Pensamentos em quarentena: pólo positivo

Todos os dias, desde o início da quarententa em São Paulo, é noticiado algum feito solidário: o Itaú ontem, 12 de abril de 2020, divulgou a doação de 1 bilhão para ajuda ao combate ao coronavírus. A Ambev fabricará 3 milhões de máscaras a partir de garrafas plásticas. O banco BTG doou 50 milhões e esses foram apenas exemplos do pólo positivo e, embora pudesse ser muito mais, não há como negar a materialização da solidariedade.

Músicos populares daqui e dali não param de realizar shows por meio das redes sociais com o intuito de arrecadações diversas para esse momento COVID-19. Lady Gaga é curadora de um grande evento ao vivo e online em parceria com a OMS, o “One World Together at Home” e vai reunir artistas populares como Paul McCartney e Elton John em 18 de abril.

Deputados brasileiros tentam emplacar projetos, leis, decretos e medidas provisórias diversas, como o desconto de algum valor do salário do funcionalismo público, a redução dos salários dos próprios deputados, algum percentual das grandes fortunas, entre outros que ainda são fumaça. Mas as intenções tem sido amplamente registradas e eu como eleitor, tenho notado os meus candidatos eleitos em manifestos ativos no debate processual, na velocidade brasileira, que envolve esses temas, seja com uma particularidade mais liberal (dinheiro doado por instituições privadas), seja a partir de projetos diretamente sociais.

A “Renda Básica” de 600,00 reais para informais, autônomos e MEIs foi a primeira a emplacar e, eu que estou atento frequentemente as essas movimentações, tenho visto isso com muito bons olhos. Inclusive, a minha escolha a Deputada Federal teve participação ativa na votação na Câmara.

Alguém do meu Facebook, incluso na categoria (não sei se informal, autônomo ou MEI) reclamou do valor. Não consegui me conter e questionei a ela: “então, já que esse valor não te agrada, por que você não doa?”. Da noite para o dia, da água para o vinho, ela lançou: “não posso recusar desse dinheiro agora”.

Ah…

Empresas multinacionais, diante da letargia do governo, tem elas mesmas aberto cartas de crédito para as micro e pequenas empresas que são parceiras e fornecedoras, a fim de ampliar suas sobrevidas e manter conexa a cadeia produtiva.

Luiza Helena Trajano, umas das líderes da Magazine Luiza com positiva reputação no círculo de empresários e até com alguma popularidade nacional, é uma referência que tem se manifestado para a não demissão de colaboradores. Eu, particularmente, recorri a meios e possibilidades logo nas primeiras semanas de quarentena para alargar a saúde financeira da minha empresa até agosto com o objetivo prioritário de não demitir ninguém, mesmo tendo mais de 50% de meus clientes (comércios, agência de turismo e empresas que lidam com aglomeração como hotéis, espaços para treinamento e escolas) de portas fechadas desde meados de março.

É notável também, para quem quer enxergar, as grandes empresas adaptando suas linhas de produção para o desenvolvimento maciço de itens de alta importância para o contexto, como máscaras e álcool gel, como é o caso da Ambev já citada. Notável também é Bill Gates investindo diretamente na corrida para a descoberta da vacina contra o coronavírus e entendo que o país que atingir essa façanha ganha visibilidade e lastro político positivo.

Então, diante de vultos negativos e oportunistas, como aplicativos falsos para desvio de dinheiro, roubo de milhares de testes de COVID-19, empresários falastrões preocupados com seus próprios ganhos, líderes religiosos confrontando a ciência e aumentando os riscos de contaminação de seus seguidores, a própria polarização que é um hediondo desvio de atenção, bolsominions-fanáticos erguendo caixão em manifesto na Avenida Paulista, entre outros que dão os tons de nossa cultura, como os próprios expansivos brasileiros que não se deixam abater e saem as ruas como se tudo estivesse como antes, existem intenções claras pelo bem estar social, descolados de partidos e do trivial confronto político. Há uma real adequação, embora em alguns momentos – a mim – pareça tímida ou lenta.

O extenuante embate polarizado, pelo menos no feed de minhas redes sociais, está diminuindo consideravelmente. Os mais radicais, curiosamente, estão silenciando, como provavelmente eles só servissem para “animar” a timeline com a mesma velha opinião formada sobre tudo.

