Olhando para outras direções

O armário, as vezes, são vários

Lançar posts polêmicos é assumir o risco de, ao mesmo tempo, atrair pessoas que se identifiquem e afugentar aqueles que não largam seus modelos (ou criam idealizações pelo Blogueiro). Mas além de um bom senso que acredito que eu tenha, parte pela formação, educação e personalidade e parte pelas vivências nestes 39 anos – sendo desse tempo 16 anos fora do armário – tenho certa validade de duas mulheres na minha vida: uma delas é a minha terapeuta, profissional que caminha ao meu lado há mais de uma década munindo-se de base de Freud, Lacan, Jung e do espiritismo e, outra, minha “terapeuta espiritual” totalmente conectada a Umbanda, búzios e espiritualidade. A intersecções das simbologias sempre me pareceram fazer sentido.

Não bastassem essas pessoas que cruzam a minha vida e que já afirmaram algumas vezes certo papel de “orador”, minha própria mãe é parte integrante deste contexto, ciente de todas minhas peripécias, lado A ou B. Mas como amor de mãe é incondicional, pula essa parte – rs.

Vira e mexe, enquanto solteiro, trago cases sobre a sauna gay. Não são “contos eróticos” ou experiências pornográficas para apaziguar as tensões dos leitores, sedentos por fantasias daquilo que está distante de suas trivialidades. Mas trago uma reflexão sobre nossos comportamentos e sobre aquilo que está “fora e dentro de nossas caixinhas”. Tudo isso exige muita responsabilidade e se alguém um dia disser: “você incentivaria um cara indeciso, que é casado nos moldes heteronormativos a curtir com um homem?” – minha resposta seria (simplesmente) “não”. Eu o orientaria das consequências possíveis, da relação moral VS. prazer e de como experiências desse tipo podem abrir “portas psicológicas” a sensações desejáveis e, principalmente, ao inesperado indesejável. Tem que saber bancar depois os atos e efeitos que inevitavelmente virão.

O mesmo se aplica para um gay no armário, ou que transita dentro e fora e busca por alguma experiência, seja sexual, afetiva ou ambas. Todos nossos atos levam a efeitos e, estes, por mais que sejam necessários para nossa emancipação (numa sequência eterna de atos e efeitos), devem ser refletidos devido ao contexto heteronormativo que bem sabemos (ou sabemos como nossos olhos enxergam). Cada vida é uma vida. Cada entorno é um entorno e cada realidade é uma realidade.

Mas me sinto motivado a perceber o todo, a me aproximar das extremidades da minha “caixinha” e buscar espiar para fora. Talvez esse tenha sido um grande lance na minha vida nos últimos anos, principalmente no que diz respeito a como me posiciono diante a sociedade: perceber uma expansão de autonomia intelectual e emocional. O resultado de tudo isso é uma paz comigo muito grande. Um tipo de “me bastar” e conviver com a solitude sem demandar da atenção de outros. É, talvez, a aproximação do “ser uno” – na prática – que tantas filosofias propagam.

Na semana passada estive em uma cliente que é Coach, psicóloga e socióloga. Está próximo dos 60 anos, é toda linda, bem cuidada e bem vestida – muito jovial – e disse uma frase que resume bem o que toda essa minha observação condensada acima percebe: “o grande problema do ser humano é a carência, Flávio! Como somos carentes”. Não me colocaria fora desse pacote, mas atento e consciente em relação a ela – carência – eu aprendo a me resolver.

Se carência é uma das essências que nos move, fico imaginando posturas, atitudes e ações que tomamos (na maioria das vezes inconscientemente) para construção das nossas relações, de nosso entorno e do mundo com o exclusivo objetivo de supri-la. Doido, não é, pensar que um indivíduo vive para – basicamente – não se sentir carente?

O que era uma breve introdução virou o próprio post (rs). Mas continuo aqui, pois entendo que o assunto abaixo tenha total correlação.

