Reflexões em quarentena: um pouco mais de tudo

Naquela sociedade os gatos eram cultuados, tal qual as vacas para os Indianos. Era comum mumificar o felino quando ele morria, caracterizando sua sagrada homenagem ou forte simbologia religiosa. Ter um desses em casa representava superioridade, algo equivalente a carregar um iPhone cuja capa de proteção tem um orifício no verso para que outros saibam que é um iPhone.

Mas e se você não tivesse gatos? Como era possível obter o tão sagrado e superior adorno para repousar em seu lar como símbolo de elevação e status? Era simples também: existiam comerciantes que preparavam um gato mumificado para você. Você podia comprar.

Alguns desses comerciantes criavam milhares de felinos para, inclusive, matar sob encomeda, embrulhar em tecidos dos mais diferentes tipos e formatos, embalsamar com os recursos mais modestos ou sofisticados e entregar em tumbas básicas ou adornadas. Quanto mais ornamentos, mais caro.

Outros comerciantes vendiam do mesmo, mas inclusive sem nenhum gato dentro, ludibriando o comprador.

Me refiro ao Egito Antigo, mas poderia ser facilmente aplicável a situações no século XXI.

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No Brasil existem inúmeros políticos capazes, apesar da resistência do discurso permear os temas e tópicos mais radicais ou controversos, de esquerdopatas e neo-bolsonaristas. Esses indivíduos, com toda certeza e razão, sabem como melhorar o país. O curioso é que no intento de melhora, a crítica contra sua indireta e simétrica proporção (e vice-versa) parece ser o ideal para o Brasil. Pelo menos é como fazem há alguns anos.

Agora, da noite para o dia, esses mesmos indivíduos – em época de coronavírus / COVID-19 e um forçado avanço da ciência – se tornaram especialistas em medicina, em pandemias, infraestruturas de hospitais, hidroxicloroquina e cloroquina. São capazes de tratar do assunto com toda certeza e razão do mundo, acima da ciência inclusive. E dos próprios médicos e especialistas. É um troca-troca de links de matérias, para ver que quando convém, a mídia é base para argumento e, quando não convém, a mídia é denomizada.

Acontece que esses prováveis 20% ou 30% da população, de lá e de cá, que já eram dois ou três a cada dez Sapiens em nossa origem, conseguem se agrupar graças a Internet e, mais especificamente, conseguem atenção nas redes sociais. Ganham curtidas daqueles que os apóiam e, possivelmente, esse é o pano de fundo realmente interessante a eles. Não é a política, é o ego. É a curtida por ter razão.

Viverão acorrentados entre si, crentes – enquanto vivos – que a razão de um é o atestado da destruição do outro e vice-versa. Por isso, assim é esse embate infindável. Nessa dissonância cognitiva, importa mais a sua verdade, lançando ao ar um provável charlatanismo de tudo, até do ser político que é. Tudo pela curtida.

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A formação de contextos, desde 2013 com os manifestos populares, foi um dos aspectos sociais mais maravilhosos que aprendi a observar. Esse talvez tenha sido o meu maior ganho no aspecto intelectual, social e político dos últimos tempos, passível ainda de errar as previsões, algo que me deixa igualmente tranquilo.

Com a velocidade da informação ainda, é como se eu estivesse no final da tarde no mar, com céu amplamente azul, água como tapete e brisa suave, aguardando o por-do-sol, quando em 30 minutos acontece um agrupamento de nuvens densas há uns 20Km da praia e aquele fenômeno de visual e estética específicos traduzem – a mim – uma sequência de fatos intensos, culminando em guardassóis torcidos, cangas esvoaçantes e um fluxo caótico de esvaziamento humano da praia. Tempestade.

Novamente, passível de erro pois, algumas vezes, o resultado foi o céu amplamento azul, água como tapete e brisa suave.

