Prioridades

Eu, gay, nessas horas tanto faz

Prometi entrar no ano de 2016 preparado para aceitar as condições nacionais. Como microempresário que visa o crescimento ou no mínimo a estabilidade, tive a dura, muita dura missão de aceitar mudanças indesejadas na minha empresa que viriam, mediante a um cenário econômico e político evidentemente desestabilizado.

Nessas horas, quaisquer questões hipotéticas pelo fato de eu ser gay perdem o foco e as variáveis que ganham valor são, por exemplo, (1) a entrada de dinheiro em relação à saída, (2) a quantidade e o fluxo de projetos, (3) o tempo ocioso (ou não) da equipe, perante o cenário atual e (4) o esforço para a manutenção de parcerias existentes.

É certo que todo começo do ano, aqui na minha empresa, o ritmo diminui. Estou acostumado com isso há tempos. O incerto é que, para mim e possivelmente para a grande maioria dos empresários, o ano de 2016 é um verdadeiro breu. Com isso, a equação fica simples: se não conseguimos enxergar o que está pela frente, preferimos nos resguardar, andar devagar com passos pausados. É como se estivéssemos numa estrada ao entardecer coberta por uma neblina densa.

Ok, todo o começo de ano para minha empresa foi assim. E se, por infortúnio da má administração governamental, for o ano inteiro assim? Se não conseguimos enxergar o que está a frente, deixamos de por em prática planos para nos resguardar. As empresas, em diversas escalas, deixam de investir.

Nesse contexto, por intermédio do contato com a minha contadora, que atende inúmeras outras empresas dos mais diversos segmentos, algumas deixaram de pagar o 13o. salário dos funcionários. Estão atrasados com impostos mensais. Estão deixando de pagar contas ou, na pior das situações, estão endividados com bancos ou agiotas. Porque, para piorar um pouco a situação, a cultura nacional não é daquelas que nos ensinou desde pequenos a poupar algum dinheiro para um momento de aperto. Eu mesmo aprendi a fazer isso nos últimos 5 anos e, para me tranquilizar, tenho lá alguma reserva para a empresa e para mim. Estou pagando tudo sem me enrolar.

Difícil foi aceitar que parte desse dinheiro teria que ser destinado para “tapar buraco” da conta do mês da empresa que não fechou. Mas aceitei isso no ano passado. E aceitei também uma redução no meu “pró-labore” (nome dado ao salário do dono de empresa) e a iniciar algumas demissões. Para uma micro com sete pessoas, quem eu deveria dispensar?

Nessas horas duras, de economia bagunçada, está aí uma árdua tarefa para o microempresário: eleger aquele que deve se retirar para que as contas mensais fechem. Terrível ter que fazer essa equação, mas racionalmente necessário. Quando a empresa é grande, profissionais são tratados como peças de um grande tabuleiro. Demite-se com muito mais facilidade e, para ajudar, não é o dono que o faz e, sim, um departamento de RH acostumado com essas rotinas. Quando a empresa é pequena, como a minha, as relações são mais intensas e os vínculos, por consequência, também. Não chega a ser uma “dor” da perda de um namorado, numa relação “gay com gay”, mas nos exige muito mais do que o departamento de RH (rs).

Assim, quem eu devo cortar? Aquele que me custa mais? Aquele que está mais ocioso? Aquele que, na relação custo e benefício traz a empresa menos resultados? Matemática fria e cruel que, nesses momentos de crise, seja no Brasil ou na maioria dos territórios do mundo, se faz determinante para um tipo de sobrevivência.

Nessas horas passam inúmeras reflexões e pensamentos na cabeça do empresário. Pelo menos na minha. Passa bem rápido para aquele que está mais acostumado com tais procedimentos ou passa devagar, para aquele que nunca ou quase nunca teve que dispensar alguém. No âmbito de negócios, eu sempre preferi ser dispensando a dispensar e, tudo isso que é cortar gente, envolve o custo do profissional na equipe e o quanto este indivíduo faz valer o investimento. Matemática cruel, mas o que conta no final, nesse cenário ingrato de nossas próprias escolhas (lembrando que o poder democrático se faz valer na hora do voto) é o quanto a pessoa está valendo diante da situação. Em um contexto economicamente saudável, de crescimento, é o meu jeito querer investir e insistir em profissionais, mesmo que eles não estejam no ponto certo ainda. Mas agora não dá. Agora não dá para aplicar meu jeito de administrar em detrimento à necessidade de racionalizar. É parte daquelas condições da vida que a gente quer evitar ao máximo, mas é parte.

