Quero ser um bom adulto

“Há quem diga que viver por viver, deixando as emoções fluírem sem ter que pensar muito é o melhor a se fazer para manter a felicidade. Outros, em direta contraposição, dirão que a preguiça mental é o atestado da ignorância, que nos afasta do autoconhecimento fundamental para se manter a felicidade”.

Sei que boa parte dos leitores mais assíduos do Blog MVG estão na faixa dos vinte e poucos anos, quando não são mais novos. Por isso, esse post de hoje é especialmente dedicado a vocês, a começar pelo próprio tema que é “ser gay”.

Mesmo sabendo que hoje o jovem adolescente vive a homossexualidade com mais naturalidade, a consciência do próprio sexo é antecedida por um mar de tabus, tanto para o heterossexual como para o gay. Some algumas “camadas extras” de intolerância, preconceito, dúvidas sobre a aceitação familiar e a autorejeição para o adolescente homossexual duplicar suas questões e inseguranças, fora aqueles “jovens-adultos” com mais de 30 anos que ainda estão aceitando a própria orientação e nem se dão conta que não são, assim, tão bem resolvidos. Sexualidade (seja para o gay ou para o hétero) tende a ser um esclarecer longo e, as vezes, perpassa a vida de um adulto.

Mas adultecer tem disso: a tendência é se livrar dos medos que envolvem esse tema entre outros.

Outros como, por exemplo, as potencialidades. Se tornar adulto é alcançar parte de sonhos e desejos enquanto se é jovem, sejam viagens, um cargo específico, determinado ganho financeiro, relacionamentos afetivos ou uma elevação de consciência ou espiritual. Quando a gente vive a juventude, sonhamos com aquilo que ainda não aconteceu. Depois que adultecemos, possivelmente, já realizamos parte dos sonhos.

A grande sacada, pelo menos para mim que cheguei aos 38 anos é que, mesmo sendo adulto e eu ter vivido experiências na prática (aquelas que eu sonhava quando era jovem), as fases da vida te fazem enxergar sempre novas oportunidades, aventuras e descobertas. Um exemplo prático: aos 23 anos, quando acabava de sair do armário, eu e meu primeiro namorado conseguíamos dar umas escapadas, durante os finais de semana, para a casa que meus pais tinham no interior.

A novidade era uma soma de prazeres inéditos: pegar estrada com autonomia (que naquele tempo me parecia uma super viagem), ter piscina e conforto com meu namorado num local acolhedor e ver pores-do-sol românticos em meio a natureza. Gastávamos, sei lá, 50 reais cada um para pagar um pedágio, colocar gasolina no meu Ford KA, comprar comida para o final de semana inteiro e, ainda, cozinharmos juntos (o que era também inédito e muito prazeroso).

Tudo isso formava os potenciais e desejos que começaram a se estabelecer naquela época. Depois que vivemos, o potencial passa a ser experiência e ganhamos alguns pontinhos que vão acumulando dentro da gente, que vão nos adultificando.

Hoje, com 38 anos e mais saciado de realizar prazeres desse tipo, percebo que dá para fazer o mesmo, mas diferente: troco a estrada pelo céu, o Ford KA pelo avião, a piscina e o conforto da casinha de interior por um hotel na Patagônia e os pores-do-sol, por exemplo, vistos de um glaciar gelado em El Calafate.

Troquei hoje a cerveja (que na época poderia ser a Itaipava) por uma garrafa de um vinho chileno, que pode custar 30 reais, mas é vinho. Claro que posso beber uma cerveja da Skol ou experimentar aquelas de marcas diferentes, mas meu paladar, hoje, tende ao vinho.

Ok, falei apenas de um aspecto material que dá toda uma conotação de ascensão financeira. Embora tal projeto de crescimento seja sonho para uma maioria, não quero parecer esnobe. Então, um outro exemplo seria esse: com 23 anos eu iria até a praia para zoar. Paquerar uns gatos enquanto caminhasse a beira do mar, meio embriagado, meio fumado, dar uns mergulhões e – na medida do possível – entrar num frenesi social num barzinho. Se a região oferecesse uma balada, também seria uma opção para cair madrugada a dentro e acordar de ressaca no dia seguinte. Para curar a ressaca, mais cerveja na praia!

Hoje eu posso fazer exatamente isso, como faço de vez em quando, mas não é mais a condição. Tem vezes que eu prefiro acordar bem cedo, pegar um sol na praia antes do meio dia, fazer orações para Iemanjá enquanto mergulho, almoçar no horário certo, cumprir a minha dieta e voltar para a beira do mar antes do sol se por, não para bater palmas, mas para contemplar certo silêncio e solitude (mesmo que se eu estivesse acompanhado).

O fato é que, adulto, o jovem de dentro tende a mudar de gostos.

Algumas pessoas costumam a ter uma impressão equivocada de que se tornar adulto é envelhecer. Eu pelo menos tinha, quando vivia meus vinte e poucos anos. Tudo vai depender muito do nosso olhar, de nossa personalidade e da maneira que enxergamos o mundo. Nesse planeta, populoso e diversificado, “o certo” anda cada vez mais relativo. O texto de hoje não deixa de ser um convite para uma autoreflexão, numa vontade inspirada para que cada um de nós se permita a viver um pouco mais de autoconhecimento (da frase do começo, ah, eu opto pela segunda parte!).

Havia um tempo em que, para um jovem, ter a casa, o carro na garagem e ter uma família era o sonho ideal. A sociedade, orgânica como é, está bastante diferente hoje em dia. Por isso gostaria de concluir o post afirmando: “a melhor maneira de nos tornarmos um ‘bom adulto’, enquanto somos jovens e idealizamos, é nos permitindo a ouvir uma voz interior, dar vazão para os próprios sonhos, mesmo que – as vezes – para se chegar lá tenhamos barreiras e enfrentamentos”.

Boa viagem!

2 comentários Adicione o seu

  1. QUIQUE disse:

    sou gay maduro,peço orientaçaõ onde me relaciono com pessoas maduras
    quero um bom relacionanamento
    obrigado

  2. isso é tão inspirador, digo, eu me sinto as vezes tão mergulhado em vontades não feitas ou pensamentos não ditos, naquela grande bolha que eu as vezes me escondo que ficam meus arrependimentos, por causa da insegurança e da preocupação de julgamentos, naquela viagem psicodélica que é se auto conhecer, que enquanto eu não me sentia totalmente livre para ser quem eu realmente sou, o medo de amar, de sentir e aproveitar a existência e o presente. fantasmas do passado, de situações mal resolvidas que mudaram totalmente o curso da minha vida que eu me permiti chegar em uma energia de certa forma até auto destrutiva…

    enquanto eu pensava que eu tinha certeza sobre prever o meu futuro, o que vou fazer e como as coisas poderiam acontecer e acabo me flagrando nas surpresas que o presente guarda…. que acaba mudando muito a forma como enxergo a realidade, a sociedade, as relações, e principalmente: a mim mesmo.

    o problema é quando eu vejo que cometi o mesmo erro duas vezes, a velha frustração que derruba, da mesma maneira em paixões platônicas, até acabar desenvolvendo um sentimento mais forte, percebo e começo a sentir o amor…algo totalmente imprevisível e inesperado, inspirador e nocauteante, de uma forma cada vez mais única de sentir a realidade, de sentir o momento, de sentir o presente o passado e o futuro.

    uma looooonga história né? ;P

    nem acredito na sorte de ter achado esse blog! foda demais!

    abraços!

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