O que a chuva anuncia?

Dias de chuva sempre colaboraram com o cenário para os términos de meus namoros, clima que fui percebendo no decorrer dos tempos. Uma vez, foi uma grande tempestade a noite, praticamente inesquecível: lembro que um ex-namorado não quis aguardar cessar e enfrentou o temporal depois que tomamos a escolha.

Foi algo assim, ontem, quando eu e o Meu Japinha concluímos que seria o melhor a se fazer. Foi algo assim, mas diferente…

Não sei porque Deus (ou sabe-se lá o quê), sempre contribuiu com essas energias vindas do céus úmidos para contextualizar tal ato, do meu/nosso rompimento. Poderia ser apenas fruto do acaso, mas como sempre aconteceu, passei a perceber diferente. Outrora, achava que era algo vindo da melancolia, de forças superiores compactuando com um drama, digno de novela latina. Mas hoje, nessa efervescência dos quase 40, numa sintonia única desse namoro com o Meu Japinha e porque já foram algumas vezes que eu senti o fim de um relacionamento de representatividade e profundidade, noto que as águas que coincidentemente caem representam outra coisa.

Recomeçar (ou começar de novo) é um sentimento comum à grande maioria das pessoas que, corajosamente, parte para um rompimento quando necessário. Corajosamente porque, no meu caso, das vezes que considerei algo realmente profundo, precisei de algum tipo de força para encarar que o formato estava exaurido. Apego, palavra que anda em destaque no Blog, é inevitavelmente um dos vilões mais cruéis nas histórias de casais que terminam.

Mas como sempre digo, existe uma combinação exclusiva quando duas pessoas (que são mundos) resolvem se orbitar e, no caso, resolvem se desprender. Tão exclusiva, tão particular e tão própria que faz qualquer tipo de opinião ou julgamento alheios altamente ineficientes, totalmente especulativos ou apenas o suficiente para discursos menores do tipo: “fulano de tal não te merecia”, clichê legítimo das demandas de nosso próprio ego, principalmente quando dividimos a situação com outros (super nossos amigos) para o nosso consolo certo, (ilusoriamente óbvio).

Ego, definitivamente, fica ferido em medidas diferentes (e proporcionam reações diferentes também) quando se perde a posse. Posse sim porque, se não fosse, não haveria a necessidade do desapego.

São nesses momentos sublimes que se lança à altura do chinelo qualquer diferença entre gays, lésbicas, heterossexuais e etc.

Na grande maioria das vezes, quando não há a contaminação pela traição (algo tão normativo na cultura das relações gerais hoje), as pessoas terminam quando interesses, objetivos e expectativas de vida deixam de convergir. Bem ou mal, o fator da distância física (subentende-se nisso a falta de estímulos afetivo e sexual), acabou sendo definitivo no meu caso. A mim, particularmente, o distanciamento de mais de meio ano foi suficiente para, de repente, me pegar na exata situação: “me sinto parcialmente solteiro, mas também, parcialmente namorando”. Chegar nesse status não foi consciente, muito menos querido. Mas sei que a pitada de distância reverberou em mim como um tempero definitivo para eu chegar nessa posição desconfortável. O tempo passou, nossas vidas se estabeleceram lá e cá e me senti conectado a ele somente pela “honra da palavra”, sem o propósito racional de ser desse jeito.

Foi aí que em alguns questionamentos (e foram diversos!) por vezes compartilhados com o Meu Japinha, notei que ou me seguraria pela lealdade da palavra, do acordo quase que de “honra nipônica”, ou pela lealdade aos meus sentimentos atuais, igualmente legítimos. Tenho, sim, muitos desejos e vontades, embora sejam normativamente questionáveis perante determinadas caixinhas.

Nossa relação se manteve por Skype durante todo esse tempo. Como fazer? Terminar ou não por meio da maneira única que nosso relacionamento se estabelecia, atrás de uma tela? Relutei, sim, por me preocupar com ele. Mas foi na mesma praticidade de nossas personalidades que o Meu Japinha sugeriu assim, porque o aqui e agora pediam por isso.

Por duas horas, ontem, conversamos. O Skype não travou uma vez sequer e pudemos, de maneira serena e lúcida, abordar e rever todos os pontos que estavam pegando. Entendíamos com a consciência acumulada nos últimos meses as diferenças de expectativas. Compartilhávamos com humildade a gratidão pelo tempo vivido. E o Japinha, já não mais meu, falou assim:

– Mas ó, vou querer a sua feijoada quando eu voltar para o Brasil, com a “turma do MVG”! Voltarei a ser o “Candy” e você o “Ji”. Nossa, que engraçado falar assim de novo…

Dei risadas e não teria como ser diferente disso.

Quase no fim da conversa, ele ainda lançou aquela pergunta clássica, tão corriqueira:

– Você está interessado em outra pessoa?

– Ah! Claro que não! É essa pergunta, mesmo? – respondi quase que indignado pela dúvida tão normativa. Mas ele me esclareceu que não passava de uma brincadeira.

