Poder interior

– Meu pai, com 28 anos teve que ser “expulso” da casa de meus avós para que casasse;

– Minha mãe, com 12, percorria 12Km de bicicleta – ida e volta -, para chegar até a escola e pelo prazer de estudar;

– Meu pai escolheu a profissão de engenheiro porque minha avó, em certa medida, esperava por isso;

– Minha mãe escolheu ser professora pela afinidade com a área;

– Meu pai tinha uma mãe bastante controladora e, embora meu pai pudesse confrontar, aceitava a maioria das condições que ela colocava;

– Minha mãe teve um pai que dizia assim: “fundamental estudar e ter uma formação”, a partir daí era por conta de cada um dos sete filhos;

– Meu tio virou engenheiro, meu pai também;

– Minha mãe foi a única dos irmãos a ter uma formação no tempo corrente;

– Meu pai tornou-se funcionário público, em certa condição de valorizar mais os ganhos e deixar um pouco de lado os prazeres do ofício. Até hoje ele é apegado aos ganhos em detrimento ao prazer;

– Minha mãe, em sua juventude, época que ser professor tinha uma valia na sociedade brasileira, ganhava bem e exercia algo que lhe dava prazer. Até hoje ela se envolve com aquilo que lhe dá prazer, embora saiba a importância de um dinheiro;

– Meu pai tem uma ótima memória. Armazena informações como um Macbook Pro de última geração;

– Minha mãe não tem o dom do raciocínio lógico. Lida muito melhor com as humanidades.

Todas as quartas saio para almoçar com a minha mãe para colocar nossos papos íntimos em dia. Na condição de amiga, quebrando o arquétipo da matrona, sabe dos amigos do Blog, sabe do Cris (1), Cris (2), do Yuki, do João e das minhas peripécias como solteiro. Já sabe também do Henrique, que ganhou relevância nessa arte dos encontros. Sabe que estou numa fase mais solta e reconhece: “você está bem”. Gosta de entender um pouco de certa promiscuidade que, as vistas de quem lê pode assustar: “com mãe não se fala determinados assuntos”. Mas a palavra “promiscuidade” certamente tem um peso e valor diferentes quando falamos sobre sauna, DST’s e autonomia de vida. Mesmo porque, como busco mostrar aqui, minha mãe é efetivamente uma amiga. Taí a tradução.

E mesmo que pareça o contrário, sou mais apegado ao meu pai. A energia entre eu e ela flui de um jeito tão sereno, tão livre e tão respeitoso e confiante que apego não faz sentido. Não existem condições em nossa relação, nem mesmo a de ser mãe. Já com meu pai, ah, papai… esse sim, se souber o que um dos filhos idealizados apronta, arrancaria os fios de cabelo que lhe resta. Porque para minha mãe eu vivo e para ela isso é viver. Para meu pai eu apronto porque ele é um cara que a vida toda aprendeu a se conter em caixinhas, sim, ditadas pela minha avó. Vira e mexe, quando meu pai está de cara feia, bate aquela sensação de que pode ser algo de errado comigo. Tudo fruto do apego.

Falar de papos íntimos com meu pai inexiste e não foi por falta de tentativas. Antigamente eu achava que isso era uma falha de conduta, da postura paterna que não cumpria a função. Julgava, recriminava e, muitas vezes, eu vinha com aquele discurso de indiferença, mas que no fundo era um poço de mágoa. Tenho muito dele da etiqueta, da pontualidade, da memória e da retidão quando tenho objetivos ou almejo algo. Mas tenho da minha mãe essa influência do pensamento abstrato que, a bem da verdade, hoje é muito mais forte em mim do que nela, não pelo fato dela estar envelhecida, mas porque a minha própria personalidade intensificou tal característica. É um pouco dele, um pouco dela e um tanto de mim.