De qualquer forma, espero que nunca seja fácil demitir alguém. O que importa eu ser gay nessas horas e em outras horas também? Cada um sabe lá de suas prioridades, embora tal palavra “prioridade” seja tão (estranhamente) praticada, as vezes.

 

3 comentários Adicione o seu

  1. neto silva disse:

    Esse seu texto me fez lembrar dos gays republicanos dos EUA. Me parece que eles , em nome de uma economia mais fortalecida para consumir, deixam de lado a reflexão sobre o que é ser gay , os direitos dos gays e etc. Eu percebo muitos gays “republicanos” aqui no Brasil. Eles priorizam o direito de consumir em detrimento do direito de viver sua homoafetividade. Como se uma coisa negasse a outra. Mas me parece que de fato uma nega a outra, sim. Vejamos: os partidos de bandeira vermelha desdenham do consumo, do capitalismo, no entanto tomam para si lutas pela igualdade de gênero. Eu percebo que seu texto é muito sintomático de uma sociedade que ainda guarda resquício da guerra fria. De um mundo dividido em dois: Direita/esquerda. Eu acredito que o gay republicano tem legitimidade e não vejo contradição nisso. Também nao vejo contradição em ser gay, mas priorizar um país economicamente estável. Em ser gay e ser empresário. A questão é que política de gênero foi tomada pelos partidos ou grupos vermelhos, de esquerda. Esses desdenham da liberdade de consumo. De um mercado mais livre. Percebo que seu texto é fruto desse contexto. Você não é gay, mas não é militante gay talvez por não se sentir representado no modo de ser da esquerda. Acredito que isso aconteça com os gays republicanos dos EUA. Eu escrevi isso pq também me sinto um gay republicano. Por isso não pense que to fazendo uma crítica. Longe disso. O seu texto revela um sintoma. E eu sinto que me enquadro nesse sintoma. Sinto que sou uma espécie de gay republicano.

    1. Pedro disse:

      Os “gays” republicanos que eu conheço são aqueles senadores americanos que votam contra os direitos dos homossexuais, mas que nos banheiros ficam “atacando” os caras, ameaçando os caras que transam com eles, tem famílias de comercial de margarina e aparecem com elas na Tv pra negar que sejam “gays”. E eles tem razão, não são “gays” mesmo. Tem até um documentário sobre isso, deve estar por aí no YTB.

      Metendo um pouco a colher nesta questão, e com todo respeito, acho que o MVG é do tipo de gay que participa daquele grupo de gays que são empresários chamado “Inner Circle”. Eles também se dizem não-militantes, mas só por se auto-identificar como “gays” os caras já são militantes de qualquer jeito, porque eles estão divulgando o modo “gay” de ser, do movimento homossexual americano, nem que seja no mínimo, mas de uma forma ou de outra eles ajudam a divulgar o movimento homossexual mesmo que indiretamente.

      Essa identidade “gay”, esse modo de vida, tudo isso é inerente às conquistas e são em parte, e foram, criadas pelo movimento homossexual dos anos 60, eu diria que esses caras refletem o movimento pós-Stonewall. Eles não querem “sujar as mãos” e participarem da militância homossexual, mas gozam dos direitos e liberdades adquiridas por este movimento que eles rechaçam.

      Eu não estou fazendo julgamento de ninguém, acho que cada um tem suas prioridades na vida, tem as escolhas que quiser. Eu particularmente não gosto de me intitular como “gay”, porque não me identifico com essa coisa toda da identidade forjada pelo movimento, acho que as conquistas do movimento homossexual foram e são muito importantes, mas eu acho que temos que superar esta questão, hoje a sexualidade humana é considerada tão diversa, tá na hora do pessoal começar a lutar por outras bandeiras, dentro da mesma questão da sexualidade, e não ficar adicionando mais letras ainda à sigla do Movimento LGBTTT.

      Mas é claro, ainda temos que avançar muito em relação a essa questão do homossexual. A violência física, psicológica e simbólica ataca a todos nós todos os dias, os direitos são negados, quer dizer, a vida de quem é homossexual não é nada fácil. Acho que o MVG assim como outros, conseguiram arranjar uma solução “burguesa” que funciona bem pra eles, ou pra vcs, ou sei lá pra quem mais, mas infelizmente não serve pra todo mundo.

