Quântico

De certa forma, gays ou heterossexuais, merecemos as pessoas com as quais nos relacionamos.

De segunda à sexta e nos finais de semana, todas as vezes que eu despertava, parecia que a minha velhota-cachorra, a Pinna, sabia. É como se ela fosse capaz de ouvir o som dos meus olhos se abrindo ou o momento em que eu saia do estado de torpor e, rapidamente, ela sinalizava alguma coisa por intermédio de um ruído ou movimento, proclamando a minha presença.

Não diferente disso, é como se ela soubesse quando eu faria uma viagem mais longa: em seus últimos anos de vida, envelhecida, ela costumava sempre a ficar adoentada duas ou três semanas antes da viagem.

Com o Tango, algo já semelhante acontece: minutos antes de chegar em casa, parece que ele pressente e se aproxima do portão a minha espera.

O fato é que, quem há anos tem animais, como cachorros e gatos, e convive com eles com uma intimidade e atenção necessários, sabe que alguma conexão “extrasensorial” se estabelece, fugindo um pouco das leis exatas, racionais e matematicamente comprobatórias. Se estabelece uma sintonia, uma energia e uma conexão.

Daí questiono: seria diferente nas relações entre pessoas?

Quantas vezes a gente não ouve falar por aí, no discurso de amigos e conhecidos, que fulano atrai sempre o mesmo perfil de pessoas, que quando se relaciona, sempre se depara com os mesmo problemas, as mesmas características ou situações semelhantes?

Pois bem, eu parto do pressuposto que – sim – da mesma forma que animais de estimação conectam-se à nossa energia com a subjetividade que eu descrevi acima, essa mesma energia (que todos nós temos, mas que somente alguns acreditam), numa mistura de subconsciente e aspectos intangíveis (espirituais?), atrai perfis de pessoas.

Estive hoje com um amigo muito querido que, pela segunda vez, caiu nas “garras e armadilhas” de um outro rapaz. Trouxe a mim suas angústias, o inconformismo pela traição, falta de ética e desvalorização, semelhante, para não dizer idêntica, a sua relação anterior. Meu amigo, como da última vez, velozmente se colocou prestativo a esse novo namorado, fazendo-se de um bondoso parceiro, de até mesmo se exceder em ajudas (morais e financeiras) para que a vida do outro ficasse um pouco menos “pesada”.

Estabeleceram um namoro e, para sua surpresa, depois de meses, vasculhou provas concretas de que seu namorado, não completo apenas com ele, estabeleceu um segundo namoro e mais duas paqueras furtivas, ou “fodas-fixas” – como preferirem.

Não faz sentido entrar no juízo de valor sobre a traição em si nesse caso, já que a mim, como defino em outros posts, entendo o gesto de trair alguém quase que convencionado na cultura nacional e nas mais diversas esferas de relacionamentos por aqui. “Vilões e mocinhos” formam uma dicotomia que – a mim -, num contexto de relacionamento, é o “jeitinho brasileiro” de se isentar de responsabilidades ou definir culpados. É atalho, é mais fácil.

Aqueles que lêem o MVG há anos sabem que o culto ao vitimismo é tido aqui como parte de uma cultura subdesenvolvida.

Assim, meu amigo mostrou as “provas do crime” e não fiquei perplexo. Conhecendo o contexto de sua relação anterior, sabendo de algumas características e vivências do novo rapaz, narradas pelo amigo no começo de relação, algo me sugeria que – recair numa história macarrônica como essa de novo -, não seria improvável. Ele parecia ser diferente, mas não era.

Consolei meu amigo na medida de uma amizade, mas logo fui apresentando a maneira que ele conduz os próprios relacionamentos para que percebesse seus próprios excessos na relação:

– Desculpe, mas o seu fulano eu mal conheço. Se eu cruzar na rua não saberia dizer e, assim, não posso entrar em grandes julgamentos. Mas o meu amigo é você, que modestamente conheço bem, então é de sua parte nessa bagunça que eu posso comentar. Defender você diante gestos de traição, “lobo em pele de cordeiro” é fato, faz todo sentido e é justo. Mas vamos ao que realmente interessa: por que esse perfil de cara entra na sua vida?! Se a gente trocar o nome do anterior e do atual, o resultado é o mesmo, percebe?

Assim, fomos destrinchando ponto a ponto as atitudes e posturas de meu próprio amigo que, sim e não, justificavam se envolver por um mesmo perfil de pessoa. Deixei claro a ele a continuação dessa história, sugerindo o que ele faria na sequência e o que seria ideal fazer:

O que ele faria:

1 – Trocaria uma ideia, conferindo espaço ao outro para justificar (o injustificável);

2 – Com apego e medo do próprio rompimento, baixa autoestima e autopiedade, não deixaria claro a gravidade do caso, a indignação, e deixaria que as justificativas/desculpas o consolassem;

O que eu sugeri para o contexto em específico:

1 – Mostrar as “provas do crime” de maneira racional, deixando claro a gravidade do caso;

2 – Levantar e partir sem dar brecha para “justificativas”.

Mamãe sempre me ensinou que, na maioria das vezes, respeito a gente adquirire com nossas posturas e atitudes perante os outros, mas que, as vezes, respeito é algo que se impõe. Em certa medida, somos fracos quando não sabemos impor respeito.

Desconheço de fato os motivos, causas e efeitos que fizeram o namorado do meu amigo conduzir a vida afetiva de tal maneira e, ao mesmo tempo, não estou na pele do meu amigo, mas tenho claro seus valores, noção moral, cultural e intenções. Conhecendo-o assim, sem um choque bem dado, de se tirar o chão, questionei se o rapaz aprenderia uma lição ou traria para a consciência o pouco caso que ele tem com outras pessoas.

Como sugeri no post anterior, a maioria dos brasileiros nasce num contexto em que o desrepeito para com o outro (e a desigualdade que se gera por isso), no formato de traição por exemplo, é tão normativo, banal e corriqueiro que as pessoas não se pegam em “choques emocionais”, provocando-as a colocar na balança o que se perde e o que se ganha sendo corrupto (traição é um ato de corrupção).

Embora eu tenha revisto, particularmente, o quanto uma rigidez moral sobre a fidelidade me desgasta, na situação eu percebi uma outra pessoa, com outros valores e percepções de mundo, pelejando de novo com a sua própria desgraça de estar relacionando-se com alguém de valores deturpados (e esse adjetivo resolve bem).

Em suma, muito sofrimento.

Passado esse capítulo cujo desfecho minguará cedo ou tarde, voltei toda minha energia ao meu amigo, ele sim, responsável para que determinados perfis de pessoas entrem em sua vida. Eis o ponto: somos totalmente responsáveis pelas pessoas que entram em nossas vidas e igualmente responsáveis por aquelas que não queremos. Mas quando nos equivocamos e nos faz mal, mesmo que as vezes paressamos dependentes, precisamos aprender a ceifar. Tal postura, embora dura consigo, é a chance “quântica” de estabelecermos outras sintonias e alcançarmos uma emancipação de nossos próprios temores.

Taí de novo a Geni, do post anterior. Consentir num gesto de autopiedade/compaixão ou ceifar pela raiz? Quântico.

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