Que país é esse?

Tenho escrito pouco no MVG, interessado nas cantorias terapêuticas no Smule e nas movimentações políticas atuais. Sei que uma maioria está farta do assunto, política. Talvez por ser informação demais a ponto de não se conseguir acompanhar, talvez por se viver num contexto onde as pessoas estão divididas e talvez porque o tema – política – mexe muito com a emoção. Assim, o texto abaixo é para aqueles que não se enquadram em nenhum desses pontos e estão conseguindo lidar com a nossa realidade atual com serenidade.

Há anos, convivi com amigos de faculdade que estabeleceram pilares dos movimentos sociais. Foram como fundadores do conceito “3o. setor”, algo que é totalmente disseminado hoje. Como fornecedor (ou aspirante de) acompanhei a construção das fundações ideológicas, modelos e, posteriormente, as práticas. Estive envolvido em centenas de projetos sociais, a perder de vista mesmo, e assim, é impossível não dizer que não me apropriei de algo dessa cultura. Da mesma maneira, percebi o quanto os valores e interesses do 3o. setor criavam intersecções com as ideologias de esquerda. Não demorou muito tempo (talvez 10 anos) para que se instaurasse a ideia de que 3o. setor é de autonomia da esquerda. Assim como conceitos de outras minorias: gays, mulheres, negros, índios e etc. A esquerda vem se empoderando dos movimentos desses grupos e, provavelmente, quem nasceu nos anos 90 entende que esquerda e tais manifestações são a mesma coisa. Não é bem por aí, mas tal tema é bastante longo e poderia deixar para outro post.

Ideologicamente, vivo como alguém de centro-esquerda. Meus gestos fora da telinha, mas que também incluiu o MVG, são materializações dessa ideologia que, sim, visa uma sociedade mais uniforme. E diante desse cenário tumultuado e no meu ponto de vista vibrante, fui colhendo informações daqui e dali para assumir um texto. Não tenho “rabo preso” com ninguém e se devo algum tipo de consideração superior é apenas para meus pais e meu irmão. Em um momento importante como agora, onde seres pensantes fazem alguma diferença expondo ideias e pensamentos como referência e reflexão, deixo aqui a minha opinião definitiva, para os próximos tempos, sobre a extrema esquerda que hoje lidera nossa governança federal e que sim, imbuídos no sistema, ajudam a dar os contornos do nosso país:

“Foi-se o tempo em que a esquerda detinha a energia do manifesto popular. O impulso para sair às ruas para lutar contra modelos vigentes, injustos e/ou corruptos.

Essa esquerda envelheceu. Envelheceu e se institucionalizou, a ponto de se encontrar em lugares confortáveis, garantindo certas benesses do sistema. Essa esquerda perdeu sua elasticidade, o “estar fora” da caixa, acenando e gritando: “queremos um lugar ao Sol”. Pois tal calor chegou e já são 13 anos que bate sobre eles.

Ironia do número.

Tal esquerda, institucionalizada, fez lá seus feitos sociais e tive amigos (não foram poucos) que ajudaram a construir fundações do modelo. Imagino o quanto é duro ter que largar o osso e o status de “fazedores sociais”. Existe a soberba sim: “fui eu quem ajudou a fazer tudo isso” e na atual circunstância, os que não estão cegos, passam por um momento duro, quase cruel, de desapego. Mas não seria isso parte da vida?

Como diria Paulo Freire que, ao meu ver, estaria ao lado de Hélio Bicudo se estivesse vivo, “sem a educação libertadora, o desejo do oprimido será de se tornar o opressor”. Assim, a parte sábia dessa mesma esquerda, indignada com a obsessão de seus líderes mais radicais, abandonou o partido há tempos. Permaneceu o desejo do oprimido que virou opressor.

A vida nos prega algumas lições, por mais que exista resistência. A esquerda tornou-se, sim, conservadora. Ultrapassada. Relutam com todas as forças para conservar certas propriedades daquilo que entendem como de autoria.

