O que a vida nos oferece, o que a sociedade nos cobra

Cobranças sobre um indivíduo, seja gay ou heterossexual

Cobranças recebemos sempre de todos os lados, até mesmo quando somos bebês recém nascidos e nossos pais nos põem, por exemplo, a tomar banho a contra gosto. Ainda totalmente dependentes e sem consciência, aquele ato – a princípio incômodo – será uma exigência em nossos primeiros passos conscientes.

Hoje tive 20 minutos para um café com uma amiga em comum ao meu ex, o Beto. Foram alguns minutos filosóficos, focados em um assunto: relacionamento. Fazia quase um ano que não nos encontrávamos, a não ser com propósitos de trabalho. Logo ela perguntou:

– E aí, você? Está namorandinho?

– Então, querida, estou em um relacionamento fixo com um menino, mas não tem nada formalizado. Eu sei que tenho saído só com ele, mas ele, eu não sei (rs). Se flerta nos aplicativos, se tem tempo para sair com algum outro cara… aí é problema dele (rs).

– Uau… mas que desapego!

– É… acho que é (rs).

O fato é que essa amiga está solteira há mais de um ano e logo depois de contextualiza-la sobre o meu momento, ela trouxe seu caso quando eu perguntei:

– Você anda solteira, né?

– É, eu estou – me respondeu como se aquela pergunta fosse um tipo de ameaça.

– Olha, você é muito cobrada pelos seus amigos para estar com alguém, né? – me referindo ao Beto e seus amigos em comum.

– Ai Flá, demais… parece que estou errada. O Beto mesmo me cobra bastante.

– Ah, nem me fala. Encontrei com ele recentemente. O Beto está ULTRA curioso para conhecer o Rafa e toda vez que toco no assunto ele já vem com aquele tom irônico e debochado de “o meu namorado”! (rs). Já disse para ele que não é namoro, não tem dezenas de cláusulas, mas ele quer acreditar que estou namorando. Você sabe que ele vem de uma família bastante tradicional e, por afinidade, acaba se relacionando com amigos de uma educação mais tradicional também.

– É complicado… as pessoas me cobram muito e as vezes eu fico pensando se eu estou errada.

– Depende: você está se sentindo mal de estar assim? Se você chegar pra mim e dizer, “ai Flá… estou sentindo tanta falta de um namorado”… aí serei o primeiro a te dizer que você precisa encontrar alguém! Na hora que eu peguntei se você estava solteira, logo percebi que no jeito em que me respondeu, você foi um pouquinho reativa. Por isso eu te digo: não estou te cobrando nada!

– Ahahaha… desculpe, querido… é uma pressão.

– Eu sei que é… provavelmente eu esteja vivendo ainda uma necessidade de me desprender dos modelos e “caixinhas” que vivi na época em que eu namorava o Beto. Ao mesmo tempo que a nossa relação foi a realização de diversos ideais, sobre família, parentes, amigos por perto – bastante heteronormativo, do tipo “o casal gay mais legal que casal hétero” – a gente não continuou junto, sabe? Tivemos nossos motivos para o desgaste. E isso que eu ando construindo com o Rafa é algo novo. Não tem normas e compromissos determinados pela sociedade, pela tradição. Não estou seguindo uma cartilha a qual uma maioria estranha quando é diferente. Compromissos não seguram uma relação. O que segura e deve segurar é o sentimento, a vontade.

– Uau… que interessante isso aí… gostei. É, eu sei lá… é muito legal ter consciência dessas coisas…

– Vou te dizer que eu trago para a consciência em dois momentos: quando estou conversando com amigos que entram nesses assuntos e quando escrevo no Blog. Mas quando estou com o Rafa eu simplesmente sinto. A única certeza que me satisfaz é saber se no próximo final de semana eu e ele estaremos com vontade de nos encontrar e ficar um tempo juntos. É o sentimento que conduz. Se a gente define um compromisso, assumimos uma “garantia”. Mas e quando o sentimento muda? Ficamos presos a esssa garantia, achando que irá assegurar alguma coisa. E não garante nada. É uma formalização apenas. O sentimento as vezes foi embora e ficamos presos ao comodismo, ao apego, a rotina…

– E o que sua mãe diz a respeito? – questionou a minha amiga tendo alguma referência dela pelo Beto.

