Ordinário do ponto de vista de quem lê

Eu pensei que nesse final de semana, junto com um feriado, a Chilli Peppers seria minha balada certa. Mas não cheguei a por os pés naquela sauna e, ao contrário do esperado, reinaugurei oficialmente minha casa como “motel”.

Seriam três semanas que o Luiz – o menino bissexual que conheci depois que terminei com o Beto -, havia retomado contato. Curiosamente, e para quem tem acompanhado os últimos posts já sabe, ele puxou conversa por WhatsApp uma semana depois que eu havia terminado com o Japinha, num ímpeto quase que telepático.

Nos finais de semana que se seguiram, dava um “alô” pelo mesmo aplicativo, nos sábados ou domingos, numa tentativa de reencontro. Era questão de ajeitar as agendas e, confesso, normalmente era eu quem já estava no meio de algum compromisso quando ele aparecia. Até cheguei a brincar com um amigo: “algo me diz que na primeira briga com a namorada, a gente vai acabar se vendo pessoalmente (rs)”.

Sábado por volta das 11h, depois que eu retornei da aula de tênis, estava relaxado na cama e pronto para ir almoçar num cliente que é dono de restaurantes (para comer na faixa e fazer reunião de um novo projeto) e o Luiz chamou no Whats. Resolvemos realizar o encontro já que eu não teria uma hora certa para estar na reunião. Fui até a sua casa, errei a rua, foi engraçado porque ele achou que eu estivesse zoando e, no final, nos encontramos.

Lindo! Mais magro, corpulento com seus 1,82m e aquele rosto bonito. Sempre bem vestido e aquela voz mais grave do que a minha, que na mesma medida inspira masculinidade. Olhei pra ele logo que entrou no carro e pensei comigo: “caraca… não me recordava do quanto ele era bonito!”. Não demorou muito para eu perguntar:

– E ai, brigou com a namorada?

– Pois é… faz umas duas semanas que a gente não se encontra. Ela é muito chata… fica no meu pé querendo controlar tudo.

– É… teu carma.

Entramos dentro de casa e ele já veio pra cima. O sexo, a pegada, o beijo, é tudo muito bom e houve um reconhecimento como ele mesmo disse, “desde a primeira vez”. Para muitos, tal relacionamento pode ser motivo de deboche ou desgosto por tantas “infrações à regra” dos bons costumes. Mas a minha posição é clara: quem vive a dualidade é ele e, quem assume ou não certo “peso” do julgamento moral é o próprio Luiz. Eu estou solteiro, embora entenda certa corrupção a qual me envolvo. Mas antes que a desculpa seja “quem é que não pratica uma corrupção as vezes?”, prefiro dizer que “cada cabeça a sua consciência”.

Estamos construindo algo de afetivo que talvez não tenha uma classificação normativa; algo como amizade, algo como colorido. Depois do sexo, que normalmente dura horas e horas, a gente relaxa e conversa. O que eu vejo nele e o que ele vê em mim é esse perfil “mãe” ou “conselheiro” para os amigos, cumprindo certa função de ser apresentável, de ser aquele que tem juízo (embora nosso próprio contexto possa dizer o contrário). Temos afinidades pela ambição profissional, pelo gosto por carros também e, fora essa superficialidade, existe uma química “fraternal e sexual” que paira sobre o subentendido.

Parecia querer almoçar comigo depois de tudo, mas eu tinha meu compromisso. Dei carona pra ele e no caminho de volta a sua casa, um gay bastante afeminado, com cabelos longos e maquiado, estava atravessando a rua e notei que ficou olhando pra gente. Logo comentei:

– Olha só… ele se interessou.

– É… eu vi. Cê tá louco. Pra comer um desses aí eu prefiro comer mina.

– Ah, é… mesmo porque, no caso, o passivo da relação é você, né?

– Filha da puta (risadas).

Parei numa lanchonete perto de sua casa e ele reinteirou uma conversa que havia rolado durante o caminho:

– Vou te levar no Zeni um dia desses então. Pra gente jantar e você conhecer um dos melhores japas da cidade.

– Beleza… a gente combina.

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No domingo marquei um almoço com um dos amigos do MVG e, na sequência, iria para o espetáculo argentino Fuerza Bruta a convite de um dos outros amigos do Blog. A minha ideia era ter o dia de lastro com as amizades, algo tranquilo e descontraído. No almoço, em conversa com o jovem mais “tímido” da turma, o ajudei a (finalmente) criar sua conta do Facebook para que, at last, pudesse abrir sua conta no Tinder. Passamos um período agradável, entre conversas, novas emoções diante do aplicativo e um passeio na Livraria Cultura do Conjunto Nacional. Esse amigo é um colecionador nato (assim com um dia já fui) por filmes e também seriados.

Por volta das 16h aguardava o Matheus, seu paquera e uma amiga na portaria do ginásio do Ibirapuera. Chegaram um pouco atrasados, mas nada que comprometesse o espetáculo.

Nessa onda de conhecer gente nova, comecei a acumular certo número de contatos que pularam dos aplicativos de pegação para o WhatsdApp. E foi um deles, o Jota, que inclusive foi bastante objetivo na primeira conversa, que sugeriu um encontro às 20h. Quando recebi a mensagem estava em meio a efeitos visuais e sonoros do show.