E é essa mesma vida que está dizendo a todos eles: se não muda pelo diálogo, tomarei a força. Não tem como transpor alguns obstáculos da vida, a não ser que se mude de direção.

Quem diria que, um dia, o povo apontaria o dedo contra a própria esquerda?

A esquerda hoje é, há mais de uma década, a maior parte do sistema.

A direita, bem… essa do Bolsonaro? Poutz… não tem o que dizer diante tamanha inconsistência. Eu e mais todos esses brasileiros da foto [usei a foto da Paulista ontem a noite] e que representam milhões de outros mais, precisamos de algo novo.

Como dizem que almas não enxergam a casca e só conteúdo, arrisco a dizer que Renato Russo e Cazuza estariam orando por esses aí.

Lula? Dilma? São apenas sombras de um ideal que, um dia sim, foram com propriedade da esquerda.

Difícil aceitar isso, não é, meus amigos?”.

Fica, assim, a minha reflexão para quem “aguentar”.

14 comentários Adicione o seu

  1. Nick disse:

    Legal seu texto. Me considero centro-esquerda. em questões sociais e centro-direita em econômicas. Mas não acho que é toda esquerda que faz parte do sistema. PSOL, PSTU, PCB e PCO, nao foram citados lava jato. Além disse em listas de ficha limpa/suja, os partidos que tem menos politicos ficha suja são esses.

    1. minhavidagay disse:

      Concordo, Nick! Estou de olhos nesses partidos, incluindo PV, para as próximas eleições.

  2. Pedro disse:

    Num país como o Brasil não podemos esperar muito dos partidos políticos. Não é uma questão de empoderamento da esquerda dos movimentos sociais, simplesmente não existe espaço para a divergência dentro da direita.

    Tendo os problemas que temos num governo teoricamente de esquerda, fico imaginando a vida num sistema dominado pelo pessoal da direita. Tivemos mais de 20 anos de governo de direita no Brasil, e a herança deixada foi um país pobre com uma economia esfacelada.

    O PSDB em si já foi um partido que representava uma opção interessante para o país, e hoje o que restou do partido original é o que flerta, ou melhor transa, com o pessoal de agenda ultra-direitista. O mesmo caso do PV. E provavelmente será o mesmo caso do partido Rede.

    É nessas horas que eu desejo deixar este país, com sua frágil democracia o tempo todo ameaçada pelos abutres que vivem correndo atrás do dinheiro e do poder.

    Vou finalizar meu comentário com um trecho de uma música de Assis Valente, que fala assim:

    “Brasil esquentai vossos pandeiros, iluminai os terreiros que nós queremos sambar!”

    A impressão que tenho é que “estaremos” nós (brasileiros) “sempre sambando na Batucada da Vida”.

    1. minhavidagay disse:

      Oi Pedro.

      Momento interessante para sondarmos novos partidos, os nanicos, que carreguem nossas ideologias.

      A falta de representatividade é uma realidade. Faz parte da falência da instituição. E não é só governo que está precisando se reinventar. É a igreja católica num esforço do Francisco, são os modelos familiares e assim por diante.

      Mas voltando para política, acabei de ver a notícia do DataFolha, conhecida esquerdo-parcial, que 68% da população é a favor do Impeachment.

      Desconsiderando a parcialidade da mídia, arriscaria em 73%.

      Daí me inspirei a isso:

      Se o desejo de impedimento ou pedido de renúncia vai crescendo e ultrapassa interesses partidários, onde na cartilha está escrito que isso não é democracia?

      É golpe sim, no fantástico mundo de Dilma.

      Poderiam dizer: “o povo está sendo manipulado!”. Manipulado, claro, pelo sumiço de dinheiro do bolso! Pela imoralidade da Dilmula, por atitudes escandalosas e escândalos de corrupção. Eu serei manipulado todas as vezes que acontecerem coisas dessas. Se você não, não tem problema.

