Quem é você para um relacionamento

Nosso ego diante relacionamentos

Queria reservar um post para a tragédia na balada LGBT, a Pulse, lá em Orlando, EUA. Mas serei breve, apenas com essa introdução.

Sei que ainda temos um chão para controlar o extremismo que povoa a humanidade e, na mesma medida, cada indivíduo. Mas entendo que os fundamentos deste tema coincidem com os dois posts anteriores “Vida heteronormativa” e “Gays por Bolsonaro”. Ódio e fobia se combate com ódio e fobia? Extremo se combate com extremo?

A indignação perante um assassinato de 50 e dezenas de feridos é legítima. Mas a maneira que reagimos a este fato acaba por definir muita coisa. Definir, acima de tudo, quem somos e como tais maneiras irão reverberar 360 graus em nossas vidas.

Fica aqui as sinceras condolências aos semelhantes que direta ou indiretamente foram vítimas da loucura humana de apenas um indivíduo. O assassino esta morto, pela SWAT, e lá, nos EUA, não há “Direitos Humanos” nem regalias para quem comete um crime desse tipo. Entendo que, a partir daí, poderíamos desenvolver amplas discussões sobre a permissividade dos “Direitos Humanos” no Brasil. Este seria meu ponto de partida no MVG.


Enquanto lá fora o mundo continua igual para todos nós, hora como palco de ações justas, hora injustas e todos nós vamos aprendendo algo a cada dia sobre a nossa falibilidade, sobre regras de convívio social e como lidamos com as mesmas, existe ao mesmo tempo a realidade do nosso entorno, que envolve pais, irmãos, amigos, colegas de escola e de trabalho. Manter os olhos e o senso crítico lá e cá me parece esclarecido. Por hoje, vamos falar de cá.

Posso dizer que um relacionamento afetivo – com as devidas proporções de quem atingiu 39 anos e acumulou um saldo específico de experiências (leitores assíduos sabem de todo este contexto) – nos preenche um bom tamanho. Mas só quando nos libertamos de nossos excessos do ego, dos melindres, dos mimos e de certa rigidez auto provocada a aqueles que encaixotaram percepções sobre relacionamento devido as próprias experiências (boas ou ruins), temos a oportunidade de gostar de novo sem viés. Costumo dizer que estamos “limpos” para viver um relacionamento.

O “jovem” dentro da gente está livre para praticar e, de fato comprovado, não há correlação necessária com a idade. Com o andar da carruagem, a medida que nos tornamos mais velhos, é inevitável enrijecermos, ficarmos menos maleáveis a respeito de opiniões, conceitos, vontades e não-vontades individuais. Por um lado, a “carapaça” endurece sim, a medida que amadurecemos e a medida de nossa personalidade. Por outro, é por meio da maturidade e experiências adquiridas que sabemos em quais “pedras do caminho” não mais pisar, para evitar escorregões, machucados e sofrimento desnecessário. Outras pedras, a gente até sabe que podem escorregar. Mas a mesma experiência acumulada fará pisarmos de um jeito diferente, para se continuar o trajeto e evitar machucar.

Eu diria que nos permitir a repetir certas jornadas, como abrir o peito para outro alguém de novo, é trilhar um mesmo caminho, mas de maneira diferente; sabendo onde pisar ciente de que, se em determinado trecho puder escorregar, ir com cuidado e, mesmo se tombar, ter toda manha para levantar. Muitos de nós, justamente por causa do ego, se doam ao outro apenas por partes com medo de se machucar. A questão não é ir devagar, em conta gotas. Nem ir com tudo, (jovialmente) ensandecido (rs). Devagar ou velozes, estes estão na vantagem quando o assunto é fazer valer um relacionamento. A questão é travar no meio do caminho pois o próximo passo traduzirá aquela parte do nosso ego que nos parece expor mais de quem somos. Uma parte que nunca ou raramente lançamos para fora. Uma parte que, exposta, estará a mercê de certo julgamento. Da concordância ou discordância perante o outro.