Ao final, já caminhando na rua, o Matheus sugeriu:

– E aí gente, vamos comer alguma coisa?

Eu, indeciso ainda com o que fazer, fiquei quieto. Foi aí que o amigo me disse:

– Ah, você está com peguete hoje, né?

– Pois é…

E foi aquela intervenção, mínima, o suficiente para eu combinar o encontro.

O Jota é de Fortaleza mas mora com seu irmão (também gay) em São Paulo por volta de um ano. Bem próximo de casa. Os trâmites para o encontro foram bastante simples e, o que é sempre surpreendente ou imprevisto, é como o primeiro contato se manifesta. Para alguns, tal momento é de um nervosismo absoluto, da exposição, do julgamento de um desconhecido e da aprovação, receios que são muito legítimos na verdade (embora, no meu ponto de vista, devam ser superados). Mas eu estou de certa forma calejado, não somente por contatos que já vieram dessa forma, mas pelas centenas de outros que pratico há mais de uma década com a atuação na área comercial da minha empresa. Costumo deixar sempre a pessoa levar a “dança”. E foi aí que o Jota, logo que chegou em casa, pediu humildemente para que pudesse tomar um banho antes, já que tinha passado o dia inteiro no trabalho.

Puxei uma toalha e entreguei a ele. O vi se despir a minha frente, ficou só de cueca e assim pude fazer certa aprovação. Gostei. Ele queria que eu entrasse no chuveiro junto, mas preferi ficar sentado na cama enquanto o aguardava. Ducha rápida e ele veio pra cama. Conversamos bons 40 minutos e o menino parecia interessado em quebrar um certo gelo com conversas antes dos atos, propriamente. A mim, o que é sempre mais gostoso e interessante é deixar a pessoa a vontade. Jota perguntou da minha vida, do meu trabalho, de planos e objetivos. Perguntou de relações, de quanto eu estava bem com a minha sexualidade e, a medida que o esclarecia, o replicava com as mesmas questões.

Ainda um pouco intimidado, Jota foi fazer xixi uma segunda vez. Deitei na cama e fiquei esperando ele voltar. Ele veio e logo me beijou.

Entre um ato e outro, ele lançou uma afirmação curiosa:

– Estou gostando da sintonia entre a gente…

Ao final, batemos um papo no trajeto para sua casa. Antes mesmo de entrar no carro eu lancei:

– Eu tenho percebido que muita gente dos aplicativos, ao contrário da imagem que se tem criada por aí, busca um relacionamento mais efetivo.

– Ah sim… eu mesmo estou querendo algo assim.

Creio que as conversas reservadas naquelas horas com o menino, tenha deixado bastante claro o meu atual momento: ideias sobre relacionamento aberto, sauna Chilli Peppers (que inclusive ele também gosta), saciedade de anos de relacionamentos normativos, certo momento de desapego e com desejo de conhecer pessoas. Ele sabe que, ao contrário do que muitos gays gostariam, intimidade e afetividade não se adquirem em meia dúzia de encontros. As vezes, nem depois de um ano temos disso. Qualquer coisa muito apressada desumaniza o outro em detrimento ao nosso impositivo desespero.

Nesse grande laboratório de experiências que é a nossa vida (e que sem hipocrisia ou vaidade nenhuma trago para o MVG, de modo terapêutico a mim e referencial para quem se interessa) continuo com as minhas buscas. Embora os meios, as vezes, sejam condenados pelos seguidores da “moral e boas práticas”, meu maior encantamento está no mundo que é cada pessoa que se presta a fazer alguma troca comigo. Suas histórias, suas visões, formações e repertórios trazem uma riqueza que, normalmente, elas mesmas não percebem.

Sempre que entro nesse estado, do solteiro já mais curado das dores de um término, íntegro, caio exatamente nessa adoração, de buscar um pouco mais da consciência de quem sou ao me identificar ou não com o outro. Tudo isso é carregado de uma subjetividade não muito compreensível para algumas pessoas. Para alguns, é tão subjetivo que parece uma bobagem. Preferimos nos ater ao que é “concreto”, tais quais nossos medos, determinadas regras sociais, aos pudores individuais e uma eterna sensação de que seremos julgados. Realmente, somos frequentemente analisados, julgados e avaliados. E vou dizer que quanto mais tememos o julgamento é porque fazemos o mesmo numa proporção equivalente. Desatar nossos próprios nós antes é fundamental para que, na subjetividade de tudo isso, as pessoas entrem em nossas vidas.

2 comentários Adicione o seu

  1. Caetano disse:

    MVG e aí cade o Luiz?

    MVG gostaria muito de uma entrevista com caras bissexuais, pode ser na rádio tambem, emfim queria adentrar mais por esse assunto, se puder dar uma ajuda seria otimo rs.

    Abraços e parabens pelo blog, tô sempre aqui!

    1. minhavidagay disse:

      Oi Caetano!
      Luiz vai bem. Rs. Ele vai e volta desse jeito mesmo. Não o procuro e só aguardo quando ele se manifesta.

      Abraços, Caê!

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