Quando é que vira amizade

Amizade entre ex-namorados é possível? Seja no meio heterossexual ou gay fica meio que convencionado que ex-namorados perdem contato. No meu ponto de vista, tal definição não deixa de ter uma forte influência cultural, fora os apesctos de apego e subtituições que normalmente viram um problema quando namorados terminam.

Naquele mesmo almoço com a minha Cunha, para quem tem acompanhado os últimos posts, ela viu uma foto da semana retrasada no meu Instagram, na qual estou com meu ex, o Beto, numa imagem engraçada e de título: “Cutucando o passado, presente e futuro”. Logo ela comentou:

– Pois é… terminou o namoro e já saiu com o ex…

– Imagina, Cunha… você sabe que mantenho uma boa amizade com o Beto antes mesmo de conhecer o Japinha.

– Ah sim, eu sei. Vocês são muito modernos e evoluídos, isso sim!

E foi nessa frase o quanto senti a convenção se manifestando novamente. Então, para ter um contato fraternal com o ex-namorado, a normatividade trata como evolução e modernidade, pois não foi dela a primeira vez que ouvi tais palavras. Muito bem, aceito de bom grado tais adjetivos. Não é à toa que tenho tatuado um dos termos no antebraço há dez anos. :P

Daí que nesse mesmo contexto, recebi essa semana o e-mail de um leitor, dizendo assim:

“Boa tarde.

Primeiramente, parabéns pelo blog. Eu sei que você deve receber esse elogio o tempo todo, mas realmente, é gratificante achar esse tipo de blog na internet. Estive passando por uma série de problemas de relacionamento nos últimos meses e quase sempre que eu tinha uma questão, seu blog tinha algum relato que me ajudava.

Tenho 25 anos e só fui me assumir gay aos 24 (ironia). Nesse mesmo período, várias coisas aconteceram bem depressa. Logo que me assumi, já estava tentando conhecer esse mundo gay. Contei pra uma amiga (que nem era assim tãaaao próxima, mas meu gaydar já me indicava que ela iria me entender) e já fui numa balada. Confesso que não é meu estilo, mas eu sabia que era um lugar pra se iniciar. Pouco tempo depois já estava com meu primeiro namorado. Inacreditável. Logo minha família já estava sabendo de mim e fiquei surpreso com o apoio que recebi. A vida parecia perfeita, finalmente completa…

Nas últimas semanas, eu e meu namorado estávamos brigando muito, e com muito pesar, ambos decidimos terminar depois de quase 8 meses. Acontece que, quase que automaticamente, o clima entre nós melhorou bastante. Então continuamos a nos encontrar meio que clandestinamente, tentando levar uma relação mais casual, porém ainda com fidelidade. Infelizmente esse paraíso também durou pouco. Ontem, 20/05/15, terminamos de vez.

Depois de todo esse relato vem minha questão: não acabamos por falta de amor, muito menos houve algum tipo de traição. A gente ainda se ama sim. Infelizmente, ele está passando por uma série de questões pessoais que o estão levando à depressão e o relacionamento não conseguiu aguentar isso. Achei que o mais certo seria, desta vez, o afastamento completo, sem meio termos. Mas ainda me preocupo muito com ele e não quero que nenhum de nós suma da vida do outro. Será que posso estender a mão da amizade? Infelizmente ele não tem ninguém pra achar apoio, nem na família, mesmo eles sabendo que ele é gay há tempos. Sei que tudo tá muito recente, mas será que eu posso deixar ele saber que eu sou um amigo? Li seu relato de como seus ex viraram amigos. Posso me aproximar ainda dele?”.

Descrito o relato, cá está meu ponto de vista:

Olá, F!
Tudo bem?

Como você já pode encontrar no Blog MVG, narro situações nas quais a ideia de amizade com meus ex-namorados foi bem sucedida e com outros que não. Antes de responder a sua pergunta “Posso me aproximar ainda dele?”, tenho que fazer uma consideração importante, fruto das vivências de relacionamentos íntimos e longos que tive: o primeiro ponto é que, decidido o término, seja com uma das partes aceitando melhor e a outra aceitando menos (isso sempre vai ocorrer, pois dificilmente ambos aceitarão na mesmíssima medida), é importante o afastamento. Sim, isso mesmo. Tanto um quanto o outro precisam aprender a recompor a vida sem o outro. Normalmente quando namoramos, mesmo que num tempo relativamente curto, criamos vínculos e/ou apegos. Gera-se hábitos e rotinas entre o casal.

Na psicologia (algo que tenho contato há 12 anos por intermédio na minha própria terapeuta), existe o termo “luto” em finais de relacionamentos. “Luto” é bastante apropriado pois é como se a pessoa tivesse “morrido”. Todas as rotinas, hábitos, frequências, entre outros do casal, deixam de existir. Precisamos nos acostumar com a ausência da pessoa e, por isso, o termo “luto” é bastante pertinente.

