Quem em sã consciência quer retroceder?

Para que lado correr no fim do mundo?

Finalizo a semana falando um pouco de política, um dos temas que mais tem me despertado atenção nos últimos 3 anos. Sei que muitos leitores do MVG não curtem muito o assunto, mas gostando ou não, nossa conexão com política é diária. O ato de se relacionar, fazer uma festa, juntar os amigos, lidar com pais e irmãos, entre outros, somam exercícios políticos diários. “Politicamos” a todo momento e apesar do tema ter uma conotação nefasta, serei leve na maneira de me expressar.

Por intermédio de plebiscito (o mesmo que a Dilma alega agora, com todas as forças, que vai recorrer caso volte ao governo) foi votado por apenas 51,9% o desligamento da Grã-Bretanha da UE (União Europeia). Achei tão curioso esse percentual pela alta semelhança ao número de votos que a presidente do Brasil teve em relação ao segundo candidato a época. Mera coincidência? De forma alguma.

A maioria dos Bretões que forma o Reino Unido (Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte) decidiram por um fim que gerará mudanças nas relações comerciais, políticas e sociais de seus territórios. Foi um ato de certa “independência” já que, dentro da UE, políticas, relações comerciais e sociais são regidas pelo grupo (e pelos líderes de cada país que formam o grupo). É importante dizer que os tidos de “esquerda” foram contra a tal movimento. Já vejo na minha timeline manifestos de tristeza, medo e uma forte afirmação de retrocesso.

Mas vamos combinar: quem em sã consciência quer retroceder? Retroceder é o inverso na natureza humana. Consequentemente, apontar o dedo ao outro alegando que ele detém o retrocesso é, a mim, um ato tolo e infantil de reducionismo.

Donald Trump nos EUA, populista como é, é um exemplo emblemático da latente necessidade da inversão de poder. Não fosse essa latência, não teria a autonomia que “incrivelmente” vem conquistando. Doa a quem doer, e tem doído bastante em quem se coloca como de esquerda (principalmente os emotivos de extrema), estamos diante de um movimento mundial e atual de inversões. Bom lembrar que o poder, atualmente, tem se concentrando nas mãos de lideranças ditas de esquerda na maioria dos países.

E se a esquerda é tão legal assim, por que será que os povos (vejam, plebiscito é o que há de mais legítimo na democracia) está votando contra?

A resposta é muito simples, imersa e confundida em meio a tantas desculpas: as pessoas estão insatisfeitas com as atuais governanças. Ponto.

As desculpas são as triviais, aqui e acolá: “o povo é ignorante”, “meu opositor é ultraconservador” e assim por diante. Mas vejam bem: se os modelos vigentes são determinados pela esquerda e se existem movimentos populares clamando por mudanças (repito, não há nada mais legítimo que um plebiscito), quem está querendo conservar o status quo? Na minha opinião, fica claro que os reais conservadores, hoje, são aqueles que já estão nas lideranças.

O fenômeno curiosíssimo que influencia, gerando mais turbulência, é o da sociedade exatamente dividida. Seja a Dilma vencendo as eleições locais com 50% + 1 ou a saída do Reino Unido da UE com o mesmo percentual, noto que – fato talvez inédito e provavelmente um historiador poderia me elucidar – nunca os anseios do povo foram tão igualmente divididos. Nunca as pessoas estiveram tão indecisas ou desmotivadas diante das coisas como são.

O mesmo acontece nos EUA, quando percebemos que o índice de rejeição de Trump e Hillary ultrapassam os 50%, quase iguais.

Ao meu ver, a esquerda mundial tem perdido a força pela estagnação, a direita não é lá suficientemente crível e ambas, no sentido da ideologia e das práticas ideológicas, vão afundando juntas em um contexto maior, de um grande modelo que carece de revisão. Tal esquerda e tal direita são partículas de toda uma estrutura que não está mais se sustentando, da maneira que é. O próprio debate da oposição é redundante.