Diante desse “novo mundo” que se forma, quando a realidade que conhecíamos deixa de existir e o “surreal passa a ser real”, entre crises de histeria, paranoia e tristeza, de um não aguentar-se, de um não suportar-se e precisar descontar de alguma forma em um terceiro, o sentimento de medo – ele e nada mais além dele – tem se manifestado de formas variadas e diferentes.

Boa parte da rotina de um psicólogo é ajudar um indivíduo a nomear sensações. Nomear é um ato de assunção, de apropriação, de “nitidez ao que estava turvo” e traz como maior benefício a clareza (consciência) daquilo que está apertando o peito, tirando o sono, provocando o “mal do século” da ansiedade de cada um. Em tempos de pandemia, possivelmente alguns vivem muito mais.

Há anos, muitos anos mesmo, uma das minhas atenções se voltou a perceber os comportamentos de pelo menos 100 pessoas do meu Facebook, daqueles que o algoritmo permite estar mais visível. Comportamentos relacionados a temas que mais se destacam e, obviamente que a política é uma delas, ou era até o momento em que a pandemia e o “novo mundo” tornaram-se assuntos de primeiríssima grandeza.

Ao mesmo tempo, a minha permissão em aceitar as diferenças, algo que “preguei” milhares de vezes no Minha Vida Gay quando os assuntos envolviam as minorias das minorias, como os gouines, os brothers, os HSH, os masculinizados, os bissexuais, entre outros, fato que inclusive fui estimulado a internalizar a partir das centenas de trocas por meio do Blog, passou a se manifestar numa outra esfera e, provavelmente, é assim que consigo manter na minha rede social o rapaz ou a senhora que vivem em comunidades – como a Paraisópolis – e trabalham para elas como educadores, o senhor que vive da venda de seus doces caseiros em Marília, até o milionário dono de uma empresa de móveis importados da mais fina linha ou o arquiteto recheado de prêmios internacionais que vivia mais na Espanha do que no Brasil.

Atores que abandonaram a formação de marketing da nossa faculdade e yuppies que agarram os valores de marketing e do corporativismo com unhas e dentes, formados na mesma.

O cara que trabalha com projetos culturais e – obviamente – é um dos que dá peso à polarização, assim como funcionários públicos presentes na timeline.

Dezenas que conheci no app Smule Sing!, inclusive Protestantes envolvidos que vivem hoje nos EUA e estão agora postando muitas músicas religiosas cantadas em coral com evangélicos brasileiros. Todos “Smuleiros”.

Alguns poucos que vieram deste Blog em tempos férteis sobre a temática da homossexualidade e outros que vieram quando eu passei a me envolver com outros assuntos.

Familiares do meu namorado, ex-paqueras, ex-namorados, ex-sogras que não deixam de curtir e comentar determinados posts que publico, amigos e parentes de ex-namorados; amigos do colegial público, esses que não vejo pessoalmente há décadas; colegas da pós que nunca terminei, colegas da especialização em Coaching, colegas que me aproximei em tempos de night by night, meus primos, meus tios e meus parentes, alguns deles que nunca conheci pessoalmente.

Ex-sócios, ex-funcionários. Alguns clientes. Minha “Maria” que trabalha para a família há mais de 30 anos e que está longe do Facebook por não conseguir absorver tantas informações, sedenta para que tudo isso passe logo e possa voltar a trabalhar.

O fato é que, com orgulho, não excluí ninguém nos picos da polarização dos últimos anos. Eu, honestamente, preciso ter uma coragem que eu não tenho (e nem quero ter) para deixar de seguir alguém por pensar diferente e que, em certos impulsos de aflição e desabafo, por ventura, teceu alguma palavra ou repostou alguma imagem que – supostamente – me agrediria “diretamente”.

Alguns me excluíram e continuam excluindo, nessa volatilidade e rotatividade de pessoas das redes sociais, algo que se tornou natural, algo que virou hábito entre os seres humanos e o Zygmunt Bauman está aí para denominar a partir dos comportamentos humanos nas próprias redes sociais.

Em suma, talvez desde os aprendizados adquiridos com o Minha Vida Gay, talvez até mesmo antes, a minha rede social abrange hoje uma diversidade que – naturalmente – está acima da média de uma maioria que não suportou e não suporta “ataques” alheios durante os picos de polarização e prefere se restringir ao aconchego da bolha. O julgamento aqui não é presente: cada um escolhe sua zona de conforto. É muito reconfortante – a mim – perceber como as pessoas funcionam para além da minha dimensão.