– Bom, você sabe que ela tem conhecimento de tudo que eu já aprontei (rs). Das coisas que a sociedade exige e daquilo que a sociedade rejeita. Acho que sempre que ela me vê desafiando para construir ou reconstruir meu próprio modelo, ela vibra porque, dentro dela, tem uma sede por reconstruir os formatos. Ela viaja nas minhas histórias e gosta… é um exercício abstrato pra ela.

– Ai Flá… um dia eu queria conhecer a sua mãe…

O fato é o seguinte, meus queridos leitores: peguemos um tema comum a (praticamente) todos nós: “ser gay”. A sociedade, por forte influência Cristã, definiu que “ser gay” ficaria fora da caixinha. Estamos exatamente numa briga secular para tombar uma das paredes da caixa e abrir espaço para fazermos parte desse “lugar ao Sol”. A medida que entramos, alguns buscam uma alta identificação (e aconchego) na heteronormatividade, pois o modelo lhes conferem algum tipo de segurança, algum sentido de aceitação. Outros não (que é o meu caso hoje). Outros não porque tem mágoa e ódio. Outros não porque há um desprendimento. Entre um pólo e outro existem infinitas variações, mas numa média, queremos repetir os modelos para a mais “pura e cristalina” a-pro-va-ção.

Na relação com o Beto eu parecia ter me encontrado. Até viver 4 anos com ele e notar que, no final, a busca tornava-se outra. Para aquilo que é heteronormativo ou tradicional, o estado em que me encontro hoje parece de alguém perdido! É o caso da minha amiga, por exemplo, vivendo dezenas de cobranças por parte de seus amigos (inclusive meu ex) para “tomar um rumo e encontrar logo uma cara metade”. Mas afirmo, com uma certeza absoluta (das poucas que considero assim) que hoje estou muito mais encontrado do que na época em que vivia o modelito. Nada relacionado a trauma, mas a conclusão de uma fase da vida que teve um sentido e que agora não tem mais tanto.

O que me confere essa certeza absoluta é: (1) a paz que tenho dentro de mim (que já seria suficiente para justificar o caso), (mas 2) a segurança e autonomia que tenho com o tipo de relação que vou experimentando com o Rafa. (E 3) o sentido de auntonomia que adquiri hoje (como quando me refiro num dos posts anteriores que “medo da solidão” já não justifica eu estar com alguém, embora eu esteja totalmente aberto para me relacionar).

A minha amiga questionou:

– Já faz quanto tempo que você está com ele?

– Já deve ter batido os 5 meses.

– Ahhhhhhh! – exclamou boquiaberta.

– Mas veja, não é namoro (rs).

E eu aprendi a não deixar ninguém ficar entrando muito nas minhas escolhas (e confesso, foi uma briga longa). Se minha mãe não entra nessas cobranças (nem meu pai, por pura falta de jeito de assuntar sobre humanidade e intimidade) não existe Papa no mundo para falar sobre verdades a mim a serem seguidas, principalmente quando o assunto é o modelo de um relacionamento.

A maneira que a gente se relaciona, no sentido de praticar de fato e termos uma paz dentro da gente, é só e somente o que faz sentido para o indivíduo quando o tema é esse. Se a gente se relaciona por puro descontrole ou compulsão, ou porque existe alguém ou algum grupo cobrando da gente um modelo, ou na hora de colocar na balança a relação tem mais aflição do que tranquilidade, eu sinto em dizer, mas existe uma grande chance de você não ter descoberto a sua maneira, aquela que te dará uma parte da paz de espírito.

Mas não se preocupe. A vida dá oportunidades. Se você vai agarra-las ou não (e praticar) são outros quinhentos. ;)

 

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