Assim, me refiro a maneira que pensamos as coisas do mundo. Em meio a acusações neste nível desgastado (esquerda VS. direita) e rupturas, temos a oportunidade de transcender tais visões limitadas, apontando nossos interesses para mudanças que realmente ultrapassem a maneira que percebemos as coisas hoje. Apesar de sofrer igualmente dos impactos de tais movimentos, locais e mundiais, me sinto positivo.

A mim, a transcendência é da mentalidade. O “fim do mundo” está aí sim. Mas apenas da maneira que estamos confortavelmente acostumados.

Bom final de semana a todos! :)

1 comentário Adicione o seu

  1. Pedro disse:

    Tudo é muito relativo, existem parâmetros que estão muito além da retórica e que podem nos permitir ter um determinado nível de consciência das coisas como são e como estão.

    O conhecimento da história nos mostra que ao longo dos anos a humanidade passou por ciclos com períodos de alternância entre momentos de ‘retrocesso’ e ‘progresso’, e ambos se representados como valores são absolutamente relativos, são perspectivados por aqueles que tem o poder nas mãos. Portanto podemos dizer que a noção de progresso e retrocesso é relativa, mas em termos da dinâmica dentro de um determinado tipo de sociedade em um determinado período de tempo, são consensuais e fixos, mesmo que temporariamente, seja por 10, 30 ou 300 anos.

    Por exemplo, atirar alguém de um prédio porque foi o sujeito ‘passivo’ em uma relação sexual com um indivíduo do mesmo sexo na sociedade ocidental é um retrocesso. Nas sociedades muçulmanas extremistas talvez eles vejam como um processo ‘catártico’. Prefiro nem dizer o que se fazia no Ocidente neste tipo de caso durante a Idade Média, mas havia de tudo, pelo que sei.

    Acho que a eleição da Dilma e Brexit não são situações equiparáveis. São contextos diferentes, e percentuais semelhantes não justificam a comparação.

    A eleição da Dilma, independente dos méritos, foi um processo previsível constitucionalmente e faz parte do normal em termos do rito democrático do estado brasileiro. O Brexit foi a vontade e a indignação de um povo que se transformou em plebiscito, e venceu, e como diz a minha mãe: ‘agora não tem meu pé me dói’.

    Ou seja, uma exceção que está prevista em constituição, o plebiscito não está previsto pra ocorrer de quatro em quatro anos, dentro do esperado no processo democrático. É um instrumento democrático também, porém de caráter ‘emergencial’ que serve pra solucionar impasses, como esta questão em específico na Grã-Bretanha.

    O impeachment tem mais de cara de Brexit, até por ser um processo de exceção, que é previsto legalmente. E a justificativa utilizada pelos próprios políticos foi a insatisfação da população com o desempenho da atual presidente afastada.

    E no Brasil nem sempre foi necessário alcançar a maioria absoluta pra ser presidente, Juscelino Kubitschek foi eleito com apenas 48% dos votos válidos em 1955, nem sequer havia segundo turno naquela época, procedimento este que só foi adotado por aqui a partir da eleição de 1989. Por isso a eleição do JK foi contestada e ele só assumiu em 1956 por conta de um contra-golpe dado pelo Marechal Lott.

    Hoje o que vivemos é o que sempre houve, desde que o mundo é mundo, a luta pelo poder de alguma maneira, as reformulações convenientes do ‘Contrato Social’. Não sei se dá pra dizer efetivamente que este é o ‘fim do mundo’ que conhecemos (talvez seja mesmo, mas a vida é curta, infelizmente – rs), porque de dentro do processo é difícil elaborar uma reflexão sóbria o suficiente, neutra o suficiente pra poder elaborar juízos precisos sobre o assunto. Afinal, como Aristóteles já dizia, somos animais políticos e assim sendo estaremos advogando em causa própria, seja lá qual for esta causa.

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