A partir dessa caldo diverso no meu Facebook, cruzando com as minhas próprias sensações diante desse “novo mundo”, pude identificar diversos subentendidos, medos velados e temores inominados, acumulados nas últimas semanas de praticamente todos eles, me incluindo. Tive também dois ou três picos de ansiedade nessas 5 semanas de quarentena.

As igualmente diversas reações positivas ao post que transcrevo à seguir, me fizeram deduzir que o efeito terapêutico, de dar nome ao medo como comentei mais acima, se fez valer. Talvez tenha algum efeito positivo por aqui também e não me custa registrar:

“Tem gente com medo de ficar doente ou com medo da morte. Medo que adoeça alguém mais próximo e vulnerável. Medo que alguém enlouqueça no isolamento.

Medo de perder o emprego ou da empresa quebrar. Medo de baixar o nível ou já não ter o que comer. Medo do presidente demitir o ministro ou medo do Dória ganhar muita força. Medo das pessoas não cumprirem a quarentena ou medo da quarentena destruir a economia. Medo do “socialismo” ou medo do neoliberalismo a frente.

Medo de perder a liberdade.

Medo da anarquia na rua, quebra-quebra, assalto. Medo que se invada o castelo. Medo que te tirem tudo ou que tirem o pouco que tem.

Medo do aumento do preço, medo de não ter como pagar as contas.

Medo de que a vida em família, com filhos, vire uma rotina exaustiva sem fim.

Medo das tretas em casal que começaram. Medo da separação.

Medo que seja um romântico castigo divino ou medo da frieza da ciência.

Medo de sermos apenas números, estatísticas.

Medo da solidão.

Medo de que o governo não faça o suficiente ou medo que faça tirando um pouco do que é seu.

Medo “das coisas” não estarem indo como você quer. Medo de perder o controle, como se a sua voz pudesse segurar toda essa onda.

Tem gente que está com medo de ter medo e finge que não está acontecendo nada.

Tudo é medo que você deveria assumir para si, ao invés de responsabilizar o outro de, supostamente, acentuar a parte que te arde.

E o que será de amanhã?

Para deixar meus medos de lado, as vezes eu leio um livro, escrevo alguma coisa, cuido dos meus bichos, cozinho, namoro, canto, toco piano, jogo videogame ou resolvo virar planta. Elas me ajudam a lembrar de um dia após o outro…

Passei para te lembrar também: um dia após o outro”.

***

Existem outras esferas de positividade que não posso deixar de citar:

