Por onde anda a bendita união?

Falar sobre homossexualidade tem muito a ver com falar sobre desunião, egocentrismo e egoísmo. Porque como gay, entre nós, há também uma avalanche de preconceito que nos fragmenta e, pior, nos distancia. De um lado os masculinizados, do outro os afeminados. De um lado as barbies, do outro os ursos e esses são apenas alguns exemplos. Convergência é uma palavra muito pouco praticada, no cotidiano, e estamos muito mais preocupados em defender com unhas e dentes o “time” que temos mais afinidade. Defendemos sem ao menos nos dar conta que promovemos essa barbaridade.

Voltei da minha mini viagem de férias, de novo, com muita energia. Principalmente aquela voltada para o trabalho, seja a minha empresa e o Blog MVG, que logo menos começará a despontar como um negócio com fundo agregador e de pertencimento. Claro que não sou louco nem ingênuo em achar que serei capaz de agradar gregos e troianos. Mas sei que as instituições atuais estão em franca decadência e me sinto capaz de reinstitucionalizar. Não é à toa que vivemos uma divergência tão grande nas eleições desse ano pois, a instituição que é a política está precisando de mudanças evidentes. Não é à toa que notamos casos “assombrosos” vindos dos núcleos tradicionais religiosos. Não é à toa que, até mesmo dentro de casa, nem pais, nem filhos têm conseguido se entender. Namorar, casar, ter filhos e viver velhinhos para o resto da vida também é um processo que está fortemente em questão, basta ver a quantidade enorme de núcleos tradicionais se desfazendo em detrimento à novas tendências.

Sinto, realmente, que é um tempo bom para reformular ou criar novas instituições, o que não quer dizer não beber de referências válidas do passado.

Para mim foi muito significante a visita que fiz no memorial do John Lennon no Central Park. Por incrível coincidência, sorte ou destino, fui ao local, com o Meu Japinha, justamente no dia que o John comemoraria 74 anos. O que encontramos por lá foi emocionalmente simples: um punhado de 30 ou 40 pessoas, reunidas, com violões e vozes (afinadas e desafinadas, femininas e masculinas, de adolescentes e senhores de idade) cantando em uníssono algumas das músicas dos Beatles e do próprio John. Primeiro ponto de emoção: me deparar com afinados e desafinados, mulheres e homens, jovens e pessoas idosas com memória, com respeito a uma história, fazendo reverência a alguém que foi preocupado com alguma coisa para melhorar esse mundo, não somente despejando críticas egoístas, mas praticando. Quando, onde ou com quem temos isso no Brasil? Alguém lembra da Elis Regina?

O nosso povo também precisa ter memória. Mas para isso é necessário cultura.
O nosso povo também precisa ter memória. Mas para isso é necessário um senso coletivo.

Respeito à memória e convergência ideológica são valores que faltam nos mais diversos grupos sociais espalhados por esse Brasil. Estamos, de fato, na maior parte do tempo desamparados, esperando um mínimo olhar de um cara interessante para mudar nosso dia. Carência pura. Afirmo que uma grande parte dessa baixa autoestima está vinculada a essa aura individualista da nossa cultura. Daí me pergunto: “cacete, onde está a nossa simples união?”.

Em 2013 eu, depois de relutar por um tempo, depositei algum crédito no tal gigante que tinha acordado em meio as manifestações em diversos territórios nacionais. Mas onde ele foi parar depois da Copa? Nos fragmentamos de novo, cada um com a sua camisa verde amarela (ou algo do tipo) em nossos subgrupos. A partir daí, parecemos adormecidos até agora. São tantas questões, tantos problemas espalhados em jornais, tantas críticas e ameaças de partidos em nossas timelines que nos sentimos perdidos. Mas, como “bons brasileiros” temos que tecer uma opinião normalmente rasa e autoritária (lembrando que autoritarismo é sinônimo de ignorância, ok?). Estamos perdidos. Nos falta foco, objetivo, coesão e, essencialmente, união. É tão cômodo e simplório manifestar críticas negativas nas redes sociais para alfinetar aqueles que são contra ao que pensamos. Duvido que no tête-a-tête, no olho-no-olho teríamos tamanha capacidade argumentativa para criarmos autoridade. E não confundam autoridade com autoritarismo, que são conceitos bem diferentes.

