Quase 20 anos

Ontem rolou um encontro com a turma da faculdade. São quase 20 anos que nos conhecemos e resolvi trazer esse assunto hoje ao Blog MVG pois serve como boa referência dos caminhos possíves dos relacionamentos, quase como um complemento ao post “Tempo Aberto”, quando narro diálogo entre eu e minha mãe e ela se referia a norma principal, de que casais em sua época se formavam numa intenção de “duas metades complementares” e que hoje os formatos estão muito mais diversos, sem perder a legitimidade.

O André entrou em contato pela nossa comunidade no WhatsApp dizendo: “estou voltando para o Brasil de última hora. Quero ver todos vocês”.

Esse amigo sempre assumiu o perfil hétero garanhão, daquele estilo que muitos gays tem certa repulsa. Alto, forte, loiro e bonito, tinha como filosofia de vida cuidar essencialmente de sua individualidade e, embora muito fiel quando estabelecia relacionamentos, passou a maior parte do seu tempo curtindo a solteirice, viajando pelo mundo, baladas, trocas de emprego, amizades com o mesmo perfil e aventuras com muitas meninas. Assim foi até o dia que conheceu a Karina, sua esposa russa. A ideia não era “esposar”, até que de súbito, de maneira imprevista, veio a notícia: a menina estava grávida. Juntaram-se.

Foi uma surpresa imediata, quase surreal para todos do grupo quando se soube que o André era pai! Meu amigo, na faixa dos 37 anos, agarrou a causa e resolveu fazer uma visita ao Brasil. Esse foi o mote para que todos se reunissem ontem.

Foi a minha amiga Gi e seu marido Vini. A Gi, a mim, sempre foi a autêntica feminista, daquelas que realmente bato palmas: mulher de atitude, empreendedora, arrojada, independente, criativa e, principalmente, sem entrar no discurso de que “o homem isso e o homem aquilo”. Lembro de ter acompanhado dois de seus principais namoros anteriores e, todas as vezes, era ela quem de certa forma mantinha as “rédeas na relação”. Encontrou o Vini, cara bacana e pacato. Juntaram-se sem nenhuma oficialização e estão com um filho pequeno, um ano e meio.

Detalhe que, com o ex-namorado, ela engravidou. E resolveu abortar, lá na Inglaterra, país que residia na época.

Em conversa recente com a amiga, ela deixou claro querer um irmão para seu bebê, que acha importante o companheirismo entre irmãos. Mas tem altas dúvidas se vai querer de novo passar pelas dores do parto e todo o sacerdócio e desgaste dos primeiros anos de um rebento. Sugeriu ao marido que fizesse um filho com outra mulher o que, a princípio, poderia até ser uma brincadeira, mas a conhecendo, não vejo como impossível.

O Vini vive uma dependência material e financeira da minha amiga desde que tenho conhecimento dos dois juntos. Nunca se encontrou profissionalmente direito e, o que a princípio atendia muito bem as demandas da minha “amiga matriarca”, hoje, depois de oito anos, é o principal motivo de crise entre ambos, o que a faz colocar em dúvida (em conversa totalmente íntima) o quanto ela continuaria. As rédeas, em certa medida, está ainda em suas mãos.

A Babi foi junto com o Tuta. Eram namorados, um casal bastante engraçado pelas diferenças físicas e variações comportamentais. Babi, sempre muito querida a mim, embora criasse desafetos entre os integrantes da turma com seus discursos, as vezes, um tanto “exóticos”. Chegou a morar um tempo em minha casa, na época em que eu era casado. Doida que só e vivia uma relação de indas e vindas com o Tuta para todo sempre. Até o dia em que, numa virada de ano, ambos foram viajar para alguma praia por aí. Estavam juntos na ocasião. O Tuta resolveu dar um mergulho do barco, bateu a cabeça num bolsão de areia e ficou tetraplégico. Minha amiga não só “casou” com o Tuta mas com todas as centenas de questões e causas que existem a volta de um indivíduo deficiente físico. Se estão bem hoje? Muito mais amadurecidos, certamente, depois de tantas barras extraordinárias que passaram juntos, mas vivem os eternos altos e baixos como casal.

O Charles, assim como o André, sempre teve o perfil do homem hétero individualista e “comedor”. Totalmente voltado ao trabalho, prefere até hoje certo estrelato do mundo da publicidade, área que todos somos formados. Gosta de nomes, termos, status, cita celebridades da área e vive boa parte do seu tempo nas festas do meio. Há sete anos, coisa supreendente para todos nós (agora já acostumados), namora uma menina (que não lembro o nome) e assumiram um relacionamento o qual o permite viver toda a independência e autonomia que precisa. Logo, ela também pede pelo mesmo.

