Pelo olhar dos outros

Como gay, não seria diferente.

Minha querida cunhada adora tirar as mais diferentes fotos da minha sobrinha de quatro meses e, todos os dias, lança alguma coisa nas redes sociais. Hábito típico de muitas mães modernas, entusiasmadas com seus rebentos, da reciprocidade com curtidas de amigos e muitas amigas que têm ou tiveram expectativas com um filho e, normalmente, o primeiro, que é sempre o começo de tudo para o sentido de maternidade.

Fico pensando quando a minha sobrinha tiver seus 10 anos, já com alguma consciência de mundo, e depois, com 14 ou 15 anos, percebendo que a sua exposição se estabeleceu muito antes de sua consciência. E, de fato, nossos pais serão nossos olhos por muitos anos, com leves intersecções com os olhares de nossos amigos de escola e faculdade, as vezes de um namorado, nessa longa e mutável jornada da formação de valores e personalidade.

No geral, a primeira bolha de realidade vem da família. Depois vem da escolinha, primário, ginásio, colegial, faculdade e a cada situação nas relações entre pais, amigos e professores vamos estabelecendo nossa percepção de mundo. Como gays, não seria diferente. Até nossos 16 anos, em média, nossa compreensão de realidade tem raízes fortes na maneira que nossos pais a enxerga. É nessa faixa de idade, um pouco para mais, um pouco para menos, que vamos formando a percepção das coisas.

Costumo dizer que existe uma natureza intrínseca em cada um de nós, gays ou heteressexuais, que nos confere a dádiva de sermos únicos, o que inclui a nossa sexualidade. Com a mesma referência do meu pai, dele dizendo que carro é um objeto perigoso, que exige cuidados extremos e que, muitas vezes, parecia a mim e ao meu irmão uma bomba que poderia explodir a qualquer momento, eu aprendi a dirigir e vou a todos os cantos possíveis dentro e fora de São Paulo. Tive que superar todos os medos projetados e sugeridos por papai para adquirir tal segurança. Me desafiei muito mais intensamente que uma maioria. Já meu irmão, sobre os mesmos referenciais sobre carro, vendeu o seu, anda de transporte público e assume abertamente um receio de dirigir um veículo. Está aí o efeito da tal natureza intrínseca a que me refiro: mesmo pai, mesma maneira de referenciar um tema, mas formas diferentes de ter lidado com a questão, eu e meu irmão.

Quando o assunto é a homossexualidade, ou desejos profissionais, ou qualquer outro assunto, é essa mesma natureza intrínseca que vai definir a maneira que lidaremos com tudo.

Estive com o Sandro hoje, leitor que se tornou bastante participativo nos últimos meses. Fiquei curioso para conhecer uma “espécie rara”, ele sendo gay, o irmão e o pai também! No mesmo núcleo familiar, o primeiro a se assumir foi seu irmão mais novo. Seus pais, a princípio, acharam a situação “trágica” e trouxeram a igreja evangélica para dentro de casa. Mas curiosamente foi o próprio pai que assumiu na sequência e, por fim, depois de 33 anos, o amigo Sandro. De tal maneira, sobre o mesmo objeto denominado “homossexualidade”, a natureza intrínseca de cada homem do mesmo núcleo familiar ressoou de maneira bastante diferente. Nem o próprio pai se sustentou num modelo que ele mesmo construiu com a sua esposa! rs

Durante anos de nossas vidas, independentemente de classes sociais, os jovens enxergam o mundo (ou acreditam que ele é) sobre o olhar de pessoas ou instituições que se identificam. Sabe aquela história de que o cachorro define quem é o dono? Fazemos a mesma coisa por um tempo ou por tempo indeterminado e escolhemos mãe, pai, professor, um amigo ou até mesmo a igreja ou um namorado. O que quero dizer com isso é que, dependendo da natureza intrínseca de cada indivíduo (o que é maravilhoso por fazer pessoas únicas nesse mundo), compramos mais esse ou aquele modelo até nos desprendermos do olhar dos outros para construirmos nosso próprio olhar, quando é que realmente desprendemos.

Há pessoas que vão comprar valores de outros, tais quais os dos pais, para construir e estruturar a própria vida e há pessoas que vão se desprender ao máximo do que foi herdado para trilhar caminhos próprios e elaborar valores diferentes dos que foram ditados. Entre um e outro somos, novamente, infinitas nuances que, inclusive, confere a beleza diversa que é a humanidade.

Até essa minha visão, contida nesse texto, há de ser superada.

3 comentários Adicione o seu

  1. Sandro Bonassa disse:

    Espécie raro e protegido pelo centro de estudo antropologia social gay da USP,kkkkkkk.

    Almoço fantástico ontem, muito bom conhecer você pessoalmente.

    Ótimo texto.

    1. minhavidagay disse:

      Valeu, Sandro!

  2. Manson disse:

    Ótimo texto, parabéns pelo site!!!

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