      O fato é que a esquerda, não só no Brasil, como no mundo inteiro, no pós-Guerra Fria se apropria da questão homossexual, e é inevitável pensar em movimento “gay” e não pensar na esquerda. O mesmo eu diria sobre o movimento “queer”, que já é posterior ao movimento “gay”. E isso é claro, leva algumas pessoas a recusarem ou se afastarem do movimento.

      Sei lá, eu sou de opinião que as coisas precisam ser pensadas agora sobre um novo vértice, a sexualidade humana não se divide entre rosas e azuis como na política entre azuis e vermelhos. Existem muitas cores neste espectro, e acho que todos temos que parar de ver as coisas com esse maniqueísmo extremo, que afinal acredito eu que isso só exista mesmo nas novelas da Globo, ou nas fábulas contadas pelos políticos do governo e oposição e pela mídia brasileira, igualmente corrupta e podre.

      A maior crise que vivemos no Brasil é social. A economia sozinha volta ao seu lugar, com a condução correta, as crises fazem parte do ciclo econômico do capitalismo. Mas o Brasil sem dúvida é um país onde é difícil ocorrer estabilidade, é um país que tem um dos maiores PIBs do mundo, mas é de uma desigualdade social maior até que esse PIB (que todo dia naufraga). E fora que desigualdade gera desigualdade, e o resultado, com todo o respeito é essa “desgraça” que estamos vivendo hoje.

      Engraçado, a Europa e o Japão passaram e estão ainda em crise, mas a qualidade de vida das pessoas não foi tão afetada como no Brasil. Lá tudo é sempre da melhor qualidade apesar dos pesares, acho que ouvi isso em algum lugar, que o Japão parece que ficou alguns anos com economia estagnada (acho que com crescimento de 0% ou algo perto disso), e no entanto a população vivia normalmente, sem grandes problemas. Mas no Brasil não, as crises tem proporções astronômicas, porque apesar do país ser um dos mais ricos do mundo, a maior parte da grana tá concentrada, e o pessoal lá de baixo é o que mais sofre com isso, que é por sinal a maior parte da população brasileira.

      Um absurdo, aliás tudo é um absurdo. As coisas tem que mudar!!!

      1. minhavidagay disse:

        Oi Pedro e Neto,
        tudo bem?
        Em seus comentários, vocês levantaram diversos conceitos e temas.
        Na minha opinião, já que o texto instigou a levantarem assuntos sobre política, vou me focar em dois temas que eu considero principais, extraídos de seus comentários: a desigualdade social no país (e entre países) e a falência do sistema.
        Desigualdade social é e será o maior câncer, causador histórico de todas as quedas das civilizações. Muita riqueza na mão de poucos e pouco para se distribuir para muitos. Independentemente se estamos no topo, no meio ou na base da pirâmide, existe uma cultura geral enraizada que visa a riqueza e o sentido de poder. Ao meu ver, oprimidos – sim – sonham em ser opressores e não há uma visão translúcida sobre igualdade. Ou um capitalismo mais social como Japão ou Suécia.
        Ao mesmo tempo, o sistema está fragilizado. Será que o capitalismo está ruindo? Muito provavelmente, pelo menos na maneira que a nossa sociedade geral tem feito. Será que “azuis e vermelhos” e seus seguidores não fazem parte do mesmo caixote sistêmico? Eu entendo que sim.
        Vivemos a crise das instituições, incluindo partidos, religiões e até mesmo famílias (ou modelos familiares). Realmente acho ilegítimo os vermelhos se apropriarem do discurso a favor dos gays. Ao mesmo tempo que os azuis abarcam os ditados do evangelho. Tal esquisitice, no meu ponto de vista, é sintoma da própria crise da instituição, do modelo, do sistema e/ou caixinha que montamos – todos – para o Brasil. Tudo fundamentado num jeito brasileiro de pensar (educação e cultura).
        Diante desses pontos e outros mais, estou com quase 40 anos e não me sinto mais na responsabilidade juvenil de transformar alguma coisa com toda energia que cabe à juventude. O que eu pude contribuir – do ponto de vista social e ideológico – eu já fiz quando tinha 20 e poucos anos e entrei de cabeça no 3o. setor. Confesso que, hoje, entendo o próprio blog MVG como um meio eficiente para continuar fazendo. A autoria exclusiva me garante certo desencargo de consciência e os resultados, por intermédio do depoimento dos leitores, ao vivo ou à distância, sugerem que o Blog tem parte desse papel.
        Bem, sobre os diversos pontos que vocês levantaram, me ative a esses.
        Abraços,
        Flávio

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.