Pai

Relato da relação de pais e filho gay

Cheguei aos 42 anos e com uma conquista consciente e, digo conquista, porque não é algo ordinário: ter me emancipado da relação “pais e filho”, de quando a relação é infantilizada mesmo depois do filho adulto.

Emancipado – nesse sentido de que apesar da família ser nosso “bem e mal irremediáveis” – a qualidade da relação pode transcender os modelos comuns, de pais que enxergam a prole eternamente como filhos e levam a percepção para o nível maduro, do filho como adulto. “Eterno filhinho”, pero no mucho. É claro, óbvio e transparente que – para isso – o filho também precisa sair de diversas situações de conforto, regalias e comodidades que a relação infantilizada oferece.

Desde meus 33 anos, são quase 10 que a minha relação com meu pai (principalmente com ele) tornou-se algo que posso chamar de amadurecida ou esclarecida.

Embora eu não veja a comparação como argumento eficiente, para o caso se faz valer com um valor didático: meu irmão ainda é o “filhão” perante ambos, principalmente para meu pai que carrega características mais controladoras e leva em sua personalidade um tom mais “encanado”, preocupado com as coisas de filhos, de netos agora e um tanto controlador. Não existe o julgamento de “melhor ou pior” propriamente por aqui, mas, sim, o que se escolhe.

A mim, finalmente (!), meu pai me tem como adulto responsável e independente, valores que ele custou a enxergar (com belos empurrões de minha mãe!). São quase 10 anos e, tendo em vista meus 42, estamos apenas desfrutando agora, ele com 77 anos. E o desfrute é no plural pois, em boa medida, quem se desprendeu de certas amarras e limitações comportamentais pouco maduras foram ambos, eu e ele.

Nunca ou quase nunca relações imaturas tem apenas um protagonista. Embora assumamos uma postura de culpar alguém (ou se sentir culpado). O contrário o mesmo, mas tendemos a buscar culpados quando as coisas não vão bem (fatalismo cultural, vitimismo, etc.).

Como nossos pais

Fui criado em um ambiente familiar, de pais (mais) e de mãe (menos, mas existente) de valores meritocráticos. Está moderno e politicamente correto criticar tal conceito, assim como em um tempo remoto era passível de crítica os aerosóis liberados a partir da queima de embalagens de isopor e determinados eletrodomésticos que liberavam CFC, como as geladeiras de antes.

Quando meu pai notava meu envolvimento com desenho e pintura, ele investia e cobrava certo resultado. Ganhei alguns prêmios. O mesmo ao notar que eu tirava “de ouvido” músicas no piano.

Com estudos, nem se fala: nossas diferenças começavam daí, quando ele era exíminio em exatas e eu hábil em português.

Entre conflitos geracionais e muito enfrentamento da minha parte, ele chegava a passar uma hora me ouvindo tocar piano. Literalmente desfrutava.

Quando eu resolvi iniciar minha primeira empresa, virou as costas por um ano e não me ajudou em nada por muito mais tempo. Posso dizer que, pelo contrário, teceu dezenas de críticas, apontando minhas incapacidades e falta de habilidade (total, segundo ele) para sustentar uma empresa.

Ele precisava carregar essas crenças consigo.

A época, tal conflito por eu querer “ser dono do próprio nariz” era combustível a mais para o fosso entre nossa relação e um punhado extra de discórdia. Hoje, tenho a compreensão total de que o medo que ele tinha por mim (medo de pai), de eu sofrer e viver frustrações muito grandes, era um espelho duro e frio a ele: pura projeção de frustrações que ele mesmo tinha vivido e um monte de fantasias de vivências que ele nunca tinha experimentado.

A ficha do meu pai começou a cair e seus próprios fantasmas começaram a se dissipar quando minha mãe, na literalidade, chegou a ele um dia e disse: “pára de se preocupar com as escolhas do Flávio. Basta… você não se deu conta que faz sete anos que ele não depende em mais nada de você? Que ele não te pede mais nada?!”.

E realmente: dos meus 26 anos aos 33 (período que marcou o difícil processo de filho para adulto), quando minha mãe ergueu sua varinha mágica da racionalidade e realidade e deu na cabeça do meu pai, eu já não mais o idealizava para ser algum apoio maior material ou – principalmente – emocional, para qualquer que fosse a minha ação ou empreitada. Aliás, foi com meu próprio pai que aprendi a ter as desenvolturas iniciais emocionais, desde muito pequeno.

Hoje, da parte de ser firme, vejo isso quando meu pai lança certas considerações sobre os comportamentos da minha sobrinha.

Eu acabei me tornando, hoje também, uma pessoa mais corajosa e segura. Na maioria das vezes – e falo de homens – acabamos por reprimir traumas e medos, enrustindo os mesmos em camadas e mais camadas de discursos racionais, machistas e evasivos. Aprendemos a abstrair por dentro da carapaça. Isso se aplica tranquilamente a homens gays também. Eu optei, acima da média, por não seguir por esse protocolo comportamental.