Nesse período, “ressuscitar” o ex não é bom pois a forte tendência é que velhos hábitos e tratamentos voltem e, aí, é como se você estivesse se relacionando com um “morto-vivo”. Parte desse morto-vivo supre as dificuldades, as dores e os vazios decorrentes do término e partes só vão atrapalhar (definitivamente) o processo de superação de ambos. Me fiz entender?

O tempo de luto de cada um é bastante particular. As vezes uma das partes leva semanas ou meses para superar, já a outra pode levar anos! Maduro, nesse caso, é respeitar o tempo de cada um sem tentar forçar a barra, como se a amizade tivesse que ser um compromisso, uma teima. Sei que tratar de tudo isso com tal naturalidade é bastante difícil por haver emoções envolvidas. Mas num cenário mais amadurecido, é assim que costuma a funcionar. Confiando numa certa mágica do tempo e da intuição para quando retomar contato. Se realmente for retomar…

Nesse mesmo período, o ideal é que ambos evitem “stalkear” (fuçar) a vida do outro. Redes sociais podem se tornar verdadeiras “vilãs” nesse processo, daquela vontade incontrolável, quase masoquista, de querer saber como o outro está. No luto, o que é mais difícil da gente aceitar é que o outro ainda vive, está revendo sua rotina, frequentando lugares novos e, pior, conhecendo pessoas novas. Até selfies podem incomodar. É muito delicado ficar sabendo das substituições que cada um está buscando para superar.

O segundo ponto que, ao meu ver, é definitivo para que ex-namorados construam uma relacionamento de amizade, é a maneira que se termina. Se uma das partes assumir um papel de vítima, dos melindres, do inconformismo pelo término ou julgando a maneira que a outra parte está tratando o assunto e criando ainda expectativas de um pelo o outro, dificilmente será possível construir um vínculo de amizade.

Quando dá errado: normalmente quando uma das partes ou ambas se sentem traídas. E quando falo isso, não precisa nem a existência de um terceiro elemento real. Se, por exemplo, uma das partes ficar sabendo que o outro está mais resolvido com o fim, saindo e conhecendo pessoas novas, normalmente bate um lance de “sentimento traído”. É como se houvesse a obrigação “mecânica” de ambos lidarem com o fim na mesma frequência e no mesmo ritmo. A gente entra naquele jogo do ego de que “o amor do outro acabou antes do meu” e não quer aceitar que de fato, os envolvimentos podem acabar sim em compassos diferentes e de formas diferentes! Isso é natural, humano, mas nosso ego – ah, esse maldito nessas horas -, tende a querer rivalizar e competir. É a velha história de ninguém querer sair por baixo mas que, se entrarmos nesses méritos, fudeu. Adeus amizade.

Quando dá certo: os dois que formam o casal compreendem os ganhos e os desgates do relacionamento. Colocam na balança de uma maneira muito mais pensada (racional) do que sobre intensidades das emoções. Respeitam a naturalidade do ritmo que se perde, do desejo que sai do compasso e, acima de tudo, de uma possível falta de sintonia ou frequência nas quais se encontram. Aceitam de uma maneira lúcida que as incompatibilidades se tornaram maiores do que as afinidades e, de fato, isso pode acontecer durante os anos. O outro está sempre mundando, você também e, ter domínio sobre essa realidade humana, nos isenta de muitas culpas ou responsabilidades.

Com base nessas referências, tente perceber a onde você se encontra em sua relação. Talvez todo esse falatório não te garanta a amizade com seu ex, mas uma tentativa de paz no coração fundamental para você seguir em frente sem culpas ou esperanças equivocadas. Acho isso mais importante do que o desejo em si de ter ou não a amizade. :)

Um abraço,

Flávio.

5 comentários Adicione o seu

  1. Sandro Bonassa disse:

    Concordo plenamente com o Flávio.

    Tenho amizade com ex namorados e namoradas, indo até mesmo em alguns casamentos.
    O luto é fundamental, uma vez tentei com um ex namorado este lance casual, funcionou perfeitamente por algum tempo depois foi um verdadeiro inferno.
    Nosso romance foi rápido porém intenso, hoje consigo ver que em muitos momentos ele foi falho comigo e eu com ele.
    Ficamos quase um ano sem de ver, um dia reencontrei ele em uma festa de aniversário, amigo em comum, eu namorando, deixe claro para o meu namorado quem ele era.
    Acontece que depois deste encontro voltamos a conversar, claro ambos cientes que nosso romance era e sempre será algo do passado.
    Outros anivaniversário incluindo o dele próprio, assistir jogos em bares, sempre com outros amigos e alguns outros com meu namorado junto.
    Hoje ele é um amigo, nada muito próximo, já me ajudou com material de trabalho e dicas, trabalhamos no mesmo segmento.
    Meu namorado ficou puto da vida no começou, como sempre com muita paciência , explique para ele, olha se eu quisesse alguma coisa com ele pode ter certeza eu iria terminar com você e correr atrás dele, porém ele é passado a história de amor com ele já terminou não tem nada de novo, apenas virou um amigo, igualmente ao Jr (outro romance rápido) que casou e fomos convidados.
    Tenho como grande amigo em ex pegada, cara mais velho que ajuda muito com assuntos de faculdade, também terei a pulga de trás da orelha do meu namorado.
    Enfim é possível ser amigo de ex, porém é necessário o tempo, viver sua vida e caso vire uma amizade próxima ou não ter a ciência que quando você arrumar outro Namorado você vai precisar de muita paciência para prova ao novo love que o antigo é apenas uma amizade, se não adeus relacionamento.
    Posso dizer que tenho sorte em driblar estas situações, já levei namorada em casamento de ex, e namorado em casamento de ex namorado.
    Também são quase vinte anos de estrada, com sucesso e tombos feios, com o tempo vamos aprendendo a jogar, rs.

