Por onde andei

Vira e mexe ultrapasso os assuntos de nossa homossexualidade pois – tirando o fato do gay ter que autoafirmar socialmente sua existência das maneiras mais diferentes, mistas, eloquentes ou confusas, espertas ou precipitadas e ser impactado por reações também diferentes -, vivemos uma mesma realidade social, coexistimos em um mesmo território nacional e, como indivíduos de carne e osso, teremos momentos de alegrias e tristezas por toda vida e independentes de qualquer categoria, grupo, classe, credo e etc.

Meu Japinha e – para quem lê essa maneira de me referir a ele pela primeira vez, trata-se do meu namorado -, está em Chicago, uma das cidades mais conceituadas quando o assunto é arquitetura, área que ele está se formando. Conseguiu entrar no programa sócio-educacional de nosso governo federal, “Ciências Sem Fronteiras”.

Bom que namorar com alguém que tem aproveitado desse benefício, me faz enxergar as entranhas dessa realidade da parceria entre países e sociedades, fora das especulações extremistas e partidárias.

Por um lado, eis que o projeto criado pelo governo da presidente Dilma, tem, idealmente, favorecido aqueles jovens brasileiros que estudam em universidades públicas, a aperfeiçoarem sua educação e currículo no “Ciências sem Fronteiras”. O governo brasileiro subsidia 100% da estadia do jovem no país durante oito meses, contemplando moradia, alimentação, “mesada” e ainda um valor “bônus” durante as férias de final de ano. Nos quatro meses finais, para completar um ano, o aluno tem que buscar por um projeto de pesquisa ou um estágio local. Caso não encontre, regressa ao Brasil depois dos oito meses.

A ideia original do projeto é bem interessante. É realmente um incentivo para que jovens brasileiros possam conhecer a cultura de outros países, aprendam a conviver com a diversidade de indivíduos de outros lugares do mundo, a dividir quartos, banheiro e etc., no típico estilo norteamericano, no caso de Chicago. Fora isso, vem o foco: os estudos, para o aperfeiçoamento humano e profissional que, dependendo de como cada jovem aproveita, fará diferença na hora de ingressar em trabalhos no Brasil.

Mas o ideal morre parcialmente por aí. E por qual motivo? Pelo próprio perfil cultural/educacional do jovem brasileiro, gay ou heterossexual.

Soube ontem que a universidade de Chicago em específico, no qual Meu Japinha tem estudado, sairá do Ciências sem Fronteiras. Por que exatamente? Dentre um ou outro atropelo do brasileiro, daquele “jeitinho” espaçoso e, porque não dizer folgado, 33 jovens burlaram as regras estipuladas, num acordo entre entidades brasileiras e americanas, e estão hospedados em apartamentos individuais que custam o dobro ou o triplo do subsídio. A entidade americana responsável averiguou, vetou e a faculdade se sentiu na responsabilidade de sair do projeto.

Fora isso, tem sido bastante comum alguns casos tipicamente brasileiros: fulana, que participa do projeto e escolheu uma universidade na França, resolveu deixar os estudos, propósito único e primordial do projeto, e decidiu fazer um “pequeno rolê” de três meses pela Europa. É por esse caso dentre outros iguais que para os jovens brasileiros de lá, o programa tem o apelido debochado de “Viagens sem Fronteiras”. Todos eles, entre si, sabem.

Não menos importante, foram dois ou mais casos de jovens brasileiros que – ao contrário da fulana brasileira em tour europeu – resolveram fazer sua “viagem” na própria cidade escolhida e acabaram extrapolando, morrendo hora afogado, hora excedendo em alguma situação muito “louca”. Contabilizando nesse bolo, há aqueles que estão por lá para “casar” com um gringo. Pode ser você, não é mesmo?

Diante desse contexto, é óbvio que vem algumas perguntas sócio-educacionais-culturais. Dentre elas, pincei duas:

– De que adianta a gente querer acabar com a corrupção dos governos, se a aura corrupta paira sobre a própria sociedade? Os extremistas se debatem como débeis no final e se acham ainda porta-vozes dessa gente;

– De que adianta a “Dilmãe” fazer agrados para seus filhos se eles, de fato, fazem desdém e, conscientemente, não estão nem aí para o verdadeiro privilégio do programa?;

Não me referi nem ao nível inferior de conhecimento, dos jovens brasileiros que chegam nas universidades estrangeiras participantes do “Viagens sem Fronteiras”. Isso é fato, notado por muitos professores locais.

Posso ser coxinha ou petralha. Tanto faz nessas horas. Fico muito satisfeito de ser um brasileiro que é além do brasileiro. Enquanto isso, a gente se acha muito “esperto” por ser assim do “jeitinho”.

Taí: por que eu e Meu Japinha, dois namorados gays passando pela situação da distância por um período relativamente longo, aguentamos? Por que esse tipo de coisa dá certo entre a gente? Porque temos propósitos sem jeitinho, sem dar aquela “escapadinha”, aquela “folgada”. Lealdade é a palavra que cabe.

No dia 25 de dezembro estou embarcando pra lá. Depois vamos para São Francisco e Las Vegas. Está aí o tipo de gozo, independência e retidão que, quando a gente faz com jeitinho, não se tem o privilégio de saborear. Tem um sabor incrível, posso afirmar.

Isso é construção de vida que vem lá de trás, quando tinha 23 anos, assumi uma empresa e resolvi me desprender dos “jeitinhos”. Falo com um baita orgulho e protegido, sim, dessa vibe de merda. Indignação sim. A gente não precisa encontrar culpados, pais, amigos, para ser assim. Basta a gente querer mudar.

Apesar de um texto com final escroto, está aí o incentivo. Não dá pra passar a mão na cabeça. Pelo menos, essa mão não virá do Blog MVG.

Valeu.

PS: antes que alguém imagine, o Meu Japinha está com o curso na faculdade em Chicago garantido até o fim. Não, esse post não é um desabafo por motivos pessoais.

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