O próximo passo

Somos feitos de propósitos

“Tudo é questão de manter a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo”.

Nesses 5 anos de MVG vi gays, jovens normalmente, numa alta curiosidade para descobrir se aquele amigo da escola ou faculdade seria também. Tudo fruto de um interesse afetivo, quando não de uma paixão.

Falei com homens com 30, 40 anos ou mais, que seguiram toda uma cartilha heteronormativa, incluindo relacionamento com mulheres, as vezes casamentos e outras vezes filhos. Em um determinado momento, ou se depararam com a realidade de serem gays ou com algum tipo de interesse homossexual, desde uma rápida pegação em um banheiro público ao sexo com alguma frequência com outro homem.

Vi também os “gouines”, gays que tem relacionamentos sexuais sem penetração.

Troquei e-mails com alguns outros que passavam por grandes dificuldades para constituir um namoro e mais alguns que viviam crises no próprio relacionamento. Casos de traição ou a frustração pela descoberta da traição surgem todos os meses. A superação, as vezes, leva-se anos.

Criei alguns diálogos com “daddy boys”, gays bem mais velhos com interesses em jovens e vice-versa e me deparei com certo padrão comportamental dessa relação, quando os senhores presenteiam e financiam seus garotos com gastos acima de uma maioria, ou além de uma simples troca igualitária de agrados (entre namorados).

Quantas não são as ocorrências de busca, que fazem gays chegarem ao Blog, ainda cheios de dúvidas sobre definições de ativo, passivo, versátil, masculinizado e afeminado? São diárias! A cada despertar de um novo indivíduo ou a curiosidade do mesmo, sobre algum comentário que se ouviu por aí em algum canto do Brasil, a Internet é a abertura direta para esclarecimentos ou, quiçá, mais confusões…

Existem também aqueles gays que já se manifestaram por aqui ou por e-mail declarando-se sozinhos e convictos: se entendem como gays, não pensam em se assumir, não querem se relacionar, podem até despejar as ânsias sexuais de vez em quando, mas não pretendem trilhar outros caminhos sobre o assunto.

Já ouvi colocações curiosas (e até mesmo engraçadas), quando alguns juraram de pé junto que gays mais altos são sempre ativos e gays mais baixos são sempre passivos. Interessantíssimo o quanto a falta de representação, educação e informação para que a gente apreenda conceitos e não fique tão a mercê da (pobre) relativização, é uma realidade.

Orientais gays, por aqui, trazendo comentários e depoimentos não são mera coincidência. Dirigi textos exclusivos a nós, na tentativa de trazer referências sobre como é ser gay e oriental em um contexto ocidentalizado.

Gays no armário, meio no armário ou 1/3 no armário. Há em um enorme volume!

Passou por mim também mulheres heterossexuais – esposas – desconfiadas de seus respectivos maridos. Numa mesma proporção que é difícil responder ao jovem, que quer saber se “o amigo ali” é gay, por intermédio de descrições escritas, fica muito difícil saber se o marido é gay se nada muito evidente for apresentado. Sem uma conversa olho no olho.

E quando as meninas gays se manifestam no MVG? Normalmente elas são ótimas leitoras mas não interagem muito. Mas quando fazem, é sempre um prazer saber que mulheres, sapas, rachas, lésbicas ou sabe-se lá a nomenclatura que mais as agradam, também dão o ar da graça por aqui, conferindo força à diversidade.

Já tive conhecimento de um caso de um pai que se assumiu para a esposa, namora um rapaz hoje, tem filho gay e todos – aos domingos – as vezes se reúnem para almoçar.

E não menos importante, não posso deixar de mencionar os homens e mulheres heterossexuais que já passaram por aqui ou mandaram algum e-mail. Pessoas que se mostraram muito gentis por eu trazer referências diversas sobre esse “mundo gay” um tanto camuflado de estereótipos, preconceito e fantasias.

Se já pintou gente extremista e ofensiva? Pouquíssimas vezes. Mas creio que numa realidade em que se lê muito menos e que nos apegamos a linguagem visual, “textões” no Minha Vida Gay transmitem a mensagem e, ao mesmo tempo, salvaguardam as intimidades. E vou afirmar que de radical e ofensivo não veio só o(a) heterossexual. Veio o próprio gay, descontente com a maneira que exponho minhas opiniões. Mas, seja camuflado em textão ou não, a grande maioria que aparece por aqui está de olho num próximo passo. Seja descomprometido ou com um propósito mais claro.

Eu também estou a caminho do meu próximo passo como gay: faz dois anos que tenho pensado qual será meu next step com o MVG. Um primeiro livro está escrito, contando passagens da “minha vida gay” dos 23 anos aos 33. Relendo tudo que vivi até a idade de Cristo, 33, parece que já faz tanto tempo!

Rolou a loja do MVG e durou pouco. Foi uma tentativa que fracassou. Uma ideia muito arrojada e otimista, para um contexto ainda cheio de medo. Como microempresário, estou bem acostumado com isso.

Blog, livro e Facebook (caído, coitado!). Tudo com tom de MVG. Até aí tudo certo.

Tive a ideia de virar Youtuber, me deu uma “coceira” para isso no começo do ano. Alguns leitores sugeriram o mesmo. Mas a sensação de “subcelebridade”, da exploração da imagem pela exploração da imagem com algum conteúdo, fez a fagulha apagar logo. Fora a função de produção, edição, filmagem e ficar numa tarefa de acumular fãs e visualizações. Preguiça. Basta ver a turma do Põe na Roda que – vire e mexe – desabafa o trabalhão que dá. Ficar na função de construir um séquito de fãs, provavelmente descaracterizaria o MVG.

O fato é que me sinto preparado para aparecer, aparecer para me aproximar. Aproximar para trazer as contribuições para mais perto das pessoas. E entendo que fui vasculhar a essência do MVG – o que foi e é primordial nesses 5 anos – para fazer sentido “dar as caras”. Daí que veio um insight tão forte, que eu me sinto capaz de me desligar de todos meus projetos atuais para esse valer a pena. As investidas começaram e as movimentações também…

A minha mudança na vida profissional, ironicamente, aponta para os leitores do MVG: gays, homens, mulheres, heterossexuais, bissexuais, indecisos. Todos. Um projeto que, de alguma maneira, canalizará as emoções e sensações de quem se identificou com os parágrafos acima e mais.

Vale deixar aqui a primeira evidência, para quem se prestou a ler. MVG sempre foi o tratamento do indivíduo com mais profundidade. :)

2 comentários Adicione o seu

  1. Rodrigo Santos disse:

    Meu caro, bom dia!

    É uma satisfação imensa ler o seu blog, cada postagem é cheia de sentimento, verdades do meio gay que retratam o comportamento homossexual quer seja do oriental ou do ocidental. Quero lhe parabenizar por seu trabalho, sou um seguidor a pouco mais de um ano e já li e reli suas postagens e seus relatos me deixaram mais forte e permitiram uma mudança em meu comportamento, principalmente nos padrões heteronormativos que tive em meus relacionamos, como o desprendimento sobre fidelidade e o conceito de lealdade tão bem explicado por sua mãe.

    Muito obrigado!

    Ps: gostaria muito de te conhecer pessoalmente, quem sabe um dia quando eu estiver fora aqui da Bahia.

    Abraços

    1. minhavidagay disse:

      Obrigado pelas palavras gentis, Rodrigo! Quem sabe você não me conhece antes de sair da Bahia? Meu novo projeto deve se iniciar em agosto.

      Um abraço.

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.