Quando é a hora de alguém entrar em nossa vida

Eis um post dedicado ao gay que não curte as putarias da vida ou que, enquanto solteiro, não deixa de criar conexões com um grupo de “colegas”. Tanto faz.

Quando é que a gente sabe a hora de levar um novo romance? Antes de mais nada, tenho muito consciente para mim que, para viver uma nova história com alguém, a gente deve se conscientizar de que não carregamos pendências do passado. Cenário ideal: sem expectativas com alguém que já passou, feridas e traumas de uma história mal resolvida, ou o não-perdão, o que faz a gente achar que alguém que entrou e saiu tem algum tipo de culpa ainda, dentro da gente. Tudo isso dificulta (demais) tocarmos a vida com uma maior autonomia e, de fato, estar aberto para uma nova entrega. Em outras palavras, querer ou não perdoar, querer ou não superar é uma decisão individual e podemos até ter aqueles amigos que validem a nossa condição e apoiem o nosso estado por terem passado por situações semelhantes. Mas tais consolos acabam nos acomodando no exato estado que nos encontramos hoje, caso a gente realmente queira tentar de novo.

“Desejo que você tenha quem amar e, quando estiver bem cansado, que ainda exista amor pra recomeçar” – esse trecho da música do Barão Vermelho traduz o parágrafo anterior e é algo que, naturalmente, “eu canto para eu” sempre que posso. Isso tem muito a ver com a autonomia que adquirimos de nossas próprias emoções e sentimentos.

Precisamos também abaixar um pouco a crista do nosso ego e ser mais tolerante para as negativas. Temos que aceitar o “não” que vem do outro, ou o “sim” que por ventura desmancha. Viver de expectativas de uma total compatibilidade com o outro é ilusório e desumano. Querer namorar é só um primeiro passo para conceber um relacionamento efetivo, caso você esteja obcecado por esse desejo. Dentre as nossas diversas tentativas, precisamos aceitar de coração aberto as diferentes naturezas, origens, formações e momentos atuais de cada pessoa. Aceitar, valorizar e respeitar. Como citei e reforcei nos dois posts anteriores, precisamos enxergar a pessoa a nossa frente com um teor de fantasia, mas com uma base de naturalidade e lucidez: todos somos dotados de virtudes e defeitos, interesses e desinteresses. Olhar para o outro e entender o que há por trás da fisionomia, dos gestos e, principalmente, das palavras é altamente valioso. Ficar “babando” logo num primeiro encontro tende a assustar! Uma pessoa de bem consigo tem critérios de escolha e, convém, colocar a frente nossos próprios critérios. Soltar aos poucos, devagar, sentir cada contato sem afobação, buscando entender quem é aquele “mundo” que se dispôs a conceder um primeiro ou uma segundo encontro é importante. Namorar “às cegas” só funciona bem quando os dois estão na mesma toada, o que é bastante raro.

Se dispor a se envolver sugere também que a gente aceite a condição do “eterno enquanto dure”, que nada mais é do que fazer valer a pena o dia de hoje. Ninguém vai garantir que amanhã as duas partes estejam gostando do mesmo jeito, na mesma intensidade e no mesmo ritmo. Eis um tipo de controle que jamais teremos, embora o nosso ego ache que tenha esses super poderes. “O amor supera todas as barreiras” – poxa vida, muito cômodo projetar a perfeição num “terceiro”, nesse super-herói chamado AMOR, mais poderoso do que o Goku. Desculpem, gente… isso é conto de fadas! A vida real ensina diferente.

Por isso, viver o dia após dia sem temer ou prever o amanhã ajuda a nos aquietar. Eis um tipo de paz no coração que não depende do outro, mas de cada um. O fato é que podemos passar anos juntos e perpetuar esse tempo para mais dois ou três anos, para uma década se for o caso. E pode ocorrer, sim, das pessoas mudarem tanto em um relacionamento, mudar os ideais, objetivos de vida e valores, que tal naturalidade tende a dividir os caminhos. Mas sábio é aquele que cresce com os ganhos do cotidiano da relação, sem buscar profetizar o imponderável do fim que pode vir ou não e, se vier, que venha de bom grado pelo crescimento que tiveram enquanto estiveram juntos. O mal grado do fim tem alto teor de egoísmo, da posse que não tolera a felicidade do outro se não estiver do lado.

Não podemos entrar num relacionamento para sofrer, para duvidar. A entrega pressupõe a confiança, caso contrário, é uma meia entrega, o que vai garantir – no máximo -, um meio namoro. É importante depositar confiança sobre os acordos que são feitos entre o casal que, no meu caso em particular, pode incluir um relacionamento aberto no futuro. Mas isso é particular e, embora exposto aqui, só dirá respeito a mim e ao meu futuro namorado no final.

A mesma confiança não tem que cobrar do outro o mesmo. Confia no taco e vai. Isso é a manifestação do amor próprio que, embora seja um tanto subjetivo, ajuda em muito o parceiro a te admirar. Admiração é uma das fontes do amor ou sou tão equivocado?!