Como comentei nos posts anteriores, o ego é um “bicho” astuto e “burro”. É ele que dói, que se orgulha e que se fere quando as coisas não funcionam da forma que a gente quer. É ele que dará a cara para bater diante a rejeição de alguém desejado. É ele quem enfrentará a realidade (seja do jeito que for) quando se formaliza, por exemplo, a homossexualidade aos pais. É ele que pode ficar depressivo na hora que se pede um aumento ao chefe e há a recusa. É ele que, no meio da pista, vai ficar “putinho” quando o xaveco não surtir efeito. É ele que fica (loucamente) fantasiando quando o preterido, do outro lado do WhatsApp, está online e não responde a mensagem logo!

Culturalmente ou não, o homem (seja gay ou heterossexual) costuma ser altamente competitivo sob o ponto de vista do ego. Temos essa natureza ou aprendemos na educação. Tanto faz a origem neste momento. O fato é que a maioria de nós funciona assim. No geral, não podemos perder.

Não é à toa, meus amigos, que muitos tomam umas boas doses de álcool para ficarem mais “soltinhos”. A bebida tem o poderoso efeito de nos descolar do ego e dar espaço para nossos desejos mais verdadeiros. Ou se bebe ou se é ariano! (RISOS).

O ego, assim, é muito esperto por gerar diversos mecanismos de defesa e preservação. Mas, ao mesmo tempo, é o exercício em vida – para aprendermos a lidar com ele – que o fará “menos ou mais burro”. Nos tornamos menos limitados a medida que reconhecemos todo o entorno do nosso ego. E já aviso: é um exercício para toda vida porque estamos em constante transformação (ok, uns mais e outros menos).

Consequentemente, entendo que quanto mais aprendemos a soltar e lidar com o nosso ego, mais amadurecidos nos tornamos.

Você saberia responder a pergunta, em detalhes: Quem sou eu hoje para um relacionamento?


A grande fonte de inspiração para estes posts tem sido meu relacionamento com o Beto. É uma relação que exala novidades, desde detalhes de sua formação (nunca me relacionei com alguém formado em exatas) a maneira dele se comportar. Relações são como os planetas: existem diferentes forças de gravidade, de acordo com a distância que os mesmos se encontram. Quanto mais próximos, mais intenso é. Embora tenha um pouco de receio ainda para afirmar (falta um pouco para se completar um mês que nos conhecemos), arrisco a dizer que a intensidade é da Lua.

E arrisco a dizer que nunca fui dela. Ou ela nunca me teve…

 

 

9 comentários Adicione o seu

  1. André disse:

    Só eu que fiquei com a sensação de querer mais?! Rsrs rolando aqui a tela do celular, quando dei por mim, acabou o texto.
    E sobre a pergunta lançada, não é tão fácil responder assim de pronto. Acho que ela tem muito a ver com aquela parte do nosso ego que desejamos esconder…

    1. minhavidagay disse:

      Ehehe… André, se pergunte isso e vá formando essa resposta. As vezes essas partes estão tão escondidas que você ainda nem se deu conta!

  2. André disse:

    Verdade Flavito! Agora mesmo, estou sendo colocado à prova quando um ex declara que ficou com x, y, z (e bobo aqui pensando que ele havia ‘mudado’). Mas enfim, falar o quê numa situação dessas(?), é respirar fundo e manter a calma…pelo menos foi sincero rsrs.
    ps. É um exercício diário, levar a vida de modo mais leve :)

  3. Pedro disse:

    Ser mais auto-suficiente emocionalmente e deixar de projetar as minhas carências no outro, esse é o meu desafio, dentre outros (tenho uma lista – rs). É claro, que problemas, incompatibilidades sempre vão existir, mas se fosse dizer o que eu quero e pretendo deixar pra trás de imediato é isso.

    Engraçado é o fato do ‘ego’ não ser facilmente adaptável aos estímulos do ambiente e a gente não precisar ‘quebrar a cara’ pra ter que aprender certas coisas. Este talvez seja o preço que pagamos por termos nos tornado animais racionais, e pela subsequente racionalização dos relacionamentos. Tudo é uma questão de entender, saber lidar com os conteúdos conscientes e inconscientes de uma forma equilibrada, dando vazão ao ‘bicho’ que existe em todos nós, aprisionado pelos valores, princípios apreendidos previamente.

