Ponto de virada

Quando é a hora de virar a chave?

Conversando com meu professor de japonês, que é amigo e gay, narrei a ele a história que começou com (o novo) Rafa. Começou em termos pois, se não me falha as contas, estamos saindo faz quase dois meses.

Eu com quase 40 anos e por mudanças significativas e particulares na maneira de me relacionar, o término de meu último namoro, com o “Beto”, não foi marcado de “sexo, drogas e Rock’n’Roll”. De maneira bastante desafiadora, resolvi dessa vez ficar tranquilo. Tinha (e ainda tem) um tcc para preencher meus tempos livres, regado com uma lista de mais de dez filmes; agora faltam três. Teve minha família, meus amigos, meu cachorro e a ausência de vontade de me “jogar”. Fui interagir pelos apps, tais quais Hornet e Grindr, só dois meses depois do fim do namoro. Instalei antes, dava uma olhada, mas ficava uma sensação estranha: “que preguiça”.

Quando essa fase, nem de me jogar, nem de me enclausurar de maneira “celibatária” devido ao término de uma relação bastante intensa acabou, me prestei a interagir com os itens do cardápio dos apps. Fase bastante low profile e nova também. Foi a primeira vez que as pessoas que vinham com interesse só por sexo lia assim: “desculpe, minha ideia não é apenas sexo”. Lancei essa frase dezenas de vezes e que bom ter essa autonomia.

Eu tinha algo em minha mente e creio que era fruto da vontade de me relacionar de maneira diferente, fruto de uma nova etapa de vida: “não vou me jogar. Não quero ‘putiar’. Até realizei uma única tentativa e, basicamente, não reconheci o ambiente que tanto havia frequentado no passado. Também não quero sexo com todos os mais bonitinhos que aparecem pelo aplicativo. Quero me sentir envolvido por alguém e, embora essas coisas não se definam com a vontade racional, vou ficar de boa para ver o que vai rolar”.

E assim o fiz, de um jeito que não havia acontecido antes. Então, entre um caso e outro, surgiu o Rafa. Puxou a conversa de um jeito bastante despojado e divertido e foi aquela forma que me chamou a atenção. Quando aconteceu da gente se encontrar, eu o esperava, ele atrasou e logo que eu o vi, veio uma percepção diferente. Positiva. Nesses quase dois meses, perdi a conta de quantas vezes nos encontramos e posso arriscar que mais vi o Rafa do que meu próprio ex-Beto durante quatro meses (rs). Essas percepções, da positividade, de se sentir a vontade, talvez se adquira com o tempo ou com a experiência ou, quiçá, com o desenvolvimento da espiritualidade.

A partir do primeiro contato com ele, é nesse ritmo de presença e ausência que se mede o quanto se está disponível para conhecer uma pessoa apenas e o quanto isso é o suficiente. A história é conduzida por sensações e vontades e não por marcações do tipo: “nos ver pelo menos três vezes por semana, mandar mensagem de manhã, a tarde e a noite obter um ‘relatório’ do que se passou no dia e depois de algumas noites juntos, pedir em namoro”.

Não me apetece mais os protocolos culturais. O foco são as sensações.

Daí, qual é o momento exato que a gente sabe que dá para se desconectar dos “pingados de pessoas” para ver a real com apenas uma? Ah sim, falava do meu professor de japonês no começo do texto e foi sobre essa questão que ele levantou algo interessante: “nossa, precisa de certa coragem para desconectar dos apps para focar só em alguém”.

“Nossa, precisa de certa coragem para desconectar dos apps para focar só em alguém” – que colocação diferente!

Achei esse ponto de vista curioso, que sugere certa “vulnerabilidade” em centrar a atenção apenas em uma pessoa, como se fosse um tipo de risco, uma zona insegura. Embora tal pensamento faça algum sentido a mim, eu venho de uma geração que este mesmo sentido não fecha a conta. Mesmo porque, convenhamos, namorei nove vezes.