De todo modo, essa observação é algo que se refina, quando o exercício de buscar padrões em um contexto maior aparentemente disconexo e caótico é um hábito ou hobby. Quando também, a necessidade de pertecimento (que no tipo cultural é o que mais se transborda hoje em dia) não é maior do que o apreço e respeito aos pensamentos individuais. Em outras palavras, como muitos se movem a partir da carência de atenção, do desejo de pertencimento, não há espaço para um real efeito de empatia que é compreender quem é diferente.

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Indo para a minha quinta semana de quarentena, observando os contextos, fazendo algumas leituras e ouvindo alguns políticos, filósofos, psicólogos e historiadores, já posso arriscar certas tendências gerais:

– o coronavírus está ajudando algumas pessoas a relembrarem que a questão da pirâmide social não é um fenômeno apenas dentro de um país como o Brasil. Ocorre, talvez mais intensamente, entre países. Lembro do dia do lançamento da música “We Are The World” em 1985. Passaram-se 35 anos e a África deve ser um dos países que mais vai sofrer com a nossa pandemia do século XXI, pelos mesmos motivos sabidos em 1985;

– é querer ser muito Cristão ou espiritualizado para acreditar que 35 anos depois, em alguns meses de COVID-19, o ser humano vai elevar sua consciência. Nem dos hábitos dos tempos egípcios nos livramos ainda e de lá para cá tivemos muitas pandemias e cenários de Guerra Mundial. De todo modo, tenho a minha consciência de que a estética / simbologia que a pandemia do momento nos impõe, colocando o indivíduo em afastamento social, em contato intenso com filhos e família (sem mais o suporte de serviçais em um sistema neoliberal, embora muitos utilizem-se dos motoboys para entregas), ou em muitos casos sozinhos, confere ao Sapiens dois caminhos, distintos ou consecutivos: tristeza, melancolia, luto e depressão (em variados níveis) e/ou bastar-se consigo. Amar-se.

Estamos falando de uma maioria de base cultural latina. Logo e resumidamente, o “bem e o mal” das coisas estão fora / lá fora. No movimento de expansão do Império Romano, a força de significado da palavra “expansão” não é mera coincidência. Isolamento para o latino tem muito mais sentido de morte / luto / enfraquecimento / perda de poder / enfraquecimento do ego, as vezes, do que o próprio coronavírus que, para fechar a conta da ironia, é invisível. Antes fosse o que estávamos buscando: um outro homem para culpar, palpável.

Todavia, para alguns Sapiens, o movimento de quarentena pode trazer frutos bastante reveladores, do despertar de nova consciência (me refiro principalmente a aspectos psicológicos e não propriamente espirituais), processos que monges, freiras, seguidores da Ioga e espiritualistas (em geral, independentemente da religão) encontram no estado de solidão.

– para quem é da esquerda radical, vai meu toque pessoal: tenho centenas de amigos e colegas de classe média nas redes sociais que, porta-vozes resistentes ou não das ideologias de esquerda frente ao novo governante, fizeram parte, até A.C. (Antes Corona) desse grupo que rechaçou o neoliberalismo e relembrava – a todo momento – a cultura servil presente até hoje, herdada das origens da formação do país. Mas ao mesmo tempo, neste exato contexto de coronavírus, são os que deliberadamente manifestam em suas timelines os afagos / agrados / carinhos pelos serviços de entrega de motoboys. São os mesmos que exteriorizam o sofrimento que tem sido lidar com a vida doméstica e com os filhos sem suas “Marias”: babás e empregadas.

Pois bem, do ponto de vista ideológico que tanto pregaram (e neste caso me refiro somente à ideologia) ao utilizarem dos serviços dos motoboys, estão – basicamente – deixando vazar o neoliberalismo que tanto condenam. Neoliberalismo que, claro, é contornado pela cultura servil da origem do Brasil.

Quando clamam por suas “Marias”, igualmente, estão clamando pelo neoliberalismo-servil.

A partir (também e não somente) dessas constatações, que é muito recorrente e até próximo a mim, apresento algumas reflexões menos personalistas à seguir.