Minhas experiências na sauna são sempre reveladoras o que, além do aproveitamento prático do ato (rs), me serve com um laboratório rico e incrível sobre o comportamento humano. Já dei inúmeras pinceladas sobre o assunto em posts espalhados por aí, no MVG, o que assustou muitos por um lado e atraiu outros igualmente. Primeiramente, seria ideal extrapolar a cultura normativa: “quem vai na sauna é promíscuo”. Ok, isso é óbvio e normalmente quem não vai se prende a própria questão da promiscuidade e/ou das doenças. Existe uma forte carga Cristã no discurso, mas não faz sentido entrar no mérito agora. Vamos falar de ultrapassar muros e buscar enxergar sem o viés da própria moral Cristã. Não fiz isso ainda com a profundidade devida e creio que esse seja o momento.

Antes de mais nada, é importante ressaltar que a ideia não é fazer uma ode à sauna. Poderia ser um bar, ou uma balada ou uma casa de repouso, quando o indivíduo se liberta por algumas horas das normas sociais de seu entorno. E quando falo em “normas sociais de seu entorno”, me refiro basicamente a caixinha, transmitida na educação, das expectativas que outras pessoas tem sobre o indivíduo. Tal caixinha define coisas do tipo: (1) não se misturar com outras etnias, (2) ou com classes sociais diferentes ou (3) do convívio com pessoas apenas de idade próxima. Por mais que estejamos num processo de inclusão e tolerância, os moldes escravocratas, a questão da cultura de classes no país e questões geracionais são realidades. Eu, particularmente, não acredito no discurso: “convivo tranquilamente com negros mas não me relaciono porque não me atrai”. Tal clichê é o normativo, é a desculpa certa para se escapar do preconceito sem levantar poeira. Meu ponto de vista.

Sabendo que o fetiche reside (em certo) proibido, me coloquei a questionar o por quê de negros, asiáticos como eu e senhores de idade “se dão tão bem” em lugares como a sauna. Nos últimos anos já perdi a conta de quantas vezes fui a Chilli Peppers e até me orgulho disso, por ter superado as minhas próprias barreiras dos fundamentos cristãos e tratar de tal lugar com tanta normatividade (a minha normatividade). Deus, por hora, não me castigou por isso e creio que nem fará. Nem no dia do meu juízo – rs.

O fato é que mediante as regras e normas de nosso entorno, basicamente, o que está escrito em nossa cartilha sobre o tópico “convivência”, reprimimos alguns de nossos desejos. Não me refiro somente a atração do homem por outro homem – algo que é obviamente resolvido em meio a meia luz da Chilli e caracteriza a promiscuidade em si – mas (fundamentalmente) à quebra de outros proibidos. É disso que, infelizmente, a tão louvável moral Cristã nos priva.

Partindo do pressuposto que, dentro de uma sauna, as pessoas ficam como vieram ao mundo, roupas e outros acessórios que nos classificam perdem seu poder. Existe um nivelamento: não se codifica procedência, status ou qualquer outro requisito determinado pela caixinha. Magrelos, magros, gordinhos, gordões, sarados, tatuados, sem pêlos, meio-pêlos, peludos, baixos, médios, altos, pobre, classe média, rico, negros, pardos, asiáticos e brancos são todos iguais. A partir daí o contato é questão de tempo ou desejo. Curiosamente nunca vi briga na sauna. Tampouco furtos. A discrição tende a ser pressuposto a todos.

Há muita cocaína que com um simples “não curto” se resolve. E não a venda em si, mas a oferta de uso coletivo para complemento da diversão.

O indivíduo que está preso a moral (seja a procedência que for) é incapaz de perceber tais sutilezas. Assim como é incapaz de enxergar que está “fadado” a selecionar outras pessoas mediante à expectativas, no mundo fora da sauna sem tomar consciência (ou com aquela consciência tristemente velada). Um branco de classe média poderia ser muito feliz com um negro de classe menos privilegiada. Mas quando se dariam essa oportunidade de encontro, cientes que seus mundos possuem discordâncias de julgamento?

Então é isso: além de contermos “senões” dentro de nós por sermos gays, existem todos esses outros envoltos à nossa realidade. E nós gays, no caso, relutamos a enfrentar esses “senões” para evitar o abandono, a rejeição, a crítica e o julgamento pela aparência. Não enfrentamos para não frustrar ou quebrar com as expectativas das pessoas de nosso entorno. São expectativas de pais, mães e amigos. A imagem perante o trabalho. Em suma, a sociedade.