Se, de repente, há um complementariedade o suficiente para focar apenas em uma pessoa, por que deixar “portinhas” abertas para outras? Focar em apenas em um não é namorar. Focar em um não é casar. Focar, me parece algo fruto de um sentimento/sensação de que estar com aquela pessoa tem valido mais a pena do que uma média, cujos critérios dessa média fazem parte de um caldo de subjetividades e sensações. Não está rolando carência nem a necessidade de dar um título. Parece também que vale certo “risco” do “pagar para ver qual é”, o que não representa a certeza racional da melhor relação de todos os tempos. Focar não quer dizer que o outro precise fazer o mesmo; aliás, é um tipo de situação que talvez nem tenha necessidade de se colocar na mesa. O fato é que eu me garanto comigo.

Eu estou gostando o suficiente do Rafa para ver o que pode virar. Se ele tem feito diferente, se há portinhas abertas, isso é algo dele que, por enquanto, não me diz respeito. Não desqualifica nossos tempos juntos, nem os momentos ausentes. Aliás, até agora, muita qualidade.

São apenas e quase dois meses e, para mim, ainda a gente está se conhecendo.

Quando se está bem consigo, com a autoestima no lugar, quando se conhece atributos e defeitos próprios, quando se tem controle dos excessos e se está livre dos modelos comportamentais que a sociedade e a mídia nos exigem, a gente vê um relacionamento com mais simplicidade. Simplicidade é uma palavra que define.

A gente vive o prefácio sem encanar.

Em particular, além dos atributos acima, o maior risco é eu “quebrar a cara”, não é? “Vai que ele X ou Y”. “Vai que existe outra pessoa na parada”.

Vai que! E esse é um tipo de prevenção que eu não preciso, pelo menos neste contexto.

Faz bastante tempo que eu não vivo uma relação pautada no real. Real, no sentido da baixa idealização que, por sinal, foi intensamente presente no namoro anterior. Real que sugere o dia a dia, o sentir quando se está junto, o sentir quando se está distante, atentos aos nossos afazeres diversos e individuais. Acho que a ausência de preocupação com o amanhã e viver a cada momento é o que eu mereço hoje. Faço isso por mim. Saí de um “tsunami” que envolveu intensidades na minha empresa, na minha vida pessoal e que até incluiu meu cachorro, doente (rs).

Viajarei em paz na primeira semana de dezembro! /o/

Estou gostando o suficiente do Rafa e não houve esforço nenhum para virar a chave para ver qual é apenas com ele. Se vai dar namoro, é como conversamos: “vamos deixar fluir, né? Se virar namoro, quando a gente notar, já é”.

É tão bom ter 40 anos e conseguir conduzir assim.


coach-de-vida-gay

Sou Mentor e Coach para o público gay e relacionados: pais, irmãos, amigos, entre outros e desde 2011 matenho o Blog MVG como meio de referência, trocas e vivências. Gostaria de uma mentoria ou coaching? www.lifecoachmvg.com.br

3 comentários Adicione o seu

  1. Abner disse:

    O mais engraçado ao ler esse texto é que: EU ESTOU PASSANDO EXATAMENTE PELO MESMO”. Eu e ele (Luquinhas) nos conhecemos ainda neste mês e nossa convivência está fluindo numa naturalidade tão boa que não é preciso de cobrança muito menos satisfações de ambas as partes. É bom conhecer alguém com os mesmos objetivos e ver que este “início de relação” esteja transitando por nossas vidas de uma forma tão desprendida e real, e saber que se for pra ser, será, apenas.

  2. neto silva disse:

    Mt bom ler esse texto agora que to em período de fim de namoro de 1 ano. Me deu um up!

  3. Alex disse:

    Eu tenho 25 anos e meu namorado tem 45!!! Já tivemos várias brigas !!! Sou apaixonado por ele !!! Uma paixão diferente que não sei explicar !!! Estamos juntos a quase 2 anos !!! Ae brigamos outra vez !! Mais agora dei conta que ele não quer voltar pra mim !! Estou sofrendo muito !!! Sinto falta dele e já nao sei o que fazer !!! Alguém pode me ajudar

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.