As vistas do meu pai, depois do tapa de varinha mágica, dos meus 33 anos para cá, fui ganhando (gerúndio, porque é processo) contornos de segurança, maturidade e clareza de pensamentos. Hoje sou apoio até mesmo nas horas em que ele reage com seus próprios medos não resolvidos, fantasias e autorepressões. Talvez seja uma das poucas pessoas que, atualmente, eu tenho paciência de aguentar choramingos e pensamentos negativos.

Meritocracia

Em algumas medidas, meu pai ajuda ainda meu irmão, na relação de deveres de um pai para o filho. A mim, embora seja ajuda, vem mais em caráter de presente por compensação:

O universo presenteou meu irmão com três filhos: minha sobrinha mais velha e dois – de modo natural – gêmeos univitelinos. Meu pai ajudou a família do meu irmão com a casa em que ele e minha mãe moravam. Espaçosa, que dá para os 5 viverem por longos anos. Esses longos anos, possivelmente, serão concretos e a casa será herdada pelo meu irmão. Não continuar por lá será por pura opção de ambos, meu irmão e minha “cunha”, desde que no caminhar da vida, a própria supra a necessidade de permanência.

Para completar o senso de justiça do meu pai, que é de sua personalidade, desde que a família do meu irmão passou a habitar a casa grande e eu não tenho benefício equivalente para formar a balança, papai costuma me dar “boladas” de presente umas duas vezes por ano, para a compensação. Não cobro a “minha parte” e confesso que muitas vezes não lembro que meu irmão tem essa benesse do casarão, por ter seguido a cartilha heteronormativa e, mais, ter trazido à tona três filhos em um mundo complexo para se criar três.

Ganho bons presentes de compensação e, primeiramente, apesar de não me fazer falta e não suprir necessidades estruturais maiores, como uma casa grande para a habitação de cinco, nunca neguei os presentes e não faria jamais, principalmente porque sinto e entendo também que essas doações são impulsionadas pelo sentimento de orgulho que ele tem de mim, do cara que mais o enfretou na história e que, com muitas “porradas” mútuas, provou que consegue ser resolvido, seguro e feliz. Diferente.

A minha ideia de “dar certo” era em uma dimensão outra do que meu pai conhecia. Esse foi o ponto central de aflição, faíscas e desentendimentos durante os anos de nossa relação, muito mais alheio a questão da minha homossexualidade do que o mero espectador deduziria.

Há dois anos, chego a estranhar, recebo tais “boladas” súbitas. Porque como a minha mãe bem disse, faz anos que eu não dependo materialmente e emocionalmente dele e esse tipo de vínculo se “cortou”, muitas vezes por livre e espontânea pressão e minhas necessidades autoafirmativas de provação. Frente também ao meu cotidiano e o tipo de relação que se constituiu entre ele (pai) e eu (filho), parece que não combina. É estranho. Mas é óbvio que aceito e aceito essas “boladas” faz dois anos, tempo em que meu irmão e sua família se estabeleceram na casa.

E aceito da minha mãe também que, no caso, a vida toda me presenteou com pequenos agrados, nem sempre associados ao mérito por algo.

Coisa de boa fé, consciente que não se estabelece para o mimo.

Do meu pai, há o tom de meritocracia e, também, do aposentado que a vida toda buscou mais poupar e guardar para o futuro, postura típica – ou perto disso – da cultura oriental herdada de meus avós originalmente japoneses.

“O Flávio é esforçado. Consegue tudo que quer. É corajoso”, embora diga isso ao meu irmão mais em tom de crítica, cutuque e comparação do que diretamente a mim. Assim, nessa toada, complementa minha vida com algo que ele entenda que mereça uma substituição, como um ou outro móvel da minha casa que ele entenda que precisa ser renovado e, mais recentemente, uma grana extra para trocar de carro. Na cabeça do meu querido velho – eu mesmo já passei dessa fase – ele entende que um carro melhor (status?), que tenha conforto e me ofereça as tecnologias mais modernas é necessário para meu cotidiano de idas e vindas em reuniões por toda São Paulo.

Como disse, não nego nem desdenho mesmo sendo um algo a mais de algo que eu já tenha e cumpra a função – a mim – de maneira acertada. Meu pai sempre me amou assim e hoje, transparente a mim, sem mais idealizações, entendo o quanto.

Com 77 anos, ele mudou um tanto em nossas últimas duas décadas. Talvez, só ele não perceba ou prefira se enrustir em seus melindres e pensamentos negativos, principalmente na presença da minha mãe.

Homens, gays ou heterossexuais, se escondem em camadas.

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