Os diversos grupos sociais estão perdidos, não somente aqueles que envolvem os homossexuais. Mas no MVG, a tentativa/referência é trazer um pouco mais de convergência para o público gay. Este é um foco, por exemplo, para se situar, para buscar uma consciência maior sobre o próprio contexto de um indivíduo gay também como um cidadão em meio a um grupo social. A ideia, aqui, passa longe de contentar ou entristecer leitores. A tentativa é de fazer pensar, mesmo.

Mas entre a prática e o falatório existe um fosso bastante grande e se não há ideal, objetivo e foco, a exemplo do gigante de 2013, a coisa se perde.

Estou falando de ideais que confortem pois a própria natureza do ideal traz esse tipo de sentimento. Ideais reúnem e enriquecem pessoas. Por mais que para fora apresentamos nossa faceta “selfie”, feliz consigo, da parte de dentro buscamos fugir da solidão, da carência e da baixa autoestima. Você conseguiria ficar uma hora sozinho dentro de casa sem a tevê ou a internet ligada? Conseguiria passar um hora com o celular sem bateria, sem ter que espiar no Facebook ou mandar um Whatsapp?

Quem sabe não esteja na hora de ir um pouco além? Sei que pensar cansa para uma maioria (e isso é uma provocação). Mas estou me referindo mesmo a uma minoria que, mesmo como minoria, são milhares ou milhões de pessoas. É hora de resgatar uma união que se perdeu por aí, em meio à modelos e instituições sem mais credibilidade.

Um indivíduo só não pode ser a própria instituição.

12 comentários Adicione o seu

  1. Rafa disse:

    Acho muito pouco valido ficar “comparando” costumes, comportamentos, e resoluções de povos diferentes, de nações diferentes, de condutas diferentes…

    é utópico, é improprio é ate me alguns casos descabido. Até prq “Imagine all the people, Living for today …Imagine there’s no countries, It isn’t hard to do … Imagine all the people Living life in peace” só existiu mesmo na cabeça do John.

    Tbm queria que fosse assim, mas cara, desisti … só aceitei a realidade pra conviver melhor dentro dela. A vida nao é feitas de sonhos ainda mais uma vida gay

    1. minhavidagay disse:

      Oi Rafael!

      Desculpe dizer… mas as pessoas que pensam como você não são as que transformam ou intervém nos modelos sociais.

      Mas elas existem sim: John Lennon, Steve Jobs, Gandhi, Martin Luther King, Charles Darwin, Chaplin. Até mesmo Abraham Lincoln.

      E no contexto gay, Harvey Milk, por exemplo.

      Não fossem esses caras, a configuração do mundo que é hoje não seria exatamente essa que vivemos.

      O mundo se modifica por líderes, não tem jeito. Agora cabe aos “gregos ou troianos” seguí-los ou não.

      Você já fez a sua escolha. Uma pena! Quem sabe não muda de ideia daqui um tempo…

      Abraço,
      MVG

      1. Rafa disse:

        “mas as pessoas que pensam como você não são as que transformam ou intervém nos modelos sociais.” … então vai colega, muda o mundo! vo ta qui esperando !