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De um ponto de vista global e assim como o movimento do Brexit já se antecipava, acredito que o mundo possa passar por um momento de desglobalização D.C. (Depois de Corona), que vai desde restrições de acessos fronteiriços (para o turismo e para o comércio) até um olhar econômico mais voltado para dentro, dando mais atenção para a produção nacional de insumos básicos, por exemplo.

De uma maneira global, as economias já se enfraqueceram e tendem a reiniciar enfraquecidas e mais lentas. Consequentemente, o dinheiro perderá valor, teremos mais desempregados e os que estiverem com empregos retomarão a produção paulatinamente. Preferiremos consumir o que é básico por um tempo, deixando supérfluos para segundo ou terceiro planos.

Individualmente, assumiremos políticas domésticas restritivas, contenções gerais de gastos, fenômeno natural de um pós-guerra a frente de um indivíduo seja a nacionalidade que for.

Nesse contexto, em países subdesenvolvidos como o Brasil, pode haver uma tendência de multinacionais reduzirem a oferta de serviços e produtos ou até mesmo abandonarem o país por não haver vontade e poder de consumo das pessoas. Em outras palavras, o estímulo de abertura do país para empresas estrangeiras iniciado pelo presidente Collor, a estabilização da moeda criada por FHC e o estímulo de consumo derivado do governo de Lula, tendem a retroceder.

Quanto realmente vai é uma dúvida ainda. Mas deve, pela força do contexto.

Li de alguns historiadores que a tendência é retomar algumas sensações dos anos 80. Quem viveu sabe a que me refiro e quem não, saberá.

Por outro lado, é possível também uma disseminação do poder capital e produtivo chinês pelo mundo e entendo que o Brasil é um dos objetos de interesse da China. Eles foram os primeiros a passar pela pandemia e serão os primeiros a retomar os modelos produtivos. É bem possível que, a partir dessa realidade contextual, a China traga projetos para países como o Brasil, compre fábricas e monte indústrias e assim por diante. Em um volume também incerto ainda. Tudo vai depender da visão estratégica dos governantes, interesses e detalhamentos comerciais.

Porém, independentemente das posturas reducionistas e limitadas do atual presidente perante as relações internacionais (e perante praticamente tudo), o medo que já paira para alguns brasileiros de um vulto chinês dominando o mundo, a mim, é uma bobagem. Primeiro que existe um mamute a frente, os EUA, que embora saia machucado é verdade, não sabemos qual será a velocidade de sua recuperação. Vontade a eles nunca faltou desde que o Protestantismo ensinou que a virtude está na produção.

Segundo que existe um contraste cultural muito difícil de mesclar, a mim determinante nessa fantasia de domínio, que vou salientar mais à seguir.

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Embora seja uma oportunidade de um recomeço a entrada mais ativa de capital chinês no Brasil, para uma possível aceleração de reerguida D.C., a partir de investimentos na indústria, por exemplo, há aspectos culturais muito mais processuais, que atiram para longe certos temores de uma conquista da China sobre o Ocidente, que inclui o Brasil.

O oriental, no caso o chinês, é muito diferente do brasileiro-latino para assumirmos, em alguns poucos anos após coronavírus, um sentimento de domínio efetivo, para uma real internalização e aceitação. As relações econômicos e políticas, por si só, não são capazes de influenciar diretamente essa percepção de “apropriação de um país”. Neste aspecto cultural, o brasileiro é infinitamente mais estadosunidense (gostando ou não) do que chinês, por livre e espontânea vontade e acho muito difícil perder esse envolvimento da noite para o dia.

Quantos amigos “artistas” vivem criticando certos modelos norteamericanos mas não deixam de assistir a noite do Oscar com muitos palpites antecipados? E os seriados na Netflix que, agora, recheiam nossos tempos livres?

A começar, por exemplo, pela cultura de obediência do chinês e que influenciou diretamente curvas, estatísticas e realidades da pandemia na China. Sistemas de câmeras espalhados no país inteiro, com reconhecimento facial, captação de temperatura do corpo e controles individualizados por celular, a partir de um modelo de governo do tipo autoritário, influenciaram diretamente o controle chinês de pandemia.

