Qual a diferença?

Vocação para orientar pessoas

Sou gay, tenho 39 anos e busco hoje – quase na marca da meia idade – por novos desafios. Sou empreendedor desde meus 23 anos e proprietário de uma empresa de marketing (digital) e o fato de ser gay nunca me coibiu de liderar pessoas, servir clientes e estreitar contato com parceiros. São 15 anos.

Não satisfeito com uma, resolvi fundar mais duas! Era o “porra louca” que papai tinha medo (rs). Em 2006 ajudei dois jovens (um sem formação e outro com problemas para tirar o diploma) a estruturarem uma produtora de áudio. O pai desses meninos estava praticamente falido a época.

Eles são heterossexuais que, na frequência do contato, souberam que eu era gay e nada mudou até hoje. A mim não há problemas em ter uma fraternidade com homens heterossexuais. Muito bonitos, por sinal, esses meus ex-sócios.

A história começou com duas salas, era um estúdio para gravação e ensaios. Durante os anos a produtora foi trilhando outros caminhos, tomando outras formas e minha mentoria esteve presente até 2010, quando de repente, não faria mais sentido continuar. Eles seguiram com o negócio, mudaram de nome, mantivemos contato e hoje é evidente a realização construída. Tudo ao seu tempo e ciente de que a semente original foi plantada por mim também. Há um ano atrás, durante um almoço com o ex-sócio mais novo, tive a satisfação de ouvir dele: “lembra que você falava ‘x’ naquela época? Hoje eu entendo e faz todo sentido pra mim”. Tão bom perceber que, de alguma maneira, “o que eu falava” gera sentido a pessoas. Daí, percebi (humildemente) um legado.

Em 2010, meu ex-professor de violão chegou até a mim. Durante um almoço, disse assim: “Flavião, estou eu, o professor fulano e o professor sicrano naquela salinha na Vila Madalena, você sabe. Faz seis meses que estamos tentando transformar aquilo numa escola e só conseguimos trazer um aluno! Você não quer entrar na sociedade, não?” – assim, direto e reto, de um professor de violão e guitarra para um microempreendedor “porra louca”.

Tentador. A música sempre esteve ao meu lado em algum formato. Topei praticamente no ato e, por intermédio de bastante autonomia concedida e assim como fiz com a produtora de áudio, identifiquei as aptidões extra-musicais daqueles três e os orientei a funções administrativas. Ofereci minha mentoria, atuei na parte de marketing e comercial e em 3 meses estávamos com 20 alunos. Em seis meses, 50. Meu professor saiu da sociedade pois o espírito administrativo não lhe apetecia. Eu sai depois de estruturado os principais pilares e terei uma reunião de consultoria na semana que vem com os dois que continuaram e, igualmente, se sustentam dessa fonte que ajudei a moldar.

Os três são heterossexuais, eu sou gay, eles adoram aqueles papos “esculachados” de heterossexuais e, nem por isso, deixou de virar uma evoluída parceria. O jeito “ogro”, meio que natural/cultural de um hétero, nunca me pareceu uma ameaça, embora muitas vezes me dê preguiça (rs). Por trás dessas carapaças, presenciei com olhos, ouvidos e fala, suas fragilidades. Eu, gay, tenho os ajudado a se tornarem mais fortes. Empreendedores da própria vida, daria para dizer assim.

Mais um legado.

Na minha primeira empresa já passou muita gente. São 15 anos. Da “primeira geração” de equipe, a que ficou comigo por sete anos, eu virei padrinho de casamento. Conheci seu marido, de bom coração, emotivo, “bronco” e, consequentemente, de diversas intensidades. Fácil de criar intimidade. Ela virou parceira/fornecedora e, nesses dias, esteve comigo para tomar um café e trazer suas angústias em família diante do cenário de crise econômica. Desabafou sobre como seu marido é cabeça dura e que havia sugerido a ele de fazer “x” ou “y” para que as coisas melhorassem. Ele rejeitou.

Daí, disse a ela que “x” poderia ser uma boa por “a, b e c”, mas que “y” não era legal assim. Sugeri que ela falasse ao marido que eu estava validando “x” devido “a, b e c” e que achava que ele iria topar. Dias depois, conversamos de novo e ela veio desabafar: “ele fez ‘x'”. E eu disse:

– Que bom! Deu uma aliviada, né?

– Deu sim! :)

Depois, uma outra menina que trabalhou comigo por três anos (seu maior tempo numa empresa) passou numa entrevista na produtora de áudio, do meus ex-sócios (aqueles do começo deste post). A época, o mais novo veio me questionar por WhatsApp se eu a recomendaria. Disse a ele o porquê a recomendaria e o porquê não. Fiz o mesmo a menina, depois, reforçando a ela que fosse aberta na entrevista e dissesse quais eram suas qualidades e defeitos.