  2. minhavidagay disse:

    Boa, Sandro!
    Com o tempo e vivências, definitivamente, vamos aprendendo!

  3. Felipe disse:

    Oi Flávio.

    Primeiro, obrigado por ter lido meu relato. Nem imaginei que isso viraria post.
    Bom, li suas considerações. Confesso que ta sendo a coisa mais difícil do mundo seguir o caminho mais maduro. Sim, nós terminamos em “bons termos” na medida do possível. Mas até falar a palavra desapego ta sendo uma tarefa impossível. Talvez por ele ter sido meu primeiro, eu esteja tao preso na negação ou barganha. Sinto que a qualquer momento eu vou tentar um contato com ele, mesmo tendo plena consciência que talvez isso me leve ao sofrimento. Já desabafei com algumas pessoas próximas e parece que eu sou o único se recusando a enxergar esse fim. Eu fico tao puto com isso, como duas pessoas que se amam tanto não conseguem fazer um relacionamento durar? Sinceramente, acho que vou acabar caindo no masoquismo, tentar falar com ele de alguma forma. Admito que nem sei direito o que dizer. O sentimento ainda ta muito forte. Foi um romance muito intenso, desde o início. Eu entendo que na sua visão, lidar com essa coisa de término deve ser feita de uma maneira mais sadia, mas é como você disse, isso vem com experiência e vivência. Talvez eu ainda precise errar mais um pouco antes de aprender…
    É que eu acho tao difícil nos dias de hoje você achar um amor realmente genuíno, tanto pra hétero quanto pra gay. Eu fico sempre sempre com essa pulga na orelha de talvez não ter tentado o bastante, deixar um sentimento desse se perder, deixar essa alma gêmea passar. O que eu mais queria agora seria reatar…Eu sei que esses pensamentos provavelmente não me levarão a lugar algum. Acho que é mais um desabafo de uma pessoa em luto. De qualquer forma, obrigado por tentar ajudar.

    1. minhavidagay disse:

      De nada, Felipe!

      Como você disse, talvez você ainda precise viver a experiência e fazer da maneira que te move. Super legítimo.

      Você ainda tem um envolvimento por ele diferente de amizade. Faça valer esse envolvimento então e construa a sua estrada de experiência.

      Boa sorte amigo!

      Abração,
      Flávio

  4. Sandro Bonassa disse:

    Felipe, você me permitir.

    Quando temos vinte e poucos anos tudo parece mais difícil, primeiro namorado é foda, sempre é romance intenso, carregado de sentimentos e aceitação, tanto a nossa como gay e da família em aceitar nossa sexualidade e nosso relacionamento.
    Quando acaba fica o vazio, lembranças o sentimento que deveria ter feito mais para salvar o romance.
    O tempo é o melhor remédio sempre, mas também devemos fazer a nossa parte, controlar o sentimento e deixar a razão falar.
    Não é tarefa fácil, quando somos jovens acacreditamos no felizes para sempre, amor infinito e cada tombo parece que o mundo esta em nossas costas.
    Porém devo confessar que nunca acreditei no felizes para sempre, muitas coisas durante minha infância e adolescência me ensinou de forma um tanto dolorosa que tudo na vida tem começou, meio e fim.
    Começo um relacionamento sabendo que um dia ele vai acabar, por algum motivo vai ter um fim,sou um bom namorado respeito pessoa, faço declarações de amor (poucas, meu negócio é estar presente, ajudar e orientar, segurar a mão quando a casa cai).
    Vivo minha vida com algumas filosofias,

    Apego só gera sofrimento. ( tenho um texto sobre apego fantástico vou tentar encaminhar para o Flávio publicar)
    Não existe felizes para sempre, existe momentos felizes.
    Felicidade é estado de espírito.
    Ninguém é insubstituível.

    Com o tempo aprendemos a cair com classe e levantar com orgulho.

    Desejo toda sorte para você.

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