Pegação no aplicativo

Aplicativos para o gay, tais quais Grindr, Hornet, Scruff e derivados se constituíram cheios de mitos e tabus, embora ainda não tenham completado uma década de existência. Não deixam de ser a versão otimizada e full time do “pai”, as tradicionais e viciantes salas de bate papo dos portais de conteúdo. Os mesmos hábitos, comportamentos e, não menos importantes e sugestivos apelidos, acabaram migrando para os apps, com a diferença de que a exposição – por intermédio de fotos pessoais, texto de perfil e indicação por proximidade -, se intensificou, estabelecendo assim suas funcionalidades específicas.

Foi breve, porém intensa minhas últimas ações junto aos apps. Faço aqui minhas considerações, somadas à experiências anteriores, desde que o Grindr surgia como o primeiro aplicativo voltado ao público gay masculino e eu era apenas um stalker para entender, na época, o que poderia se tornar aquilo.

O termo “aplicativo de pegação” está correto?

Em termos, queridos leitores. Que é fato que parte dos usuários o utiliza para fins exclusivamente sexuais, eu não tenho dúvida e creio que ninguém tem. É importante lembrar que muitos homens que têm desejos por homens (casados, em namoro ou solteiros) mas que não se consideram gays, batem cartão em tais meios. Para tais caras, fica muito distante qualquer possibilidade de algum envolvimento afetivo por outro homem e se o gay não cuidar, assim como em qualquer outro meio, pode cair na velha e boa história de fixação por alguém que não vai dar muita corda. Não é à toa que muitos gays tem certa “raivinha” dos apps e preconcebem tais meios como algo exclusivo para curtição. Tal “rejeição” não deixa de ser um tipo de bloqueio. Contabilize aí o medo da exposição, os receios por sermos avaliados e julgados, o “oi, tudo bem?” que não tem resposta, as conversas que parecem iniciar empolgantes e terminar num vazio e a falta de jeito de lidar com os aplicativos. Mas tudo isso, nada tem a ver com o meio, mas com as pessoas.

Tais recursos são relativamente recentes e, até bem pouco tempo atrás, mais da metade dos meus amigos viam os apps com olhos tortos. Por que será? O medo e o desconforto gerado pelo novo. Foi assim no surgimento do celular, com o Facebook, WhatsApp e será assim com qualquer novo recurso que busque reinventar a maneira/forma de nos relacionar. A grande maioria resiste no começo, até surgir uma sensação de que está se excluindo de seu contexto. Assim, humanamente, nos comportamos no geral. Sabe por que a Apple é também glorificada (sobre um mar de polêmicas da massa, mas cuja a maioria no fundo admira)? Porque tal marca conseguiu construir, da melhor maneira possível, uma “ponte segura” entre o indivíduo e o novo. O preço, no Brasil, é o verdadeiro problema.

Ao discriminarmos um aplicativo, estamos de fato condenando o comportamento das pessoas, essas que, a bem da verdade, estão dentro e fora da telinha. Achar que “as pessoas do aplicativo” só estão dentro do celular, não deixa de ser uma desculpa ingênua.

De caso comprovado, um amigo vai casar, em janeiro, com um rapaz que conheceu por um app. Outro deles está namorando há mais de três meses e um terceiro começou um romance faz pouco tempo, de papos diários e encontros frequentes. Meu ex, o Beto, conheceu o Cadu pelo Hornet e, como descrevi no post anterior, está assumindo um namoro.

Não poderia deixar de citar a minha “ficada fixa” que completa um mês. Conheci o Tché pelo app e a química que rolou da minha parte, foi o suficiente para tirar a graça dos aplicativos, da casualidade e da sauna.

O termo “aplicativo de pegação” está correto? Depende (totalmente) do que você fará com ele. E mesmo assim, não são os apps que vão definir a durabilidade e a qualidade das relações. Mas sim, as pessoas envolvidas e principalmente você, no momento que é um complexo de desejos e vontades. Essa fórmula não tem como mudar, dentro ou fora da telinha.

Saiba definir os seus propósitos, antes de definir o que está alheio a você num primeiro vácuo ou fora que possam vir pelo app. De uma maneira geral e em qualquer meio é preciso ser paciente e atencioso com as pessoas. Ou não, caso seu estado atual seja de seu agrado.

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Encontrei Ela essa semana e foi assim, no contexto do post:

– Percebi dessa vez que muita gente, mesmo buscando por uma fast-foda de início, tem intenção de um namoro.

– Mas será que isso não é fruto da maneira que você lida com as pessoas?

– Eu entendo que sim. Eles chegavam em casa, eu oferecia água, batia um papo. Sugeria um banho depois do sexo, oferecia a toalha. Sentávamos no sofá para conversar. Sabe, Ela, o mínimo de cordialidade que, no meu entendimento, é o básico de educação, da maneira de tratar qualquer pessoa que entre na sua casa. Não preciso estar a fim para fazer isso.

– É aí que está…

– Sim, aí que está… as pessoas hoje não têm feito nem esse básico. A maioria fica esperando que o outro faça isso por elas. Assim, fica difícil estabelecer um relacionamento mesmo.

(…)

2 comentários Adicione o seu

  1. Sandro Bonassa disse:

    De apps, não sei nada, rs.

    Nunca tive um instalado na verdade nunca vi funcionando.
    Não que eu tenha algum preconceito, loge disso, simplesmente quando estava solteiro, tinha preguiça de instalar, fazer o perfil, começar uma conversa, aff, só de pensar em tudo isso eu já desistia do aplicativo.
    Fora que os esquemas nas baladas e bares, puxando uma conversa, trocando números de celular, marcando um encontro dias depois ( nem sempre rolava sexo, muitas vezes ficava no café ou jantar), fiz muitas amigos alguns mantenho contato social até hoje.
    Porém não sou melhor cara para avaliar os aplicativos, não tenho face , instagram etc…

    Concordo com o fator gentileza, educação e respeito, assim que fiz muitos amigos e conheci meu namorado em uma balada. romance de dois anos, para quem acha que namoro de balada é furada, o meu vem rendendo bons momentos.

    Da mesma forma que eu acredito que uma pegação de aplicativo ou sauna, pode sim render um belo e longo romance.

    Só quem se permite vai saber.

    1. minhavidagay disse:

      Concordo, Sandro.
      Meu ex-marido, por sinal, conheci na Bubu e o relacionamento durou quase três anos!

      Meios não são a questão, embora a gente teime com isso para justificar as investidas mal sucedidas. A questão paira nas relações em si, no meu ponto de vista; no encontro, em sintonias e propósitos estabelecidos.

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