  • indivíduos com tendência à esquerda que tinham abandonado sua fé pela pura natureza da polarização e suas contrariedades, estão a retomando. Como disse algumas vezes, nos últimos textos A.C., somos de uma cultura essencialmente latina-cristã, por mais que a nossa estética de vida não orne com uma igreja. Vejo como positiva a fé atrelada à espiritualidade, seja qual for a religião e, se descolada do limbo do partidarismo, melhor ainda;
  • uma regra básica: o Sapiens se diferencia dos outros animais também pela capacidade adaptativa. Isso vem das aulinhas básicas de Biologia de todos nós. Diante dos quase 8 bilhões de seres humanos no planeta, é real que muitos não terão condições estruturais de adaptação (não somente os brasileiros da base da pirâmide, como africanos e equatorianos, por exemplo) e outros tantos até tem estrutura material para isso, mas resistem, conservam e, por consequência, sofrem;
  • é preferível nos deparar com a real, mesmo que ela sempre nos traga um sopro gélido (seja A.C. ou D.C.), ou talvez aproveitar a oportunidade do momento para apurar este sentido, do que se manter como um dos três primeiros países a ter uma população com o menor senso de realidade. Até ontem, A.C., o brasileiro era um dos povos mais sem noção, estatisticamente comprovado;
  • noto valores retomando certas posições originais e, talvez, necessárias para o efeito / sentido do próprio valor. Acabei de citar que, com o esfacelamento forçado da polarização a partir de uma encrenca muito maior, “gente de esquerda” pode reaver o valor da fé (prioritariamente Cristã) sem que a própria máscara da polarização de esquerda force o desdém a religião. Outra: até ontem, a doutrina Lulopetista tinha manipulado o sentido das forças políticas, trazendo para uma nova geração abaixo dos 40 anos a ideia de que se não fosse o PT, tudo era de direita. Quando Lula e Renato Janine tecem elogios ao João Dória, nota-se o manifesto da revisão desses valores, quando – evidentemente – o Partido da Social Democracia Brasileira nunca foi de direita;
  • tenho notado, enfim, uma aceleração do empoderamento da centro-esquerda neste exato contexto de COVID-19, contexto esse que de uma forma ou de outra tem colaborado diretamente com o enfraquecimento da polarização. O empoderamento em si da centro-esquerda, ao meu ver, não quer dizer muita coisa, já que tenho centenas de ressalvas em relação ao governador de São Paulo, o João Dória, este que tende a encabeçar essa retomada centro-esquerda no plano federal. Porém, a degeneração da polarização, em si, é o bastar de certa miopia e a oportunidade, de novo, de um olhar mais racional, nu e cru, da realidade;
  • as instituições e profissionais, tais quais lojas e lojistas, escolas e corpo docente, restaurantes, padarias e seus proprietários, empresas prestadoras de serviços, entre outros, eram resistentes para entrar em sistemas online. É evidente uma “luta conservadora” em manter os padrões, principalmente da classe docente, visto que tenho acompanhado de perto as intenções e práticas da Secretaria da Educação em tempos de COVID-19. As questões para a não inclusão digital são infinitas. Mas o que fazer com elas quando o contexto não nos dá outra alternativa? Volto a capacidade adaptativa do ser humano, essa dádiva. Ela pode tardar, mas não falha. Ficará para trás com as infinitas questões quem não se adaptar. Um diferencial do Sapiens imersos na roupagem do século XXI (até mesmo antes) não diz respeito apenas a força física, da lei do mais forte pelos dentes, mas a flexibilidade mental, criativa e intelectual;
  • as cenas odientas de um punhado de bolsominions fanáticos, em suas manifestações na rua na semana passada, nos serve como um farol: “os filhos de Caim continuam a habitar o planeta” (ou escolham a sua metáfora). Acontece, apenas, que seus filhos brasileiros são caras-de-pau o suficiente para exteriorizar sem parcimônia. Mas tenho certeza que esse mesmo tipo de energia corre nas veias de seres humanos do mundo todo. Não é diferente dos psicopatas na Europa ou dos jovens armados nos EUA. Essa “sombra” que persegue certos homens nos acompanhará no “novo mundo” e penso que é melhor que se revele nesse tipo simbólico de escracho, com contornos tupiniquins, do que de outras maneiras;

Por fim e não menos importante, vai um dado personalista: há 19 anos eu não tirava férias que não ultrapassem 12 ou 14 dias. Estou tratando esse período como um momento sabático, não somente confiante na minha racionalidade e práticas materiais tomadas para manter a minha equipe empregada até agosto de 2020 o que me permite respirar um pouco mais, mas também, podendo reservar mais tempo para o contato com a minha espiritualidade, algo que fazia de maneira mais involuntária, a partir de estalos de intuição do que qualquer outra forma.

Diversas situações tem me levado a esse encontro agora, desde o momento de silêncio durante a leitura de um livro apropriado, as escritas que por aqui registro, o contato com meus bichos (que não são poucos: cachorro, twister mecol e peixes), o cuidado com as minhas plantas, uma música cantada e que exterioriza os meus sentimentos de alguma ocasião. Enfim, as minhas diferentes formas de bastar-me.

Do espírito niilista que se formava há anos A.C., vejo diversas instituições se reinventado a minha frente. Sair da zona de conforto se faz irremediável agora.

Do espírito animista que se formava há anos A.C., vejo a própria natureza impondo sua soberania para aqueles que, até um mês atrás, mantinham sua fantasia de onipotência sob uma poça de ego, nós Sapiens.

E da própria espiritualidade eu tiro a certeza de que vai passar. Mas não somente com o “vai passar” que está virando mais um chavão-gourmet-publicitário, repetição de nossos velhos hábitos. De que vai passar, teremos caminhos novos (e hipoteticamente difíceis porque a novidade tende a ser mais dolorosa do que prazerosa para o ser humano) e que um mundo melhor se estabelecerá por um tempo. Por um tempo, não porque sou pessimista, mas porque a natureza da gangorra, da montanha russa, dos altos e baixos é Universal, acima, ao lado, atrás, abaixo e a frente dos desejos do ego dos homens.

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