Prazer pelo que se faz

Você sabe do que gosta?

Existe um grande problema entre nós brasileiros-latinos-cordiais, embora não saberia dizer com dados estatísticos, mas muitas pessoas não são (ou não foram) educadas para identificar e se aprofundar naquilo que se gosta.

O meu próprio sócio que, há 3 anos iniciou na minha empresa e veio de uma área totalmente alheia ao que atua hoje, foi questionado por mim nesse período: “você tem prazer com as coisas que você faz por aqui?”.

De imediato, surgiu a minha frente um grande cubo, com uma enorme interrogação em cima de sua cabeça (maior que qualquer jogo do Mario da Nintendo), como se – pela primeira vez – alguém estivesse o questionando isso, sobre o prazer pelo que se faz.

Trabalho necessariamente precisa soar como obrigação para a maioria dos brasileiros? É isso mesmo, produção?

Talvez, essa ausência de sensibilidade para se entender o que se gosta venha – de novo – desse “vilão” ocidental, latino, cordial e brasileiro: as pessoas focam demasiadamente nos fins, no dinheiro, na estabilidade financeira e deixam de analisar com calma, prazer e intimidade o meio, o caminho, aquele trajeto que realmente gostaria de seguir pelo prazer.

Steve Jobs

Esse ícone do empreendedorismo morreu precocemente, mas era um dos grandes porta-vozes dessa cultura do prazer pelo que se faz. Dava inúmeras palestras reforçando a ideia de que de nada adiantava objetivar riqueza sem olhar para si, atrás das camadas das influências externas, para descobrir o fenômeno essencial daquilo que (realmente) nos motiva. Do contrário, a vida seria composta de sequências sucessivas de frustração.

Tudo isso porque, em geral, as pessoas desde muito jovens, são conduzidas para seguir fluxos padrões, apontando essencialmente para um “universo superior do corporativismo” na vida adulta, das multinacionais, da estabilidade e do status que tais empresas inspiram. Na vida pessoal, sob a heteronormatividade, nem se fala! Cansado de escrever sobre isso por aqui…

É a mídia, filmes e seriados, a própria influência dos pais, dos amigos e, essencialmente, da bolha social a qual a criança pertence: se fulano da bolha ganha tal brinquedo, é para meu filho ter. Se cicrano faz tal curso, é para meu filho fazer. Se beltrano passa a comer tal alimento, é para meu filho também comer e se fulano frequenta determinados lugares, é para meu filho ir e, assim, a juventude, os filhos, vão se tornando passivos frente ao meio, sem opiniões próprias e na expectativa de um mundo que vai dizer para sempre, o que deve ser feito, copiado, seguido.

Mas o mundo não vai mesmo. E isso fará o adulto infantilizado sofrer, deprimir, murchar. No final, tal qual a cena emblemática de “The Wall” do Pink Floyd, a boiada segue idêntica numa esteira e despenca dentro de um moedor de carne. Estou falando de um filme da década de 70, queridos leitores.

Metaforicamente poderia ser assim.

Namorado professor

Já citei que, como meu namorado é professor do ensino colegial público, tenho uma enorme janela para poder espiar uma realidade que passaria longe da minha própria bolha. E isso muito me instiga e muito me orgulha pois, independentemente do contexto socialmente desvalorizado, ele esbanja o prazer de atuar naquilo que sempre quis.

O ponto que trago hoje, a partir dessa janelinha aberta, é a inspiração contrária as linhas anteriores, de vê-lo totalmente vocacionado, orientado e feliz em fazer aquilo que gosta. A maioria dos olhares neste texto tende a julgar: “professor do ensino público. Está fodido”. E esse “fodido” é, principalmente, no sentido da grana, não é?

É.

Grana, porque a cultura latina-cordial-brasileira coloca essa finalidade como prioridade. Ao passo que, Steve Jobs, eu e talvez meia dúzia que eu conheça (o que inclui meu namorado), entenderam desde muito jovens a importância de encontrar a gana (e não grana) sobre aquilo que se gosta.

O resultado é, por exemplo, uma sala que há 2 meses era frequentada por 4 ou 5 alunos no período noturno, conta agora com mais de 20. Alunos motivados e incentivados, envolvidos – basicamente – pela própria energia que move meu namorado. Além, claro, do conhecimento que lhe cabe transmitir.

Isso é ser professor. Do contrário, são pessoas que se intitulam “educadores” mas que, igualmente, se atiram no mesmo moedor de carne do Pink Floyd, cumprindo seu papel no próprio sistema.