Amo os dois sem medo de viver tal palavra. Com meu pai foi um amor construído, pois eu tive que escalar as muralhas de sua personalidade para, finalmente, entender sua intimidade, entender quem ele era (talvez, hoje, eu o entenda mais que a ele mesmo). É um menino ainda, com 74 anos, cheio de medos e apegos a ideais que não fazem nenhum sentido, ou bem pouco, no mundo de hoje. Ideais que um dia sua mãe falou e para sempre tomou como verdade; abandonou boa parte de seus próprios. Com meu pai eu aprendi a exercitar uma grande paciência porque, a todo momento, sua criança interior sai da toca para cutucar com uma vareta de madeira. Em outras palavras, papai adora dizer das verdades de seu mundo, tal qual o Japão é o melhor lugar do universo, que a Globo é a maior porcaria, que a juventude hoje está perdida e que o passado era melhor do que o presente. Tudo isso poderia ser sintoma da velhice, mas não. Papai é assim desde que eu tomei consciência. Ele quer privilégios e cobra de um “altar” que nunca nos fez sentido.

Com minha mãe foi e tem sido um amor inato, algo que flui, que não apega e não condiciona. Se estou com ela para almoçar nas quartas e estou com eles para levá-los aos sábados pela manhã para passear é porque chegou uma fase da minha vida que, se eu não tomo a atitude para criar a situação, se perde a noção da relação de pais e filhos ou sobra apenas para a época do Natal. Eis o mínimo suficiente para a minha mãe. Poderia ser até menos porque o amor que temos um pelo outro reside dentro da gente. Para o meu pai, fatalmente, faço “de menos” e se dependesse dele eu estaria ainda morando sob a suas asas, sob o seu controle. Vira e mexe, ainda hoje, espera de mim algum comportamento ou atitude que, em sua cabeça, faria todo sentido vindo de um filho. Mas nunca sei qual é essa ação pois ele vive esperando acontecer, mas nunca diz o que é.

Meu pai sempre teve uma natureza para criar dependentes. Tem uma personalidade de acreditar menos em si e mais no que os outros vão dizer. Adora comparações e, desde criança, comprou os ideais da minha avó. Eu poderia culpá-la por ter feito um homem tão apegado e amedrontado. Mas não acredito nessa lógica, de bandidos e mocinhos. Papai quis comprar aquilo que quis e leva em si até hoje o que quer.

Minha mãe sempre teve uma natureza para dar vazão as escolhas. Tem uma personalidade de acreditar na autoria que cada um constrói durante a vida. Raras vezes cai em comparações depreciativas e, quando faz, tem um filho aqui para lembrá-la: “isso é você ou é um jeito de pensar fruto de um convívio com o pai?”. Poderia agradecer ao meu avô por ter feito uma mulher tão sábia e disposta à diversidade dos modelos. Mas acredito nessa lógica de mentores e aprendizes até a página cinco. Mamãe quis comprar aquilo que quis e leva em si até hoje o que quer.

Estou falando, basicamente, do nosso poder interior. Sou o que sou pela soma das minhas experiências, das influências de papai e de mamãe, daquilo que me expus ou me contive. Mas mais do que isso, sou o que sou por uma natureza particular, interior e intransferível que me impulsionou a seguir por determinados caminhos. Já sou muito além do meu pai e da minha mãe e me sinto muito bem com isso.

O fato é que não existe melhor ou pior, mas somos frutos irremediáveis de nossas próprias escolhas, seja nos contendo, seja avançando. Isso tem a ver com fé.

5 comentários Adicione o seu

  1. André Galvão disse:

    Olha eu aqui novamente rsrs, boa noite mais uma vez Flavio!

    Cara, que delicia ler esse texto. Em nossa formação sempre tende-se a usarmos como referência os nossos país, não que se tende, é que na realidade são as pessoas mais próximas a nós e que quando pequenos eles é que empõe as regras, e dizem o que é certo ou errado, e com isso vamos criando a nossa personalidade, a nossa visão da vida.

    No entanto, mesmo com essa base, á partir do momento em que começamos a ir para escola, conhecemos novas pessoas, iniciamos e observamos o mundo ao nosso redor, e se inicia a nossa própria visão, damos início as nossas experiências de vida.

    O que aprendemos com os país, é importante, acontece que através dele adquirimos e evoluimos o nosso pensamento e assim a vida vai dando seguimento e construímos o nosso mundo e ideiais.