Se a ideia é se aprofundar com alguém numa história, é natural canalizar uma energia na pessoa e nas situações criadas com ela. As vezes demoramos um ano para construir intimidade, quando não mais. Conhecer “o mundo” que é o outro leva tempo, energia, prazer, algum esforço e não costumamos dispor de tudo isso para compartilhar ainda conversas com o cardápio dos aplicativos ou com aqueles que pularam para o WhatsApp para uma fast-foda ou como uma outra opção qualquer. É importante aprendermos a resignificar tais contatos. Alguns ficarão, outros não e daí? E daí que você tem um mundo a desvendar, que é a pessoa que você resolveu dar destaque em sua vida. Essa resolução é sim uma mistura de emocional e racional, e a decisão deve ser tomada não pelo mundo que você escolheu, mas por você mesmo. Os “colegas” acabam virando ruído e, se alguns raros realmente se tornarem amigos, que ótimo. É necessário cortá-los? Claro que não. Mas saber colocá-los em outro lugar.

No mesmo cardápio, “amanhã alguém mais interessante pode pintar. E se aparecer?”. Como minha terapeuta comentou e reforcei sua ideia, nos tempos de hoje, “escolher o melhor” no cardápio não deixa de ser uma desculpa de quem está viciado na rotatividade e não consegue sair da zona de conforto. Lançar-se num novo romance não deixa de ser um mergulho num mar prazeroso, mas cheio de incertezas. A incerteza é o que torna a entrega algo divino.

De qualquer forma, quando o assunto é relacionamento, e depois de ter vivido as experiências que vivi – dentro e fora do Blog MVG -, não curto julgar ou entrar em juízo de valores do que é certo ou errado quanto as formas e maneiras de relacionar; só digo que vai muito além do “papai e mamãe” a toda eternidade como muitos esperam. Mas saber deixar-se envolver e ser envolvido, algo teoricamente básico das relações, não é uma prática tão simples em pleno século XXI e falo, aqui, para gays.

Que coisa, não é mesmo?

3 comentários Adicione o seu

  1. Marco disse:

    Mas bah!, nao sei se dependeste da região mas não vejo essa sangria desatada das pessoas em namorar por essas bandas aqui não.

    Pode ser também as pessoas do meu convívio mas não percebo essa “necessidade”. Na verdade creio eu que esse tipo de relação (namoro, casamento, morar junto – juntar os trapos como agente diz aqui) vá diminuir cada vez mais. Se é preocupante ou simples evolução já não sei, se bem que como dizes uma guria amiga minha:
    “enquanto houver TINDER, para que namorar” kkkkkk

    1. minhavidagay disse:

      Oi Marco!

      Acho que não tem a ver com região, mas sim com perfil de pessoas. Muitos leitores do Blog aparecem aqui com certa “sede” de relacionamentos ou frustrações enormes por não conseguirem entrar em um namoro.

      Nesse tempo de solteiro pude conhecer alguns rapazes do Sul, por meio virtuais, e percebi que muitos deles também – no fundo -, querem construir algo afetivo mais profundo.

      Mas achei ótimo você deixar seu comentário para que as pessoas percebam que existem diversos universos diferentes de expectativas numa mesma região, num mesmo país e no mundo.

      Estamos realmente numa sociedade cada vez mais líquida onde as ideias de relacionamento estão bastante variadas. Não existe mais uma única “caixinha”. E quer saber? Que bom que seja assim!

  2. André disse:

    Otimo seu Texto Flavio..e a unica coisa que me veio nesse momento foi a letra da musica “Grito de Alerta“ do gonzaguinha. Nao me pergunte porque… mas acho que a letra consegue traduzir um pouco o que me fez sentir.

    Primeiro você me azucrina
    Me entorta a cabeça
    Me bota na boca
    Um gosto amargo de fel…

    Depois
    Vem chorando desculpas
    Assim meio pedindo
    Querendo ganhar
    Um bocado de mel…

    Não vê que então eu me rasgo
    Engasgo, engulo
    Reflito e estendo a mão
    E assim nossa vida
    É um rio secando
    As pedras cortando
    E eu vou perguntando:
    Até quando?…

    São tantas coisinhas miúdas
    Roendo, comendo
    Arrasando aos poucos
    Com o nosso ideal
    São frases perdidas num mundo
    De gritos e gestos
    Num jogo de culpa
    Que faz tanto mal…

    Não quero a razão
    Pois eu sei
    O quanto estou errado
    E o quanto já fiz destruir
    Só sinto no ar o momento
    Em que o copo está cheio
    E que já não dá mais
    Pra engolir…

    Veja bem!
    Nosso caso
    É uma porta entreaberta
    E eu busquei
    A palavra mais certa
    Vê se entende
    O meu grito de alerta
    Veja bem!
    É o amor agitando o meu coração
    Há um lado carente
    Dizendo que sim
    E essa vida dá gente
    Gritando que não.

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