No final, não sabia se ela tinha feito a entrevista ou não. Resolvi mandar uma mensagem semanas depois e a querida veio assim: “deu tudo certo sim e estou no primeiro dia aqui! :)”.

Santa coincidência. Ela veio desabafar que estava se sentindo como nos primeiros dias na minha empresa, por ser uma área totalmente nova. Lancei algumas palavras de conforto, basicamente para autoafimar a ela seus talentos que são claros a mim e que raramente são claros a quem os tem.

O fato de eu ser gay, em tudo isso, é apenas um mero acaso, nada ou quase nada. O que eu percebi, de novo, é a importância do legado para com essas pessoas.

Meu atual gestor, igualmente heterossexual, tem um papel importante na minha empresa. “Braço-direito”, função que outrora foi dessa menina. O que me enche de satisfação é saber que ele é negro e sem formação superior. O que ele tem e que me inspirou para ele assumir a função, é vontade e uma “cabeça boa”. Cabeça boa, me parece suficiente e se traduz basicamente numa maneira de enxergar as pessoas, as relações, a vida. As vezes, nos reservamos a papos filosóficos importantes para ele, como indivíduo e para o próprio negócio. É motivacional e existe, assim, uma combinação que transcende qualquer etnia, sexualidade ou formação. Outro legado e o fato de eu ser gay é, de novo, um detalhe.

Os “amigos do MVG”, materializados especialmente no Matheus, Tiago, Fernando e Ericota definem com mais facilidade um dos principais propósitos que o Blog Minha Vida Gay assumiu. De tantos gays, simpatizantes, homens, mulheres, curiosos e heterossexuais que passam por aqui todos os dias, jovens de 14 anos a pessoas com mais de 40, me aproximei destes amigos gays para uma mentoria presencial, numa intersecção com a amizade. Certamente, foram dois anos de “função”, praticamente uma consultoria. Depois disso, já distante de suas conchas, cada um trilha hoje por caminhos distintos, da manifestação de expectativas e desejos particulares. Ajudei a limpar, lustrar e fortalecer suas asas que, antes, estavam definhadas.

Não seria esse todo o espírito do Blog Minha Vida Gay?

Nas minhas buscas e sob meus anseios e mudanças – também os tenho – descobri que a luz aponta para essas e outras pessoas que criaram intersecções comigo em algum contexto de espaço e tempo. Gays ou heterossexuais, pouco importa, no momento em que o fato de eu ser gay se tornou um mero detalhe em todo estes contextos. Assim como todos deste planeta, não nasci pronto, altivo e positivo como sou hoje, e “ser gay” e todas as nuances deste fato, todas as questões, tabus, crises e autopreconceito que existiram em algum momento no passado, foram realidades, a mim, e ao meu tempo superados. E se hoje me sinto mais emancipado, em um nível mais elevado de paz interior, de satisfação pessoal por esse legado acumulado e por outros, não seria a hora de ajudar de maneira mais eficiente, mais próxima, outras pessoas?

De repente notei que, indiretamente (ou mais direto do que eu imaginava), já tenho exercido esse papel.

Sei que não tenho vocação para “Madre Teresa de Calcultá” e isso nem está em questão. Estou longe de assumir um papel franciscano ou de um “Alto Pardal” e fundar uma religião. Mas há um tempo vem um desejo de fazer pela pessoa, pelo indivíduo por trás de sua sexualidade, profissão ou status familiar.

Como materializar um trabalho, cujo resultado final seja exatamente o mesmo tipo de legado, que leva o indivíduo a estar melhor consigo e com seu entorno? Que eu possa exercer profissionalmente e que eu possa colocar em prática todas as nuances que tenho em mente?

Assim, deixo uma segunda evidência de meu novo projeto, para quem se prestou a ler até aqui. :)

5 comentários Adicione o seu

  1. Hasten disse:

    Oi Flávio… a muito sigo o MVG, e posso lhe garantir, que fico muito feliz em ler suas publicações.
    As vezes até me sinto orientado por você. Parabéns!!!

    1. minhavidagay disse:

      Obrigado, Hasten! Fico bastante feliz pela gentileza das palavras!

  2. Evans disse:

    oi Flavio a pouco dias que estou lendo seu blog e muita coisa acaba que indentificamos com as vivencias gays que temos, tenho 27 anos novíssimos, acabei de completar ,mais já passei por altos e baixos como todo gay vive, preocupações, conflitos, relacionamentos, objetivos, ideal, missão e amor, é difícil mais ao mesmo tempos parece que nos apresenta uma maneira nova de conviver com nosso ego, e nosso verdadeiro eu, obrigado alguns dos seus textos me vez perceber algumas coisa em mim e também, me refleti com alguns valores que tenho. Abraços

    1. minhavidagay disse:

      Obrigado eu, Evans! Fico feliz em saber que com algumas das referências você se identificou :)

    2. minhavidagay disse:

      Evans, você é brasileiro?

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