      Mas creio que a verdade seja essa: “ledo aqua in asino”. ✌️

      Abraço.

  3. Jhonatan Farias disse:

    Olá… Meu nome é Jhonatan, tenho 23 anos.
    Adoro muito o blog, e sempre acompanho as postagens.
    Hoje quando entrei e ví falando de política já pensei “ihh, um blog tão legal, deveria agir com imparcialidade”. Discutir política é meio chatinho mesmo, eu geralmente evito discutir política, pois entendo que cada um tem uma opinião. Mas daí ví essa a oportunidade de deixar de bobagem e mostrar civilizadamente o meu ponto de vista… alguns vão discordar de mim… kkk.. mas tudo bem, podem discordar, mas leiam pelo menos.
    A verdade é que sou gay, e sou a favor do Bolsonaro. Já perdi muitos amigos gays que se afastaram de mim por eu ser a favor dele.
    Vejo que muitos gays vêem o Bolsonaro como um monstro homofóbico. Eu entendo, eu também pensava isso dele, mas com o tempo percebi que na verdade ele é muito injustiçado. Percebam que ele nunca se declarou ser contras os gays, pelo menos nas entrevistas que eu ví dele, ele defende o direito que cada um tem de ser o que quiser. Mas o que manchou a imagem dele foi tão-somente ele ser contra o tal do kit gay nas escolas.
    Eu comecei a opoiar o Bolsonaro quando percebi que ele representa o meu modo de ver as coisas. Coisas que aprendi no decorrer da minha vida, valores morais, que defendo como cidadão
    Eu acho que não é porque eu sou gay que eu vou gritar pra todo mundo que eu sou gay, eu sou gay mas isso se diz respeito somente a mim. Em outras palavras, sou contra o ativismo gay esfregando na cara dos outros que são gays, meio que obrigando as pessoas a aceitarem. Isso me lembra aquela imagem de dois gays no meio da Avenida Paulista, um enfiando um crucifixo no ânus do outro. Não é dessa forma que vamos conseguir acabar com o preconceito.
    Fiz uma promessa comigo, que ia lutar toda minha vida para acabar com o preconceito, e ajudar pessoas que sofrem com homofobia. Eu por exemplo, odeio o Malafaia e o Feliciano, que usam a bíblia para espalhar o ódio. Mas o Bolsonaro é diferente, ele apenas defende valores morais, a ética e o respeito.
    Entenderam porque sou a favor do Bolsonaro?

    1. minhavidagay disse:

      Eu entendi! Rs

  4. San disse:

    Alguém poderia entregar um livro de história para este guri!

  5. Não acredito que porque um blog tenha uma temática específica não possa falar de outras temáticas como a política no caso. Acredito que essa é uma características principal dos blogs, poder falar sobre tudo sem censura e democratizar o acesso à informação. Parabéns pelo texto. E quanto ao apoio favorável ao Bolsonaro acredito que não só ele, mas qualquer pessoa ou político que desrespeite os direitos humanos deva ser impedido de ser um formador de opinião. Acho que isso que falei bate na questão do Paulo Freire que você citou. Aquele que não tem uma educação libertadora, dialógico e emncipatória só irá querer mudar de lado, deixar de ser oprimido para ser opressor.

    1. minhavidagay disse:

      Obrigado pela sua reflexão, Danilo. Me ajuda a reforçar reflexões que tenho tido. :)

      1. Olá tenho acompanhado seu blog há um tempo e tenho adorado. Se possível gostaria de uma entrevista com você para o meu blog. A gente marca se você topar.

      2. minhavidagay disse:

        Claro, Danilo!
        Qual é o blog?

      3. minhavidagay disse:

        Poxa vida… Um educador! Bora pra entrevista. Como recebo muitos e-mails no queroumtoque@gmail.com e não estou dando conta de responder todos, me avisa qdo tiver enviado o questionário, ok?

        Abraço!

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