Imagine a carência que dá, o buraco, o tirar o chão com a rejeição? Imagine você andar ao lado daquela pessoa que você é realmente a fim, mas não faz por que “não pode”? E não porque ele seja homem. Mas porque é negro ou de outra faixa social. Ou um senhor. Na sauna, afastados das conveniências das expectativas e normas, as pessoas se permitem viver – que seja por algumas horas – o que seria mal visto pela sociedade. Fora do padrão de expectativas dos grupos. Não é assim com a promiscuidade?

O armário, as vezes, são vários.

3 comentários Adicione o seu

  1. Pedro disse:

    Assunto interessantíssimo a ser explorado, sim, afinal, não é que estou a gostar dos teus assuntos de solteiro? Rsrsrs.

    Bem, vamos lá, primeiro permita-me sugerir uma coisa, achei a abordagem interessantíssima, mas que poderia ser dividida em vários posts diferentes, eu acho que ficou assim multidisciplinar (multi-temática ou sei lá o que), se é que me faço entender, ou seja, muitos conceitos, muitos assuntos dentro, muita polêmica de uma vez só.

    Sim, concordo, o armário são muitos mesmo, na verdade são os armários e ser “Gay” pra mim não é um armário, mesmo que enrustido, na verdade ser “Gay”, de qualquer maneira, no meu modo de ver é uma forma de se libertar deste armário, este armário em relação à sexualidade, deixo claro isso.

    O “Gay enrustido” não é propriamente um prisioneiro deste armário, desta fantasia, ou como disse um dos meus terapeutas dessa fantasmagoria. O “Gay enrustido” já deu 50% dos passos que deveria ter dado, que é resolver o conflito interno que ocorre dentro dele, resolver o conflito interno que é entender que ele é diferente do “desejável”.

    Conflito interno da resolução da equação libidinal, que todos nós temos que fazer, e o resultado nem sempre é o “desejável”.

    Resolver a outra equação subsequente, aí meu filho, é com cada um. Cada um sabe onde lhe aperta o sapato, como se dizia antigamente.

    Como é que uma pessoa está no armário se ele nem sequer sabe que está nele? O “Armário” aí neste caso é a consciência de estar dentro dele, sentir-se no “armário” até certo ponto é uma lição, é um lampejo de luz que surge a fim de esclarecer as coisas todas, sentir-se no armário é uma condição primordial para sair dele, porque não existe armário, caso você o ignore.

    Tem gente que até hoje não sabe que gosta de homem (eu sei o que estou falando porque eu fui assim, pensava que era um “hétero diferenciado” rs, depois descobri que era uma puta como qualquer outro/a rsrs), veja lá quem se assume e se entende mesmo como negro, latino-americano, mestiço, pobre, viciado em sexo rsrs, enfim, e tudo aquilo que se julga ser inadequado aos olhos da sociedade brasileira, que é “egodistônica”, sim, “egodistônica” sim, porque prega valores e ideais que são inalcançáveis, tendo em vista a maneira de como é este país, e como são as pessoas que o enformam, enformar, de formar mesmo, de dar forma.

    Quer dizer, o armário está em todos os lados e todos os lugares, basta ser diferente do modelo, do que é idealizado, do social e culturalmente instituído e desejável, infelizmente é assim, não aprendemos a tratar as diferenças com igualdade, e sim com preconceito, desrespeito, até muitas vezes contra nós mesmos.

  2. Joaquim disse:

    Falando do meu caso, sinto-me meio perdido. Assumi-me, para mim mesmo, tardiamente – há pouco mais que 2 anos – e actualmente tenho um relacionamento com um homem mais velho. Fui sempre activo, embora gostasse de ser versátil, sinto que tenho medo por me poder sentir usado ou ficar um vazio. Às vezes, sinto que tenho um preconceito em relação aos passivos, apesar de estar a tentar desmistificar isso. Sofro de depressão há muitos anos e, por vezes, é difícil de gerir tudo na minha cabeça. Nunca fui a saunas nem locais gay, excepto um bar a que vou ocasionalmente com amigos e agora também o meu namorado. Sempre quis ter afecto, a par com o sexo. Gostava que desse umas palavras ao que escrevi. Abraço.

  3. lebeadle disse:

    armario

    ar mar rio
    sentir o ar
    cair no mar
    fluindo rio

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