Hoje ele mandou mensagem, logo cedo, dizendo assim:

– Tou bem melhor, sabia? Muito estranho isso. Mas foi do jeito que tinha que ser!

Respondi:

– Não, estranho não… é a nossa vibe.

E é isso, foi e é a nossa vibe. Por mais que nos sejam legítimos os dias de chuva, tratando pelo viés da melancolia e do sofrimento, tais águas são também para celebrar novos caminhos. Com o Japinha foi uma suave garoa. Libertação para ambos.

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Foi aí que o Japinha me mandou agora o texto com a sua visão. Ele fazia questão de também deixar o registro no Blog MVG:

Chicago, quarta-feira 8 de Abril de 2015 (12:33 am)

E cá estou eu, aqui no meu dormitório sentado sobre a minha cama. Acabo de terminar meu primeiro relacionamento amoroso via Skype. Qual o peso que isso tem em mim? Grande porém pequeno. Grande por todo o contexto. Nova família, novos amigos, novos aprendizados, novas atitudes, novas emoções, novas experiências. Vida nova. Vida fora do Brasil, vida em outra cidade, vida com uma língua nativa diferente, vida com pessoas diferentes, vida com desafios diferentes. Tudo isso engatado junto com um novo e inédito relacionamento amoroso para mim. O meu primeiro namoro sério. O meu primeiro namorado. Mas isso acabou. E agora? E agora que topamos o desafio, o encaramos e demos o nosso melhor, porém não deu. Não deu porque mudamos? Talvez. Simplesmente não deu. E esse é o pequeno detalhe dentro dessa granditude. Digo pequeno porque encaramos o término do amor de namorados como algo pequeno. Algo sem drama. Sem grandes choros. Apenas alegria. Alegria de ver que o outro pode seguir livremente o caminho que mais lhe satisfaça no que está por vir. Mas o que está por vir? Eu não sei e não quero me colocar sob esse pensamento. Vivi de expectativas durante esse intercâmbio inteiro e caí de cara. E como caí de cara. Caí feio, quebrei não só meus dentes como também os meus próprios “devaneios imaginários”. A queda foi feia e dolorosa, porém necessária. E isso também valeu e ainda vale para o amor.

Apesar do amor de namorados ter acabado, o outro ainda permanece, o de amigos. Sempre fomos e seremos os eternos “Candy” e “Ji”. Tivemos uma enorme oportunidade de nos conhecer como amigos e posteriormente como namorados. O que começou com uma simples conversa, continuou com umas risadas, uns encontros entre amigos queridos, umas danças a dois e finalmente uns encontros a dois. Até que num desses encontros a dois (que diga-se por sinal, durou mais que 12 horas) a fagulha veio e despertou em um dos moços o amor de namorado. Esse moço soube despertar no outro essa fagulha também. E foi bom. Ah! Como foi bom esses dois meses juntos que vivemos como se fossem dois anos! Até que chega a hora do desafio começar e do seguinte acordo entrar em vigência: manter um relacionamento à distância e monogâmico. Eis que no aeroporto há uma grande despedida. Essa despedida termina com um entrando na fila do embarque enquanto o outro apenas olha e presencia a cena. Meu namorado se foi. Foi mesmo. Dentro do avião, incertezas surgem em relação à tomada de decisão de topar um distanciamento da vida que tinha no Brasil, mas que logo foi apagada pela excitação do novo. Aquele tipo de medo que faz você sentir frio na barriga. Chego em Chicago. O namorado está a onde? No Brasil. Difícil, né? MUITO!

Posso dizer que tivemos altos e baixos durante essa experiência inédita para ambos. Conversas e mais conversas pelo Skype. Aonde está meu namorado? Do outro lado dessa telinha. Bate solidão, bate carência afetiva e sexual, bate tudo nessas horas. O que fazer? Concentrar naquele acordo que fizemos antes da separação física. Vamos manter nosso relacionamento à distância e monigâmico. Não iremos nos envolver nem amorosamente e nem sexualmente com ninguém, se não a nós mesmos.

Eis que chega o tão aguardado momento de encontros em terrinhas obamanenses. Outubro, Nova York. Namorados se encontram. Virada de ano: Chicago, Las Vegas e São Franciso. Namorado e amigo se encontram. Sim, eu estava esperando pelo meu namorado, mas de alguma maneira o senti mais como um amigo “colorido”, não sei se pela minha parte, mas talvez pela parte dele. Mas que absurdo isso, você poderia pensar. Foi o que eu pensei na época, mas não, não é algo absurdo. É algo humano. Agora, eu mais que entendo e compreendo que um relacionamento recente e distante pode fazer você perder tesão pelo outro. Imagine ficar meses e meses sem ver seu próprio namorado? É natural que isso aconteça e foi o que realmente aconteceu. Porém não para mim. Talvez seja porque foi meu primeiro namoro. Talvez não, talvez seja eu mesmo. Sei lá. Só sei que aconteceu. O que fazer diante disso? Brigar, gritar ou me matar? Não, ter um tempo para mim. Só para mim. A princípio, recusei-me a aceitar essa ideia de que o meu próprio namorado perdeu o tesão em mim. Confesso que a ideia de separar dele era inviável até esse momento derradeiro. Fui andar. Andei e fui assimilando a ideia. E daí se a gente se separar? O mundo não acaba, a vida não acaba, eu não acabo.