Está longe de ser simples do brasileiro ser obediente a esse nível, sem querer entrar nos méritos egóicos do que é “melhor ou pior”. Basta ver que hoje – final de semana da Páscoa, 11 de abril de 2020 – mais de 50% dos paulistanos estão nas ruas e uma parte pegou estrada. É risível, para quem tomou consciência da quarentena, mas é cultural. Talvez na segunda o governador de São Paulo decrete a quarentena obrigatória sujeita a prisão. Vai colar? Vai dar certo? Duvido… na Itália não funcionou e se é para ter uma referência, que seja de um modelo cultural. Latino.

O chinês deve realmente afastar a culinária exótica do cardápio, como apontam algumas práticas iniciadas por lá e noticiadas por aqui. Imagine se o brasileiro iria facilmente abandonar o “churrascão” se fosse o caso? Teríamos churrascos clandestinos facilmente liberados com algum tipo de propina.

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Agora, de um ponto de vista local, começo a notar a possibilidade (que não quer dizer que se defina) de um vigor outrora perdido da ala centro-esquerda.

Essa percepção não implica necessariamente no nome “PSDB” e a retomada de sua evidência como, enfim, centro-esquerda novamente, mas noto como culturamente representativo – da necessidade do brasileiro em cultuar representantes com muita vontade – os elogios do Lula tecidos ao Dória e, não menos importante, neste mesmo momento, o ex-ministro da Educação do governo Dilma e apoiador do PT, Renato Janine Ribeiro fazendo o mesmo com outras palavras.

Um dos fatos, dentre tantos outros que delineiam a coluna vertebral do brasileiro, em sua esmagadora maioria, é que ele acaba por tomar suas opiniões a partir de uma rede de representantes, representações, celebridades e subcelebridades.

Os fragmentos de grupos aos quais o brasileiro se sente pertencido, bem como os sub-líderes desses grupos, também trazem grande influência sobre as opiniões políticas individuais e aqui vai um exemplo bastante óbvio, verídico e recente: a militância LGBTQ+ (um dos cacos da esquerda, dentre tantos outros fragmentos isolados que permanecem ainda hoje) se manifestava fortemente contra o Bolsonaro a época das eleições. De segundo peso, nos dividíamos entre os tolerantes ao Haddad ou os a favor do Ciro. Mas uma maioria votou no Haddad no 2o. turno com medo da vitória do Bolsonaro. Quem estivesse fora dessas linhas de raciocínio e práticas passaram a ser indignos de compreensão.

Outros dois exemplos do envolvimento emocional com representantes na dinâmica do brasileiro – desse culto ao herói – se materializa na maneira como boa parte age a partir das representações técnicas como de Moro, juiz, e Mandetta, médico. Diante de um “inimigo” aparente, no caso de Moro ainda o Lulopetismo e no caso de Mandetta o próprio presidente Bolsonaro, o brasileiro fantasiou e fantasia, respectivamente, esses homens como candidatos à presidência, se abstendo de qualquer reflexão minimamente lógica e racional a respeito dessa possibilidade.

É um desejo emocional psicodélico. É a manifestação da dissonância cognitiva.

Ainda, noto que a extrema direita nacional nascida nos berços contextuais do Lulopetismo e cujo semblante maior é hoje de Bolsonaro, anda bastante fragilizada, perdida, confusa, fragmentada, tanto quanto os resquícios dispersos da esquerda. Sobrarão, sim, os percentuais de radicais bolsominions nascidos nas últimas eleições presidenciais, assim como persistem os resquícios dos, vulgos, esquerdopatas nascidos em outros contextos de “paixonites-representacionais”. Acontece que a religião petista durou mais tempo, então tende a existir mais esquerdopatas do que bolsominions.

Particularmente, eu já me acostumei com a existência e presença desses seres embora, para eles – seja de lá ou de cá – eu seja “em cima do muro”, ou na pior das hipóteses covarde (a crença numa “guerra” é unânime). Nada que eu já não tenha resolvido há 500 sessões de terapia, antes mesmo do nascimento dos bolsominions.