    Como disse em um comentário de outro texto teu, a vida é curta e passa rápido, o que devemos fazer e usar como principio é seguir e evoluir sem ferir á ninguém e nos conhecermos a cada dia mais e a cada novo dia se permitir á vida e buscar a felicidade dia-a-dia.

    O mundo já é demais por complicado, para que querer complicar mais não concorda? Devemos simplificar mais e não ficar somente seguindo regras e regras, ou que alguém um dia falou o que era certo ou errado, afinal, o que para mim pode ser certo, para você pode não ser!

    Vejo em você a sede de viver, a necessidade e vontade de se descobrir diariamente, continue assim e sempre com seus ótimos textos.

    Abraços

  2. minhavidagay disse:

    Oi André Galvão!

    Muitos “Andrés” preenchendo os campos do MVG. Coincidência interessante…

    O último parágrafo do seu comentário é exatamente isso: busco exaltar uma sede de viver e uma vontade de descobrir diariamente. Feliz por saber que alguns dos leitores sacam essa ideia, desprendidos das inquietações pessoais!

    Não estou aqui para ficar exibindo meus grandes feitos, mesmo porque, quem acompanha o MVG sabe muito bom das tempestades que passo em vida. Mas a ideia é trazer um ar positivo, pra frente, de superação. As vezes, pelas coisas que compramos porque queremos e o que levamos pra gente, focamos demais no lado sombrio e triste. Ok, isso é humano, mas não é só isso. Precisamos seguir, precisamos de coragem e nas curvas da vida, nos altos e baixos, estou exatamente nesse momento inspirado para trazer essa energia a quem compreende.

    Você é mais um deles. Obrigado!

    Um abraço,
    MVG

  3. André disse:

    Olá Flávio, mais um “André“ para o cometário desse texto, e que diga-se de passagem estava “delicioso“ de se ler.
    Cara como é bom entender e compreender o universo das pessoas, ainda mais se essas pessoas sao parentes, ou antepassados como avós ou bisavos etc. Se voce quiser se entender entao busque mesmo sabe as historias deles, Nao sei onde li, mas achei interessante alguem falou essa frase e me veio agora a lembrança que somos “ Uma versão melhorada dos nossos pais´“. É esse seu texto faz todo sentido com essa frase Flávio. Voce se mostra um cara que esta em busca de se conhecer mais e melhor e se permitindo a viver a sua vida de forma diferente da qual seus pais um dia pudessem imaginar. Tenho certeza que assim como sua mãe, seu pai também se orgulha a pessoa que voce se tornou, e vem se tornando. No fundo ele sabe que deveria talvez ter seguido por outro caminho, sem ter que ser manipulado pela mãe. E voce nao foimais uma cópia dele e ao pouco cedeu aos seus mandos e sonhos.
    Como diz gonzaguinha em sua letra mais que otimista e motivadora: “Viver e nao ter a vergonha de ser feliz….cantar e cantar e cantar a alegria de ser um eterno aprendiz´´!!

    Obrigado pela honestidade de seu texto!! :)

    André Luiz.

    1. minhavidagay disse:

      É exatamente isso, André Luiz… ir atrás dos sonhos, continuar seguindo, construir e reconstruir propósitos sem medo de ser feliz, embora no caminho para a felicidade, e novas felicidades, existam as sinuosidades, os tombos, as frustrações, decepções e tudo aquilo que também nos humaniza.

      O resultado é que a gente cresce muito!

  4. André disse:

    Mais um André! Haha, gente são muitos por aqui. Fazia tempo que não visitava o blog, e hoje após uma desilusão amorosa, bom na verdade terminamos ontem, resolvi ler algo e lembrei do mvg. Texto maravilhoso, fiquei até emocionado ( ando meio emotivo por conta dos últimos acontecimentos rs). Aproveitar e fazer um gancho com a situação vivenciada por mim: estávamos muito bem, ate que ele toma uma decisão influenciado pelos pais, decisão esta que nos afasta, talvez pra sempre. Desculpem-me citar algo de cunho pessoal, mas acredito que cabe na discussão do texto. E como disse o Flávio, cada um compra e leva consigo o que quer. Fiquei, na verdade estou muito com o término, mas é preciso respeitar, apesar de não compreender. :(

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