Charles não quer casar e não quer ter filhos. Essas são as condições básicas e preponderantes para que ambos permaneçam juntos. Foi para o encontro sem a namorada.

O Rodrigo resolveu seguir a carreira de ator. Foi casado, se separou e tem um filho. Mantém um bom relacionamento com a ex-esposa, principalmente que agora ela tem um novo namorado. Antes disso a relação não era tão amistosa assim.

Foi em uma de suas viagens como apresentador de standup que se engraçou com uma menina pelo Tinder, one night only, e fez um irmão para seu primeiro rebento. A “mãe” é incidental.

A Gabriela foi uma das “primeiras mães” da turma. Casou no modo “elite”, glamour, brilhantes e festa. Viveu no Canadá e sua filha hoje tem 12 anos. Separou-se, encontrou um “novo homem da vida” que lhe deu um pé na bunda pois, assim como o André e Charles, tem uma cultura de vida do homem independente. Foi o primeiro pé da Gabriela, que sempre deu pé em seus homens. Está há exatamente um ano solteira e, embora tenha uma postura livre, “poderosa” e highsociety (de família rica), anda sofrendo pela ausência de seu cobertor de orelha. Disse a mim que os caras sempre apareceram na vida dela e se recusa usar o “tal do Tinder”. Mas pelo visto faz 12 meses que nenhum tem batido a sua porta.

O Zé, que não foi dessa vez, abriu mão da formação em comum e foi virar professor. Sua esposa é funcionária pública, ganha montes de dinheiro e o coloca na situação de mais típica “família margarina” (título que ele mesmo lançou uma vez e que eu me apropriei depois). Tem dois flhos lindos, uma vida linda e tudo colorido. Não fosse o fato de saber bastante de sua intimidade e eu ter o conhecimento de certas “escapadinhas” já realizadas. Mas tudo bem, não é? Para o modelo “família margarina” é normal abafar casos desse tipo. Imagem e reputação familiar é tudo.

O Junior também não foi. Acabou de nascer seu primeiro filho, de sua segunda mulher e, não sei o por quê, mas resolveram criar o rebento a sete chaves. Para a maioria o nosso amigo evaporou, transcendeu, virou luz mediante seus manifestos de vida fugere urbem. Até brincamos com isso: “acho que a gente é muito urbano, cinza e poluído para estarmos perto deles hoje. Vai estragar o bebê”.

Talvez, de todos os casais que vi por lá, ou até mesmo os solteiros, os que vão perdurar com o formato, porque realmente existe uma química de “duas metades da laranja” seja a Paula, o Gustavo e a filha Aline. Mas como disse, talvez, já que nem os pais da Paula bancaram mais o casamento.

Vamos deixar a vida nos supreender…

E por fim, e não menos importante, estava por lá o Flávio, o único gay assumido daquela turma, à vontade e resolvido com o “papel”, em meio a um ambiente “hétero familiar”, com apenas três horas de sono já que na noite anterior, de súbito, pôs os pés numa balada depois de quase um ano sem ir.

Fui numa tal de “Super Ultra Lions”, balada gay de gente carão. Foi legal para relembrar meu chavão: “vodka Absolut, no copo baixo e dois gelos” para o bartender que, para variar, simpatizou comigo e fazia dose dupla.

Conviver com as diversas normatividades do mundo hétero é sempre bom. Relembrar por intermédio de casos reais, que não existe um jeito certo ou exclusivo para se relacionar e que até mesmo as idealizações que foram ontem perdem o sentido no tempo presente, me dá mais combustível para continuar com as minhas buscas. Por isso que digo que é muito importante, seja qual for o estado ou condição que nos encontramos hoje, que a gente saia para se socializar e conhecer gente. É necessário, é alimento. É importante que a gente não repudie os meios ou não nos coloque em privações pelo medo de conhecer o outro ou o desconhecido. Sem referências, definitivamente, a gente não cresce, não se educa, não se reeduca e não busca significado e resignificados para a própria vida. O mundo muda a toda hora.

Achar que o ato de se relacionar é um modelo estanque e idealizado não deixa de ser um grande problema. Só a prática, queridos leitores, é capaz de fazer a gente chegar em algum lugar, com muito prazer e muita dor. Não desistam.

1 comentário Adicione o seu

  1. Lucas disse:

    Tambem acredito na “socialização” na inclusão, na integração das pessoas. Toda relação da mais cordial a mais intima na verdade está pautada no desejo de inclusão em nos percebemos incluídos, inseridos, e por que nao compreendidos.

    Coisas mágicas acontecem quando a gente simplesmente vai a lugares onde não costumamos ir!

    Há pessoas que são conhecidas, pessoas que são desconhecidas
    E entre elas, há portas ;D

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