homem.

A dúvida que fica é: o povo brasileiro geral merece um Konrad Adenauer depois de tudo isso? Se realmente dependêssemos de um merecimento, como um carma ou algo vindo de Deus, a reposta provavelmente seria: “merecem o próprio vírus!”. Mas um tipo Konrad Adenauer acaba por ser um objeto de contexto, este que não se formou ainda e ainda não dá para prever se virá.

O lado cheio do copo

Um dos fenônemos mais imediatos e perceptíveis é o bem ao meio ambiente. Humanistas sociais travavam lutas constantes para diversos controles e mudanças comportamentais e produtivas, e sempre era um esforço tremendo para retornos, em geral, consideravelmente baixos. Praias, lagos e rios, a princípio, parecem ser os primeiros e reais beneficiados do fenômeno do autoritarismo do coronavírus. Animais que antes se afastaram de seus habitats naturais estão se reaproximando. O ar está mais puro.

A religião capitalista está mais lenta. E, talvez, esse era o sonho de muitos humanistas sociais, para aflição de muitos humanistas liberais. Bom prato para quem se encontra no capitalismo-social.

Embora já seja fato que o PIB na maioria dos países encolherá e isso representará maior desemprego e recessão possíveis, a grande máquina de produção da religião capitalista estará menos “selvagem”. O brasileiro — em específico — nunca passou por uma condição de guerra e, por consequência, nunca precisou ressignificar o sentido de sociedade e coletividade mediante as benesses gerais que a realidade capitalista nos entregava. Em outras palavras, era fácil brincar ou brigar de socialista ou liberal com os referenciais dos últimos anos.

Existe uma oportunidade poderosa do brasileiro amplificar sua visão de sociedade e política para além do partidarismo criado no Lulopetismo e, na sequência, no Bolsonarismo. De internalizar a ideia de contexto e o poder que ele tem para influenciar o seguinte e assim sucessivamente, tal qual a queda do império romano (Idade das Trevas) deu as condições contextuais para a formação do contexto do Iluminismo. Teremos novas escolhas a partir de novas realidades por meio de uma possível visão mais amplificada sobre a ciência política.

A natureza do COVID-19, entre nós e provavelmente perpassando 2020, condicionará pais e filhos a um convívio mais frequente. Será impraticável — para a maioria dos casais jovens de classe média — deixar seus filhos em escolas por causa da concentração de pessoas. Isso será demasiadamente arriscado para os próprios pais e avós. Enquanto a vacina não vem, crianças educadas em família, não mais por tutores ou professores, voltarão a ser uma realidade.

A ciência perante a busca frenética da vacina para o coronavírus deve dar saltos importantes que beneficiará o Sapiens mediante outras doenças. Um grupo de cientistas do País de Gales descobriu acidentalmente a “célula T” — comum no corpo humano mas até então desconhecida — que é capaz de identificar e destruir a maioria dos tipos de células cancerígenas. É uma célula responsável pela defesa do organismo contra ameaças invasivas de vírus e bactérias.

O Supremo já tem unanimidade para permitir que todos homossexuais sejam doadores de sangue. Até o presente momento, gays podem doar desde que garantam não ter realizado relações sexuais nos últimos 12 meses. Tais restrições remontam o final dos anos 80, quando a pandemia da AIDS foi inicialmente relacionada a uma “doença dos gays”. É o conservadorismo dando espaço para o progresso.

A partir de movimentações de meus clientes, micro e pequenos empreendedores, noto sinais iniciais de aceitação da realidade contextual de covid-19. Nas últimas duas semanas, muitos deles tem me ligado para pedir ideias e sugestões para rever seus negócios frente a um vírus que vai nos acompanhar, minimamente, por um ano e meio. Começo a perceber um entendimento sobre essa nova realidade e uma disposição para adaptar seus negócios de maneira física ou virtual. Inicialmente é uma brisa mas que tende a se intensificar, materializando o sentido real do valor progressista.

Nesta toada, em muitos sentidos o conservadorismo será sufocado. Autônomos, empreendedores e empresários buscarão diversas formas alternativas para dar prosseguimento aos seus negócios.

Algo que nem o covid-19 nem o isolamento social podem afetar é a liberdade intelectual do indivíduo. Por mais que sejamos humanistas sociais, o liberalismo predomina no ocidente. Pensamentos e ideias para novos caminhos serão ainda mais valorizados nos próximos anos. O autoritarismo do covid-19 está fazendo o ser humano rever suas prioridades.

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