Ensino público no Brasil

Foda-se Bolsonaro. Foda-se o baixo nível de incentivo da classe dos professores. Foda-se esses papéis e esteriótipos convenientemente assumidos e conectados. A grande maioria dos educadores (ou daqueles que se dizem ser e atuam em sala de aula) estão condicionados e acomodados nesse mesmo sistema que diz que os professores não são valorizados. E, assim, vestem a carapuça e não movem o dedo mindinho para aproveitar as escolas, que são definitivamente centros transformadores, para provocar mudanças em seus alunos.

As salas dos professores viraram grandes muros úmidos e empoeirados de lamentações, há décadas, desde o tempo em que minha mãe atuava. Esse comportamento moribundo também faz parte do sistema, desse mesmo que os próprios professores criticam. Mas são eles, peças integrais e influentes do mesmo, quando também, usam o receptáculo de ensino para reclamar e aguardar uma motivação de “Deus”.

E, curiosamente, não deixam de viajar para o exterior, tirar licença prêmio de 3 meses e se ausentar de dar aulas porque não se sentem motivados!

Mas pare um segundo: em um ambiente escolar não são os professores que devem ser os centros motivadores? Não é esse o papel pela ordem e conceito da coisa toda? Se não cumprem esse papel essencial, porque caralha estão nas escolas e se entitulam professores?!

Mãe e namorado, professores

Minha mãe, a época, quando ainda lecionava, dizia que ser professor era um sacerdócio. No sentido de que precisava gostar muito, mas muito mesmo, para ser professor.

Consigo enxergar esse prazer pelo que se faz no meu namorado. Efetivamente, faz toda diferença para ele e, por consequência, atinge seus alunos essencialmente pela motivação que reverbera.

Ele tem apenas 23 anos, prestes a completar 24 e tem um mundo inteiro ainda para somar em experiência profissional. Mas é possível dizer, diante desse sistema rígido, acomodado e passivo, que em apenas 2 meses (esse é o período que ele tem de atuação prática) tem conseguido reacender o objetivo fundamental de um professor dentro de uma escola.

Seus colegas têm torcido o nariz pelo fato dele encher uma sala de aula. Não por inveja, dele realizar um feito “grandioso”, mas porque uma sala cheia, para o próximo professor, dá mais trabalho.

É a caralha. Ao cubo. Mas quem disse que para irmos a fundo com aquilo que nos motiva não existem barreiras?

Eu contra o sistema

O sistema me disse um dia, quando eu tinha 22 anos: “venha para o mercado corporativo, da agência de publicidade multinacional. Você tem portfolio para isso! Adquira o status por estar numa ‘agência de marca’, lamber as bolas dos caras importantes, ter a chance de esbanjar trabalhos premiados nas caras dos colegas, entrar em competição com eles, orgulhar seus pais e familiares por ostentar tais dotes e solfejar ‘ingleisismos’ e as mesmas meia-dúzia de assuntos que todos se deslumbram ao falar, no meio”.

Eu disse não. Simples. E se passou pela minha cabeça se, eu não aderisse ao modelo, eu iria ser excluído e entrar num buraco vazio? Sim, com certeza.

Contudo, todavia, cheguei onde cheguei.

Faces da moeda

Com o texto de hoje, não estou negando que o sistema desvaloriza a classe dos professores. Isso é uma realidade sabida, conhecida e experenciada desde que a minha mãe fora atuante e que eu frequentei o colegial público por três anos. Estou falando de 1993 e façam os cálculos de como tudo está igual se não pior, desde então.

Eu não preciso ouvir reforços dessa verdade que é sacramentada e explorada, convenientemente, em épocas de eleição tal qual massa de manobra polarizada, a favor ou contra.

A minha crítica volta a essa natureza latina-brasileira-cordial, no aguardo de um terceiro ou quarto – externo – que nos dêem um empurrãozinho, como se fôssemos incapazes de encontrar as essenciais motivações que nos fazem bons e felizes em alguma coisa.

O fato é que a grande maioria dos professores do ensino público soma-se a esses, que enquanto aguardam motivação exterior, vivem de lamentos, de acomodação e jogam totalmente a favor do próprio sistema que tantos criticam. Tal educador não é um bravo guerreiro contra o modelo, mesmo quando aparente em épocas de eleição ou em uma manifestação do contra.

Ele é o próprio sistema, meus queridos.

Não é difícil fazer a diferença em um contexto árido como esse, da educação pública. Mas é fundamental ter prazer pelo que se faz. Isso, sim, é um despertar de poucos neste país, independentemente da área. E esse valor do prazer pelo que se faz transcende o aspecto profissional.

Abrange tudo.

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