        E nao diga que nao tentei, que nao lutei, que nao tomei partido! …. só que cansa cara, cansa!

        chega um hora que agente fica vazio! e nessa hora tanto faz!
        ou vc se adapta ao mundo ou o mundo de aniquila. E nem adianta dizer que nao é vdd prq vc sabe que o mundo e a vida são bem do que simplesmente textos utópicos postados em wordpress ! até prq criticar é facil, classificar as pessoas em “gregas e troianas” é de uma baixa cognitividade impar… falar é facil, difícil é viver minha vida

      2. minhavidagay disse:

        Olha Rafa,
        peço desculpas se te ofendi em algum momento, mesmo porque os julgamentos iniciais foram seus.

        Fica claro que existe uma total divergência entre pensamentos. Respeito os seus, mas digo que seguirei em frente com os meus ideias, ideais esses que começaram há mais de 3 anos atrás com o Blog MVG e, penso sim, em desdobramentos.

        Espero que esse tipo de “raiva”, expressa em suas palavras (corrija-me se estiver enganado), fiquem mais amenas. Espero que você encontre as resoluções para suas questões, quando se refere sobre as dificuldades da sua vida.

        Um abraço,
        MVG

      3. Rafa disse:

        Bem no fundo eu tbm espero e … me desculpe tbm.

        Acontece que tem dias que é mais pesado mesmo ¬¬

      4. minhavidagay disse:

        Tranquilo! Estamos desculpados. :)

  2. lebeadle disse:

    “All we are saying is give peace a chance”, esse mantra incomodou os poderosos nos anos 70 que insistiam em conquistar o Vietnã por todos os meios possíveis e a isso se impôs a coragem de John Lennon que poderia estar simplesmente gozando a boa vida em New York mas, mesmo sendo estrangeiro, se envolveu fundo na luta contra a política de dominação dos EUA e a favor da paz, usando seu prestígio para mostrar a ignomínia das guerras. O gay liberation front surge nesse contexto dos protestos contra a guerra, dos grandes festivais de rock, da contracultura e da luta pelos direitos humanos das minorias – ou vulneráveis, pois na verdade essa minoria é a maioria – e como qualquer movimento social surge pela união das pessoas em torno de algo comum, neste caso a dignidade da pessoa humana, independente de orientação sexual ou identidade de gênero. Um ativista reconhecido mundialmente da luta pelos direitos dos gays é esse Harvey Milk referido pelo MVG, que chegou a San Francisco no auge da contracultura, se instalou com uma loja de fotografias no bairro Castro e, após muita luta, chegou a ser Conselheiro Municipal, um equivalente a Vereador, estando nessa função quando foi covardemente assassinado por um colega de Conselho que o odiava em virtude da homossexualidade.
    Acredito, saindo um pouco da narrativa histórica, que um ponto comum que pode unir o mundo gay é a busca por laços sociais que deem alegria à existência; um dia desses conversando com um cara ele se lamentava porque no mundo gay tudo ficava em torno da promiscuidade e no meio hétero havia a família, esposa e filhos, que faziam com que o sujeito não ficasse tão focado em aventuras. Discordei dele pois acredito que se pode constituir família no mundo gay, estão aí a união estável e adoção para mostrar, pelo fato de existir promiscuidade também entre os hetero e também porque acredito que é possível para os gays terem além do ideal de família o ideal de amizade, de constituir laços com pessoas para fruir do seu convívio e companhia, acho que pensar dessa forma já é uma pequena revolução e mais une do que separa e bendita seja essa união!

    PS: pra quem quiser conhecer o lado ativista de John Lennon recomendo esse filme

  3. Ferreira disse:

    Lebeadle!
    Parabéns pelo comentário! Também acredito que gays podem viver o ideal de família e amizade. Eu quero e sei que não estou sozinho.

  4. minhavidagay disse:

    Muito bem, amigos do MVG! São esses teores que reforçam nossos ideais.

    Abraços,
    MVG

  5. lebeadle disse:

    É verdade querido japa.

    PS: lembra de responder meu e-mail

    beijo

  6. minhavidagay disse:

    Lerei Lebeadle! Acabei de voltar de viagem e estou colocando os trabalhos em ordem… mas lerei! ;)

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