Acertada as contas de que o acordo prosseguisse, um namorado volta ao Brasil e o outro volta aos estudos. Eis que surge outra questão. Tentiva de abertura na cláusula do contrato. Tópico: relacionamento aberto. Para mim? Não tão cedo. Talvez jamais. Talvez. Talvez seja porque as energias de prazeres sexuais com terceiros durante um relacionamento não me traga uma boa energia. Não tenho cabeça nem maturidade para isso. Não tenho preparação psicológica e emocional. Ok. Argumento aceito. Cláusula recusada.

Chega então o último mês de vigência do contrato. Último “fucking” mês! Pra quem aguentou sete meses, mais um só é nada, não é mesmo? Não! O último mês chegou para concretizar algo que já estava acontecendo porém inconscientemente. De um lado, um namorado sem tesão pelo outro. Do outro, um namorado digerindo a ideia de separação. Eis que a inconsciência os brinda com um choque de expectativas. Aceito a ideia de separação e fico mal. Já estava gripado, e vem uma coisa dessas?! Sim, veio porque precisava passar por isso nessa reta final do meu intercâmbio. Quando achava que a minha própria torre estava finalmente erguida, ela sofre no último mês um desmoronamento. Um baita desmoronamento. Penso durante dois dias seguidos, e eis que assimilo tudo e lido da forma mais racional possível. Diante dessa realidade eu descobri que ainda o amo, só que agora como amigo e não mais como namorado. Já que o amo como amigo, porque não libertá-lo? Libertá-lo desse tipo de prisão contratual que nem existe fisicamente, porém intelectualmente. Sim, optei pela felicidade do meu amigo “Ji”. Para que esperar mais um mês sendo que nesse período ele pode começar a procurar seu caminho que já não é junto ao meu?

Foi o que fiz e o fiz de coração. Na hora não pensei em mim totalmente, mas nele, na estima que ainda tenho por ele, no amor que ainda permanece entre nós. No entanto, o que eu não enxerguei até esse momento é que também tinha sido libertado. Senti-me leve, como se um peso tivesse sumido magicamente das minhas costas. Percebi que estava preso a ele também e esse tipo de liberdade me fez bem e está me fazendo bem. E me recuso a me colocar na posição de vítima. Não sou vítima nem ele é o vilão. Não, não é isso. Nós somos seres humanos. Da mesma maneira inesperada que o amor veio para nós, foi embora primeiro para um e depois para o outro. Quando um não quer dois não fazem. Que o amor seja eterno enquanto dure. O que tiver que acontecer, acontecerá. E aconteceu. Deixamos Deus nos guiar. Simples assim. Fácil assim. Pequeno assim. É dessa maneira que decido encarar essa questão. Não quero cortar meus pulsos, não quero pular no Chicago River, não quero me matar. Não, não agora que a minha vida vai recomeçar no Brasil. Volto de novo com a mesma sensação de quando cheguei aqui em Chicago. Com aquele frio na barriga do novo. Do inesperado. Mas encararei o novo de modo diferente agora. Sem expectativas, sem devaneios, sem ilusão. Apenas a realidade e o dia a dia. Porque é assim que a vida funciona. Temos que viver o hoje e o aqui e o agora. O resto, será como Deus quiser.

4 comentários Adicione o seu

  1. lebeadle disse:

    MVG, querido, li tudo e fiquei aperreado, circunstâncias que fazem recordar um relacionamento recentemente findo.
    Porém, o que fazer, o que dizer, apenas obrigado por compartilhar a experiência e a beleza da vida.
    Abraços fortes, beijos

    Do seu amigo

    Le Beadle

    1. minhavidagay disse:

      Muito obrigado, amigo Le Beadle! :)

  2. Emocionante,obrigado por compartilhar esse momento e desejo a ambos que sejam felizes na escolha que fizeram.

  3. Eu não ia comentar para não ter opinião ou julgamento ineficiente, porém compartilhar essa experiência é tão rico, tão contribuinte e de certa forma educacional que não tem como não deixar um comentário, nem que seja para dizer que me emocionei. Sim, me senti emocionado por ter de longe (até porque não os conheço pessoalmente e espero ter a oportunidade) acompanhado esse relacionamento desde o encontro em NY (acho que foi a época que comecei a acompanhar o blog). Ver tudo acabar é emocionante principalmente por estar perto de voltar ao Brasil, mas o que emociona mesmo é sentir que não acabou, não é o fim e sim um recomeço, de uma nova vida no Brasil, de uma nova oportunidade de viver o novo sem sentir o peso do fim.
    Parabéns por compartilhar algo que poderia ser íntimo de vocês mas que ao tornar público se torna como lição para muitos.
    Viva o novo!!

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