A partir da constatação de que o culto ao representante é uma característica determinante para o jeito do brasileiro manifestar suas posições políticas, o contexto que se apresentou de Lula elogiando Dória, de Renato Janine repetindo o texto e, possivelmente, outras hierarquias de representações fazendo o mesmo no natural efeito dominó do culto, a bandeira branca entre os grupelhos de centro e esquerda deve se estabelecer mais firme, por mais que muitos cidadãos se exaltem como “indomáveis”. O primitivo realmente é indomável. Por isso tentamos ser humanos.

Esses manifestos atuais podem ajudar a desenhar os novos contextos e já estão fazendo. Contexto sobre contexto.

Por fim e não menos importante, a forma da qual a pandemia se concluir no Brasil e principalmente na grande São Paulo, epicentro do coronavírus e da produtividade no país, vai jogar invariavelmente um holofote de luz dura em Jair Bolsonaro e João Dória. Outro holofote de luz dura será das consequências na economia após o “tsunami”: o nível de desemprego, o alargamento da base social, a fome, o sentimento de insegurança, entre outros que estão intimamente conectados à economia e recaem sobre a sociedade.

As luzes serão duras pois tais homens tendem a compor os novos vértices da polarização, tônica dada a qualquer eleição no país há quase uma década. O primeiro tende a embasar todos os argumentos na falência da economia, no crescimento da pobreza, no aumento do desemprego, na quebradeira das empresas, na recessão. A maioria dos brasileiros, de fato, sentirá de perto as ondas pós lockdown e Bolsonaro não terá parcimônia para responsabilizar Dória e quem mais enfrenta-lo nas próximas eleições, a princípio com os mesmos argumentos que usa hoje: “eu preferi o trabalho, vocês preferiram a quarentena. Vocês são responsáveis pelo desastre econômico”.

Se existe uma aposta, essa é a de Bolsonaro.

Por outro lado, Dória e os governadores da maioria dos estados do Brasil, possivelmente, contarão com planilhas estatísticas e uma realidade de controle da pandemia acima da média, invejável para americanos, italianos, espanhóis e franceses, por exemplo. E devem contar ainda com novas ondas de disseminação para novas quarentenas, com uma média de duração de dois anos ou a descoberta da vacina, segundo os cientistas. Planejar e organizar conforme o cronograma da ciência é, por um lado, também invejável e João Dória pode se apropriar bem desse discurso.

Mas será realmente invejável para os brasileiros que fazem e farão parte da linha da pobreza? Daqueles que conviverão com a fome? Com o desemprego? Com empresários de diversos níveis e segmentos com suas empresas falidas, com dívidas e, possivelmente, intimações trabalhistas?

É quase que uma visão transcendente de que a saída para tudo isso não seja nada disso. De que não tanja essas personagens, não tanja esses contextos nem suas consequências. E eu, possivelmente, prestarei atenção em outras alternativas menos populistas, ao máximo fora de tudo isso, como já fiz, não embebido desses vultos que tanto nos emocionam. Mas acho muito difícil uma maioria que vota pelo coração não estar acentuadamente sensibilizado por uma dessas alternativas do salvacionismo.

***

De volta ao momento atual, embora os contextos sejam bem diferentes, vejo Jair Bolsonaro – ironicamente – colocar a forca em seu próprio pescoço com a mesma corda usada pela presidente Dilma. A base é a mesma: a incapacidade de articulação, sendo a articulação o alicerce essencial do ser político.

Ambos, cada qual com sua estética, nunca souberam se expressar, exprimir ideias e traduzir pensamentos de forma simples e não simplória ou confusa. Ambos tiveram o talento de ter o Supremo barrando suas ações (contextos diferentes, mas as mesmas instituições voltando-se contra). Ambos se distanciaram do Congresso. Ambos se confundiram demasiadamente com seus ministros. Ambos tiveram a habilidade de avançar com a insatisfação do povo. E por fim, Bolsonaro, conseguiu ser ainda pior que a sua progenitora: construiu relações reativas com a maioria dos governadores dos 26 Estados.