    1. minhavidagay disse:

      Mas sabe que há uma questão geracional também, Pedro. Meninos com 20 e poucos anos como você TENDEM a terem nascido num contexto de muitas facilidades e privilégios. São, em geral, criados num universo de um maciço acesso à informação e, ao mesmo tempo, com dezenas de zonas de conforto promovidos pelos pais. Assim, formam-se “egos-passivos” quando o entorno propicia tantos confortos. Dai, na hora de enfrentar o real, que há nas ruas, diante chefes numa empresa, quando talentos e habilidades são colocados em conteste, mediante a uma pessoa que se é a fim, boa parte dessa geração vive uma crise de expectativa e realidade. Querem ser atendidos, como clientes da vida. rs

      Lembro que você se identificou com alguns comportamentos do Rafa (meu ex) e comentou isso num dos posts. Ele possui características bem típicas dessa geração Y, quando o mundo lá fora exige demais de “jovens perfeitos pouco compreendidos e cheios de si”. Cheios de si, ou de ego um tanto inflado! rs

      Valem aqui essas reflexões! :)

  4. Pedro disse:

    Tudo que você disse Flávio é muito verdadeiro, embora eu conseguisse ver isso nos outros e não em mim, achava que eu era muito diferente (armadilhas do ego de novo), mas na prática você acaba repetindo certos modelos, padrões de comportamento sem sequer se dar conta. Repete porque não tem pra onde correr, aquilo é você, é onde foi capaz de chegar. Mas é um certo alento saber que não sou o único rs…

    Esse negócio do ‘ego inflado’ é um problema sério. Eu acho que isso acontece porque a gente acaba acreditando em algumas ‘fábulas’ que contam a nosso respeito, o engraçado de tudo isso é que tive várias oportunidades pra entender isso, e acabei não aprendendo. Mas como um cara falou aqui mesmo num comentário, ‘não há mal que dure para sempre’.

    Só espero que dessa vez não fique só na teoria, e se concretize na prática. Perfeito (coisa que eu sempre quis ser – rsrs) eu sei que nunca serei, mas ser um ser integral, viver a totalidade, é isso que busco hoje. É esse tipo de entendimento que acho que vai de encontro ao texto que você escreveu.

    1. minhavidagay disse:

      Você é leonino, se eu não me engano e você já começou por aqui. Tem créditos heheh

  5. Rothuzs disse:

    Que pergunta mais difícil, acabei de escrever um post sobre minha disponibilidade em ter um relacionamento que evitei de muitas formas até algumas semanas atrás. (não que eu tenha algo em vista para o momento ou para um futuro próximo).
    O que acho mais difícil na sua pergunta é o fato de não saber o que esperar em um relacionamento, então tudo o que penso sobre quem sou para participar ativamente de um é muito vago.
    Enfim diria que estou disposto, aberto ao diálogo, a conhecer a mim mesmo e a este outro. Sou e quero ser responsável pela construção deste em conjunto para que dê tudo certo assim que os pontos forem esclarecidos entre as partes.

    1. minhavidagay disse:

      Oi Rothuzs, tudo bem?
      Essa minha pergunta serviu realmente para gerar este certo incômodo/estranheza. Normalmente a gente consegue definir pontos que esperamos do outro, características, expectativas, qualidades e etc.

      Mas quando a pergunta se inverte, para uma autoanálise de como somos em um relacionamento, costuma dar um “tilt”.

      Tenho a impressão de que quanto mais a gente se conhece, mais a gente sabe como somos num relacionamento.

      Será que somos acessíveis? Estamos preocupados com o bem estar do nosso companheiro em que medida? Somos capazes de abrir concessões para estar com alguém? Em que medida? Como anda nosso sentido de companheirismo? Até onde vai a nossa prestatividade? E etc.

      Acredito que tudo isso define, em alguma medida, como somos em um relacionamento e, talvez, porque as coisas as vezes não fluam da maneira que gostaríamos…

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