Acho muito difícil ter o início do rito do Impeachment no contexto de COVID-19, a não ser que Jair Bolsonaro provoque, sem querer (sem querer porque ele não enxerga “the big picture” de forma alguma) uma reação impopular de proporções “atômicas”, mexendo no pilar do brasileiro que é esse culto às representações.

Na segunda, 06 de abril de 2020, ele quase disparou o míssil, não fossem os aconselhamentos de dois de seus “patriarcas” militares. No dia, quando vi as notícias de demissão do Mandetta no UOL, Estadão e Folha, antes das mesmas serem retiradas por ele ter voltado atrás, escrevi:

“Eu tou com uma leve sensação (leve, ainda) que o presidente acabou de cavar o maior buraco para o Impeachment rolar, mesmo em meio a pandemia… isso se não tiver algum recurso para o Supremo barrar a demissão. Que tempos, senhoras e senhores! 🤘&❤️

O fato é que ele voltou atrás minutos depois. E na quarta, 08 de abril de 2020, Alexandre de Moraes, ministro do Supremo, deu total autonomia aos governadores para impor isolamento, com independência das ações do presidente.

Termino o texto de hoje com a máxima que transpus algumas vezes aqui e acho que vale como mantra: “não existe representantes bons para um povo ruim e vice-versa”. Se o povo brasileiro vai melhorar a partir dos traumas e choques de um período de COVID-19? Duvido, a não ser que eu entregue todas minhas boas intenções a minha fé, que não é o caso.

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  1. Saudade dos posts sobre homossexualidade, vida gay!

    1. minhavidagay disse:

      Ahahahah! Há pouco o que falar hoje sobre homossexualidade, vida gay… não vem inspiração a respeito, acho que pelo fato desses temas terem saído do radar, mesmo! :)

  2. Por isso mesmo, com sua capacidade de escrita e reflexão, poderia trazer à temática gay inovações, porque o que temos circulando é sempre repeteco, sempre as mesmas coisas. Você com o seu olhar diferenciado, poderia contribuir e fazer jus ao nome do blog. Resumindo: não gosto muito dos seus posts sobre política, mas respeito. Às vezes me parece que você se coloca num degrau superior exemplo a expressão: esquerdopatas (que ainda afere a condição de doentes); é um desrespeito. E cismou de que a humanidade é isso e aquilo, quando você também faz parte dela.

    1. minhavidagay disse:

      Respeito totalmente sua opinião. Os termos não foram criados por mim. São referências e, no meu caso, não vejo diferença entre a loucura dos esquerdopatas e dos bolsominions… acho que está evidente no texto.

      Eu não cismei com nada. Eu deixo bem embasadas/argumentadas as minhas reflexões, sem impor nada. Os padrões comportamentais humanos, o looping que a mim é notável, são apenas interpretações e é o universo que tem mais atraído ultimamente, que não deixa de ser do ponto de vista da minha vida, do meu ser, ocasionalmente, gay…

      O blog sempre foi um espaço de reflexões, sem verdades absolutas (que na minha opinião não há).

      Veja Danilo, eu mudei os temas do blog há anos. Inclusive já conversamos sobre alguns deles pessoalmente.

      Não me identificar com a polarização não me faz superior, isso é uma interpretação sua, não uma intenção minha.

      O que faz você pensar que, agora, eu voltaria a falar sobre “técnicas inovadoras na vida gay” ou algo assim? Fiquei apenas curioso…

  3. Só quis dizer que eu preferia a temática gay. Mais nada. Você diz que é contra a polarização, mas seu textos tendem sim a um polo bem direitista. Me desculpe falar. E mostra prepotência sim de sua parte inclusive em não aceitar as críticas. Sinto muito baby é o preço que se paga quando se publica algo.

    1. minhavidagay disse:

      Ora, então está pago!

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